terça-feira, fevereiro 28, 2006

Carnaval


A máscara atrás da máscara,
Cebola em finas camadas
E uma lágrima sintética rolando na face
De um Pierrot abraçado a uma vampira...
Num beco próximo, vazio, calado pelo negrume,
Alguém soluça desesperadamente por um amor que era o último,
Alguém se lança pesadamente de uma ponte após uma noite de roleta,
Alguém adormece no passeio, em posição fetal, alcoolizada.
Mas os mascarados só vêem outros mascarados
Numa noite gélida de fins de fevereiro
E o próprio bêbedo do passeio é imaterial,
Inacessível como o tempo que ninguém contabiliza,
Salvo quem adormece, tão só, num sofá, frente a um televisor,
Arrebatado pela gravidade imensa do relógio no pulso caído...
São anjos, Senhor, anjos afogados em lágrimas de sal,
Anjos desfigurados, caídos, por Vós lançados ao carnaval!



Imagem de www.artamuse.com.

Poema de Joaquim Camarinha

segunda-feira, fevereiro 27, 2006

Complexidade da maçã

A complexidade extrema das coisas simples,
O jogo, a avaliação,
O carimbo da certificação,
O mar, só aproximadamente verde, azul, cinzento
E a certeza e confusão de quem não se confunde nem tem certezas,
O jogo, o jogo, o jogo, o jogo
E a adrenalina da vida, demasiada, corroendo as veias,
As veias que se apertam nessa cavalgada insana,
Útil, inútil, útil, inútil, algo...
Fiquei sem palavras, simples e complexas,
Numa palavra, quero silenciar-me.
Dêem-me um café duplo e um calmante forte...



Imagem de www.karenluk.net (de Karen Luk; my excuses to Karen or anybody else in the same situation, but if I had to wait for permissions in a blog that doesn't bring any money in, nobody's pictures would ever be here... Thanks for understanding).

Poema de Joaquim Camarinha

quinta-feira, fevereiro 23, 2006

Quem é Joaquim Camarinha? (4)

Mais uma conversazinha entre o Eu e eu...



Joaquim Camarinha: Preocupa-me a subjectividade na poesia e, consequentemente, a forma como é precebida por quem a lê...
Eu: Como assim?
JC: Preocupa-me, por exemplo, o facto de alguns leitores não lograrem compreender a ironia - que, a mim, me parece óbvia - em alguns poemas.
Eu: Perdes horas de sono por isso?
JC: Não. Felizmente, até durmo muito bem. Custa-me mesmo é a acordar.
Eu: Tem graça... Eu poderia dizer o mesmo! Não achas que dormir é uma perda de tempo?
JC: Acho o sono uma parte da vida tão importante como qualquer outra. E tendencialmente mais confortável, além do mais. Para dizer a verdade, fazem-me impressão as pessoas que queriam dias com 48 horas e que têm o hábito de soltar frases do género "Vamos à luta!".
Eu: Não poderia estar mais de acordo. Mas começaste por falar em subjectividade na poesia... Suponho que isso te impeça, a ti ou a qualquer poeta, de chegar perto do grande público...
JC: A poesia é uma linguagem muito específica. Pela sua natureza, não se pode destinar ao grande público.
Eu: Será que detecto nessas palavras algum laivo de sobranceria?
JC: Sabes muito bem que não. Quem me dera que os meus versos, tal como são, se tornassem best-sellers... Mas trata-se de uma impossibilidade. Por um lado, noto que muita gente tem dificuldade em entender claramente sequer textos, por assim dizer, perfeitamente objectivos. Por outro, a apreciação do texto poético pressupõe um tipo de sensibilidade e abertura que não me parece encontrar-se na generalidade das pessoas.
Eu: Não?
JC: Infelizmente, penso que existe, no máximo, auto-sensibilidade. Daí que o que é pop tenha maior receptividade... Torna-se mais fácil a identificação com um objecto pop, que toque as pessoas no seu âmago, mas de forma mais superficial, menos complexa. Além do que denominei de auto-sensibilidade, existe ainda uma certa sensibilidade momentânea face a desgraças longínquas e pelas quais pouco podemos fazer. Com uma pequena dose de cinismo diria, no entanto, que se trata de algo que alivia o complexo de culpa incentivado pelas sociedades judaico-cristãs.
Eu: Um complexo de culpa generalizado, sentido por todos nós?
JC: Não falo de mim. Trata-se de uma generalidade. Enquanto se perde tempo a sentir culpa desnecessária, não se constrói. Sabes bem até que ponto é comum sofrer por alguém que se encontra do outro lado do mundo, esquecendo, no entanto, quem passa fome ao nosso lado. Sabes que é assim...
Eu: Achas que se trata de um comportamento hipócrita?
JC: Hipócrita, talvez. Mas sem culpa acoplada... E, aliás, a culpa é, uma vez mais, uma noção auto-destrutiva e controladora das nossas sociedades. É normal. Humano. As pessoas fazem menos sentido do que se propagandeia e não costumam, na verdade, planificar os seus passos ao milímetro.
Eu: Bom, mas que tipo de sensibilidade exige a poesia aos seus leitores?
JC: A poesia - e trata-se meramente do meu ponto de vista - exige uma procura apaixonada do que está dentro e fora de nós. O amor da estética. A capacidade de empatizar e fundir-se, nomeadamente com quem cria. E, naturalmente, inteligência semântica. E prática dessa inteligência.
Eu: Quem assim te ler, pode considerar-te demasiadamente auto-convicto...
JC: Não sou nada. Mas sou directo. Não faço grandes filmes para ninguém, ainda que isso me roube todo o sex-appeal ou lá o que roubar... What you see is what you get. Desacredito profundamente da bondade de se enganar os outros sistematicamente. É desse tipo de atitude que nasce grande parte das guerras.
Eu: Uma vez mais, devo concordar. Tens a certeza de que és um heterónimo e não uma espécie de pseudónimo arrevesado?
JC: Claro. As nossas vidas são diferentes, como é diferente a nossa estética poética. Suficientemente diferente, pelo menos. Desculpa se te chego a obrigar a algum esforço para não escreveres à minha maneira! A verdade é que a nossa fractura não é surreal. Não é, direi eu, técnica. Penso que se trata de uma fractura realista...
Eu: Não sei se teria paciência para viver com um heterónimo demasiadamente diferente de mim...
JC: Digo o mesmo e começo a achar-nos demasiadamente concordantes... Já pensaste em divulgar os teus poemas na net?
Eu: Por acaso, depois de muito ter hesitado, sim. Não sei se construa um site ou um blog. Sequer se hei-de construir o que quer que seja!
JC: Sabes que poderás contar comigo para te promover e te oferecer um link...
Eu: Agradeço-te, claro.
JC: Não faço mais do que a minha obrigação.



Foto obtida pelo Eu.

quarta-feira, fevereiro 22, 2006

As baladas de amor

As baladas de amor
Interpretadas por ídolos bonitos,
Falam de paixões e desencontros,
Juram, prometem, garantem e gemem,
Suaves como tecidos sintéticos,
Sonhos de noites sonâmbulas,
Lágrimas humedecendo almofadas brancas,
Gargalhadas altas, desejos de agarrar...
As baladas de amor
Servem para procriar.



Imagem de www.musicroom.com.

Poema de Joaquim Camarinha

sábado, fevereiro 18, 2006

Poesia éeheheh

Poesia é quando Deus cria e o homem sonha.
Um sorriso de criança não chega para criar rugas.
O amor é ledo e belo como é leve o caminhar.
Vêde o passaredo solto a voar no horizonte.
A palavra tem mais força que o disparo de um canhão.

Ai, quem me dera aspirina a esta hora matinal!
Ou dormir horas bastantes... Também não estaria mal.



Imagem de http://ivizlab.sfn.ca.

Poema de Joaquim Camarinha

quinta-feira, fevereiro 16, 2006

As nuvens

As nuvens
Com as suas formas tão diversas,
Tão iguais de tão diversas,
Pairam como balões de água gigantescos
Que algum anjinho nos quer atirar de surpresa...
As nuvens pairam e não páram de pairar
Do fim ao princípio do planeta e regressam,
Assim se passeando lentamente,
Monótonas, fastidiosas como um pensamento nebuloso
- ou é esse, pelo menos, o tipo de frase
Que se espera de um poeta carregado de spleen,
Quase monótono de tanto mal de vivre...
Em verdade, no entanto, estou além das nuvens
E o que realmente sinto é indigestion de vivre.
Será por isso que me dá para falar em estrangeiro?



Imagem de http://static.flickr.com.

Poema de Joaquim Camarinha

quarta-feira, fevereiro 15, 2006

Osama

Os bandidos de uns são os heróis de outros
E, conta-me a experiência, heróis e bandidos
São todos recordados como desenhos animados
- onde fica o ser humano e o que pretendeu ser?
O pó da terra mistura-se, um dia, ao vento do grande deserto
Que encontra o seu caminho por entre narinas apáticas
E se afunda, enfim, no lenço, no saco, no contentor...
Escolheste o teu caminho, se escolheste,
Se alguém chega a escolher alguma coisa,
E foste terminar-te numa imensa cratera estéril...
Sobre ela move-se o universo indiferente
E o vento estelar engolindo todas as pegadas.



Imagens de http://faithgambler.typepad.com, www.jannis.dk e http://heihe.westgis.ac.cn.

Poema de Joaquim Camarinha

terça-feira, fevereiro 14, 2006

Lembro-me dos dias...

Lembro-me dos dias
Em que o tempo era largo, largo...
Então, chegou a invisível morte.
Matou pessoas.
Matou afectos.
Matou esperanças.
Convicções...
Pior, muito pior,
Colocou todos os relógios do mundo em funcionamento
E disse: "Tudo é ilusório. Só eu sou real."
Aí, escutei a poesia das pessoas
Como folhas douradas no bafo outonal...
Mas quando me lembro dos dias
Em que o tempo era largo, tão imenso,
Acende-se-me uma tal tristeza, tão larga, tão larga,
Que mora no infinito, além de todas as tristezas
E de todas as mortes presentes, passadas e futuras...



Imagem de www.starcityhomedecor.com.

Poema de Joaquim Camarinha

segunda-feira, fevereiro 13, 2006

As palavras

Quantas palavras me cabem na cabeça?
Palavras em voz baixa...
Silêncios ensurdecedores...
As palavras todas empilhadas, criogenizadas,
E fervilham, fervilham sem parar...
Que estranhos simbolismos escondem as palavras?
Este abecedário como um terço repetido,
Esta confusão de sons em movimento,
Este caos primevo de sentidos que se entrechocam,
Ondas imensas de palavras
A salpicarem-me o rosto e a alma...
E é tudo alma, as palavras, mesmo as más,
Todos os sons que me obrigam a pensar.
Sabes? Olá! Gosto! Não é? Acho... O quê? Horrível!
Não... Nunca uma palavra pode ser horrível...
Pode ser gelada, cortante, doentia, destruir toda uma vida,
Pode ser a menos e a mais, mas horrível não.
As palavras são o princípio, o meio e o fim,
A existência plena, bêbeda de Espírito Santo.



Imagem de www.elizabethnuti.com (tela de Elizabeth Nuti).

Poema de Joaquim Camarinha

Castelo de cartas

Uma criança encosta duas cartas
E encosta outra e outra e outra...
Passa tanta gente ao lado, todos ao lado a passar
E a criança concentrada,
Os números e as figuras
E a criança a equilibrar...
Passa a chuva e passa o sol,
Passam cheiros, passam cores,
Passam meses, passam anos,
Passam todos a correr...
E a criança a conceber.
Um belo dia, vem um golpe de vento
E lança as cartas todas por terra!
Mas a criança não chora,
Não fica sequer a observar.
Sumiu-se o castelo de cartas,
Sumiu-se a vida no ar...



Imagem de http://4apuzzle.com.

Poema de Joaquim Camarinha

Bluffart nº 2

Campo de alfaces urbano com minhoca nº 2 (tela de Joaquim Camarinha)



Encontro-me submerso numa maré cheia de tristes obras de arte,
Que nem tristes são, por só conhecerem a tristeza dos dicionários,
Obras-primas do calaceirismo, pós-calaceirismo,
Pré-calaceirismo talvez, na mais triste hipótese...
Coisas que me anestesiam os sentidos
Como a música que chega a rastejar do elevador.
Ou talvez não sejam tristes mas alegres,
Ou vice-versa para quem quiser, que sei eu?
São obras de arte tristes e alegres porque relativas como tudo o mais...
Eu próprio não tenho certezas. E como poderia ter?
Os críticos ufanam-se na procura ufanadora do novo
Em que o novo vibra de espanto face à absoluta incompetência do passado...
Diletância, diletância, absoluto-relativo, e quem tem algo a acrescer?
É um universo Einsteiniano em que minhocas jogam com dados viciados.

Poema de Joaquim Camarinha

sábado, fevereiro 11, 2006

Pleno dia e todos dormem...

Pleno dia e todos dormem...
Dormem nas ruas e nos cafés,
Dormem ao volante e à secretária,
Dormem quando amam e odeiam,
Dormem quando opinam e quando estão calados.
Dormem um sono de tal modo profundo,
Peixes bizarros na mais funda fossa submarina...
E eu percorro as ruas onde mora o sono,
Sempre à superfície, batido pelo mar bravio...
Quem me agrilhoou à tona do Mar Morto?
Que crueldade dos deuses me forçou a esta insónia,
A este estado criminoso de lucidez atroz,
Quem me roubou as pálpebras e porquê?
Porquê... E isso é pergunta que se faça?
Dormem todos pela vida fora,
Nas ruas, nos cafés e em todo o lado...
E eu, sempre à mesma hora, no mesmo lugar,
Vivo acordado, acordado, acordado!



Imagem de www.waterbrush.com (tela de Dominik Dryja).

Poema de Joaquim Camarinha

Dor de pensar

Passo junto a uma gorda e penso: "gorda!".
Passo junto a um ignorante e penso: "ignorante!".
Passo junto a um bandalho e penso: "bandalho!".
Passo junto a um novo-rico e penso: "novo-rico!".
E estou sempre a passar e a pensar...
Penso de forma tão crua, tão sucinta,
Automática como a engrenagem de uma fábrica sombria,
Sempre oleada, sempre revista por engenheiros eficazes...
Sou uma verdadeira revolução capitalista chinesa
Na conquista compulsiva do mundo conhecido!
E estou sempre e sempre a passar junto a mim mesmo
E a pensar, a pensar, a pensar, a pensar,
A pensar tanto numa dor tão profundamente aguda
Que, como direi?, me dói agudamente pensar.
Cala-te pensamento! Preciso de descansar...



Imagem de www.berkaweb.com.

Poema de Joaquim Camarinha

quinta-feira, fevereiro 09, 2006

A Coxa

MOTE:

"...Depois me deitei novamente, acendi um cigarro e fiquei pensando...
- Humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei."

(Manuel Bandeira)


Passou por mim uma coxa...
Tinha, coitada, uma perna menor que a outra
E pareceu-me ler-lhe nos lábios, nas roupas, no olhar,
O esforço desmedido de quem luta pelo impossível equilíbrio.
Todos corriam, atarefados, em todas as direcções,
Tensos com a vida, decididos, derrotados.
Alguns carregavam pesadíssimos sacos de compras
E planeavam mentalmente o jantar para a família.
Um par de namorados argumentava, cerradamente, sobre coisas sérias,
Toldavam-se, contidamente, em gestos, palavras e expressões.
A coxa parara junto a uma montra de revistas... Descansava.
Então, um rapaz segurou-a por trás, pela cintura,
Beijou-a e pronunciou um "meu amor" seguro.
A lágrima contida já se soltara do olhar dos namorados...
Colando mais um cigarro incandescente aos meus lábios enxutos,
Fiquei quieto, muito quieto, a pensar...
Humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei.



Imagem de www.louisefarrel.com (escultura de Louise Farrel).

Poema de Joaquim Camarinha

quarta-feira, fevereiro 08, 2006

O Sol

Quando não encontro nada para dizer,
Procuro o sol, embrulho-me no sol,
Alimento o meu olhar de sol,
Porque o sol diz-me, sem palavras, tudo o que tenho que saber.
O sol sobre campos e montanhas,
Sobre rios, mares e lagos,
Sobre prédios e vivendas,
Sobre fábricas, estradas e aeroportos...
O sol dita-me imagens desconexamente belas,
Emanações exclusivas do etéreo:
Cor, temperatura, luz, som, silêncio, movimento...
O sol fala-me como um grande professor inesquecível
E faz-me sentir como um perpétuo estagiário,
Eufórico e ousado em festas de início e fim de curso.



Imagem de www.postershop.com (tela de Roy Lichtenstein).

Poema de Joaquim Camarinha

segunda-feira, fevereiro 06, 2006

As pessoas

As pessoas fazem caretas...
Torcem os narizes,
Retorcem as bocas,
Extraem macacos do nariz.
Olham-se ao espelho e compõem o cabelo.
Nos templos, sabem-se à imagem de Deus.
Há ainda os que imaginam Deus a ladrar,
A uivar, a rosnar, tudo menos a falar como as pessoas!
Pessoalmente, gosto de árvores, pedras e paisagens...
As pessoas zangam-se muito contra as pessoas
E sublimam-se nas feras que as podem devorar.
Seriam engraçadas, as pessoas, não fora a sua trágica natureza...



Imagem de www.lazygranch.com.

Poema de Joaquim Camarinha

Niilismo

Dissertavas tu sobre o niilismo...
Visualizei-me, então, nas águas do Nilo,
Entre os dentes eficazes de um crocodilo,
Totalmente entregue à ordem natural das coisas...
Seguidamente, imaginei o depois...
Isso, meu caro, é niilismo e nada mais.



Imagem de www.medinaarts.com.

Poema de Joaquim Camarinha

domingo, fevereiro 05, 2006

Sangue e verdade

Vejo-os de todas as nacionalidades, línguas, cores e crenças...
Vivem com o espírito da família e com o da traição.
Por metálicas moedas desprezíveis, quantos não venderam os seus melhores
Para logo perderem a existência em suicidárias roletas russas?
Tivesse a miséria ingenuamente oculta desaparecido das vidas,
Não tivessem todos sido terra na terra lamacenta
A fervilhar intensa da vermínea e dos vulcões...
Tivesse o acto virulento da família e da traição
Gerado algum sentido, algum resquício de verdade,
Algum esquecimento das cruzes e coroas de espinhos,
As lágrimas de uns entrecortadas das gargalhadas de outros,
E já tanta inoperância ganharia algum valor...
Não fossem o sangue seco e as crostas memoráveis a vergonha do mundo velho,
O sangue, tanto e tão naturalmente jorrando de corpos jovens e já esclerosados,
E em verdade nos poderíamos fundir no sol nascente como raios ao vento invisível...
Mas tudo é, já o afirmei?, de tal forma amalgamado,
A pastosidade do sangue, o eufemismo da verdade,
Que o único sentido possível da vida
Só pode ser não o procurar.



Imagem de www.trentu.ca.

Poema de Joaquim Camarinha

sábado, fevereiro 04, 2006

Duas quadras e dois tercetos


Atrás de uma porta de vidro martelado
Esconde-se quem de tudo tem certeza...
Encontra-se por si mesmo acorrentado
E respira palavras sérias e tristeza.

Não esquece e a memória é para si uma doença,
Antes fora amnésico com um sorriso verdadeiro!
Mas não. Tem um confuso sentido de pertença
Que o faz a nada nunca pertencer por inteiro.

Para ele, no mundo todos estão errados
Pois não têm honra, o que quer que seja:
O seu narcótico melhor quando fraqueja.

Um turbilhão de sentimentos baralhados,
Todo coração e raciocínio inteiramente,
Mora num quadrado redondo e auto-indulgente.



Imagens de http://catsonmars.com, http://tpe.mennecy.free.fr e www.clas.ufl.edu.

Poema de Joaquim Camarinha

quinta-feira, fevereiro 02, 2006

Bluffart

Parece que o mundo está atravancado de praças mais belas do mundo...
Umas no Porto, outras em Xangai
E, porque não?, também no interior desertificado.
Um eucalipto pode ser uma praça
E um carreiro de formigas, uma avenida -
Tão satisfatório!
A arte somos todos: eu, tu, eu, ela,
Em fluxus de esquecimento
De que se pode ser horrível sem se ser belo
Ou não se ser sequer coisa nenhuma.
Mas a arte não passa de uma palavra, dizem, ou disseram,
Dizem, digo, porque ainda se encontra em livros.
Vou criar, numa instalação, a praça mais bela do mundo:
Um grão de poeira sobre um pedestal imaginário
E chamar-lhe-ei, transitoriamente, verdade universal.



Imagem de http://nataliedee.com/.

Poema de Joaquim Camarinha

quarta-feira, fevereiro 01, 2006

Verdade/Inverdade

Fazem-se as coisas por rotina
E para fugir à rotina
E voa-se, agarrados à barra das saias do vento
Fonte impermanente imitadora de pensamentos,
Inquieta e ilusória como as manhãs.
Mente-se sem mentir quando se dizem verdades
Mas, a verdade, uma única vez alguém afirmou convictamente:
"Eu sou a verdade".
E daí, quem sabe?
Acabou crucificado e essa foi, porventura, a verdade.
A minha verdade está algures,
Como um ficheiro secreto,
Uma ficção entremeada de publicidade,
Uma rotina para lhe escapar.
Tudo isso recorda-me os tempos da infância,
Quando nos castigavam por dizermos a verdade...
Todos andámos na mesma escola aproximadamente,
Todos os nossos professores
Falavam como gente,
Vestiam como gente,
Olhavam como gente,
Gesticulavam como gente
E afirmavam como gente.
Escolas de luxo? Escolas de lixo?
Ensinaram-nos a escapar ao martírio
Antes mesmo que o galo cantasse.
Incutiram-nos o valor da santa mentira branca
E garantiram-nos sermos seres à imagem de Deus...
Mas a verdade só existe nos livros sagrados
E em romances policiais...
Eu não sou a verdade.
Nada mais faço do que cantar para aves coloridas
Que me escutam e são os meus discípulos impermanentes...
Vão pelo mundo e espalhem a palavra!
Mas palavras são palavras
E a verdade só ganha dimensão
Quando conquista o mercado,
Impermanente, porque tudo o é.
E tudo isto se torna uma lengalenga tal
Que só dá vontade de jogar às escondidas ou à cabra-cega...



Imagem de www.luc.edu (tela de Jackson Pollock).

Poema de Joaquim Camarinha

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