sexta-feira, abril 28, 2006

Sun King

BAÚ DE MEMÓRIAS


Sol sol sol gotejando no dedilhando da guitarra e o balouçando do baixo invade-me os sentidos de palácios e sebes de jardins em nuvens altas, oh palácios alucinantes na minha visão tão aguda em palavras tão perfeitamente encadeadas, a linguagem primordial, o esperanto, a esperança, o coelacanto, o mecanismo divino, relojoeiro, acho que também há velhos relógios dourados em Versailles onde os jardins e os bosques escondem fantasmas entre a estatuária imóvel e guardam histórias e musas e ninfas e ninfetas e no pequeno coreto parece ouvir-se alguém anunciar a chegada do rei sol. Oh, lâminas perfeitas de luz que perpassam as nuvens maneiristas dos céus de Franças e logo me sugam para praias planas de areias baixas e marés perfeitas, os acordes na minha visão, as imagens na minha audição, e tudo, tanto, tão inumerável, no baixo balouçando e a maré que sobe e desce em ondas claras de gráficos a suplicar eternos da capos na mistura, na composição e oh, sebes altaneiras de verdes eternos e geométricos laranjais, quantos sóis em simultâneo, quantas línguas entrelaçadas e toda a aparente incompreensão amalgamada se encontra num pico de beleza instintiva tão mediterrânica sussurrando sorridente que está a chegar o rei sol, vem aí o rei sol...



20 de Junho de 2004



Título original dos The Beatles. Imagem de http://lfa.atu.edu.

quinta-feira, abril 27, 2006

Um certo capitão incerto


É o tempo que me move
A terra, se abalada
A sucção do imenso nada
É o vento que me move
Sou um certo capitão
Sem armas, sem armadura
Sou tudo o que não perdura
Um incerto capitão
Roubaram-me os meus galões
Declararam-me traidor
Chamaram-me sonhador
Chamaram-me idealista
Chamaram-me egocentrista
Roubaram-me os meus galões
Quem o fez, não sei ao certo
Não tenho nada a perder
Não tenho nada a temer
Não tenho nada a dizer


Imagem de www.analogintelligence.co.uk.

quarta-feira, abril 26, 2006

Magic Moments Photoblog

Boa noite onde quer que estejam... Acabo de adicionar aos links do Poesia um blog que, pessoalmente, considero qualquer coisa de espantoso. E não posso deixar de o mencionar. É que dizer que uma imagem fala por mil palavras é um pouco uma frase feita... Ah, mas há excepções! Como o Magic Moments Photoblog, onde a québecoise Étolane, algures perto de Montreal, reúne os melhores trabalhos do grupo Magic Moments. Querem arte? É Arte. Imagens que sejam pura poesia? Ela está lá. E palavra que me mordo de espanto, talvez nem sempre, mas vezes mais do que suficientes para não compreender por que diabo de estado de pura amnésia ainda não tinha este blog nos meus links (dos quais, hão-de reparar igualmente, desapareceram outros tantos neste dia de mudanças - uns, apenas porque deixaram de existir; outros, porque nunca tiveram a fineza de me conceder um link e, aliás, ainda estou à espera que um ou outro, assim daqueles mesmo, mesmo deveras importantes, notem que talvez o devessem fazer - será que se pode ser tão honesto sem nos cair o céu em cima? Who cares? ;) )... Mas ele aí está, o Magic Moments Photoblog, é o que interessa e mais vale tarde do que nunca. Dêem uma olhada e ajuizem se exagero...

Versinhos para desagradar a todos

Não deveria ser necessário, mas cá vai: quem não apreciar brincadeirinhas e levar tudo absolutamente a sério, abstenha-se, por favor, de ler os versinhos que se seguem... Corre o risco de não entender nada. A programação habitual segue dentro de momentos...




Abril

Na madrugada
Um cravo
Desabrochou
Como um céu ao rubro
Como um mar revolto
Nasceu
Uma criança
A esperança






Abril

Por nós ofereceram seu sangue heróico.
Companheiros foram no além-mar!
Seu espírito vive ainda, estóico,
Nas lusas almas. Viva Salazar!








Abril

Esta data que me apraz
Acho das mais importantes...
Só peço justiça e paz
Aos nossos senhores governantes!






Abril

O vento
Vibrou
Nas folhagens
Pinheirais
O mar
Cresceu
Ao fundo
Nossas mãos
Fundiram-se
Numa
Era Abril
Era amor
E o teu céu
Da boca
Era
Todos os gostos
E as constelações






Abril

Um
cra-
vo
sím-
bolo
sinal
Uma
semân-
tica
Da-
ta
aquém
além



Imagens de http://xafarica.weblog.com.pt, http://varetafunda.blogspot.com/, www.estgm.ipb.pt, www.migulski.com e www.jojoworks.com.

segunda-feira, abril 24, 2006

Pobre Job


I

Pobre Job, encurralado entre duas fogueiras!
Conta-se que a fé lhe devolveu tudo a dobrar,
Inclusive os tempos de miséria e decadência
Para sempre multiplicados na recordação...
Que justiça inenarrável lhe não quis apagar a memória?
Pobre árvore de fruto, imóvel e prisoneira da terra ressequida,
Que amargor do seu pingo de fel não-revoltoso,
Paraplégica de nascença, quem a compensou?
Pobre Ahmed, Mahmoud, Selim, trigésimo filho de uma parideira!
Vivendo da caridade nas ruas confusas de odores entrelaçados,
Dormindo à porta da rua, subindo a casa, pela manhã, para servir...
Quem lhe devolverá a alma para que possa entrar no paraíso?




II

Vejo-os pilhar, matar, violentar tudo à passagem,
Improvisar câmaras de gás, monóxido de carbono das chamas da fé,
Banqueteiam-se com leitõezinhos humanos infiéis,
A carne assada cheira-lhes a paraíso...
Cinco mil mortos, todos os dias cinco mil...
Um homem gargalha, santificado no sofrimento alheio,
Exige cinco mil mais, cinco milhões, quantos couberem
Entre as piras justiceiras dos autos de fé
E as nuvens de fumo ascendem, criativas, em direcção aos céus...
É justamente o paraíso o seu destino -
Aí usufruirá de cinco mil virgens, cinco milhões, quantas couberem...
Quem lhes pediu a sua opinião?



Imagens de www.grenblade.com e www.whatreallyhappened.com.

domingo, abril 23, 2006

Chuvisco e cão vadio

BAÚ DE MEMÓRIAS


Pingam da minha caneta avariada
De forma metódica, insistente e calada
Gotas azuis de tédio e desfastio
Como lá fora sobre o pêlo de um cão vadio

Ignoro se pensa ou se uiva mentalmente
Recordando um osso amargo, uma cadela indiferente
Mas sei que as gotas, ridículas e espaçadas
Lhe dão um olhar triste em tristes caminhadas

E o chuvisco cai, cai, cai como a existência
Que o vejo percorrer com lenta persistência
Espécie de cão de Pavlov que só interiorizou
Da vida a recompensa do chuvisco que o molhou

25 de Maio de 2000


Imagem de www.sashadesign.com.

sábado, abril 22, 2006

Nos altares dos deuses


Em tempos antediluvianos
Sacrificavam-se pessoas nos altares dos deuses...
Procurava-se ganhar força desse modo,
Conquistar os poderes do universo.
Em tempos pós-diluvianos
Sacrficam-se pessoas nos altares dos deuses...
Procura-se ganhar força desse modo,
Conquistar os poderes do universo.
Deuses falsos eram adorados,
É o presente que no-lo garante
Na sua auto-imagem espectacular.
Amanhã, enterrar-se-ão os deuses do passado
No grande desfile da sabedoria e racionalidade...
Toquem os tambores e os sintetizadores!
Marchem a prumo! Pisem as vias!
A verdade está nesse dia-a-dia festivo,
No ar sufocado de confetis coloridos,
Nos vivas, nos hurras, nos para sempre de sempre,
Nos gestos aprendidos, nos rituais,
Nas convicções de há um minuto atrás...
Marchem a prumo, marchem sem rumo,
Que o sangue jorre de todas as almas!
É o que nos une e nos civiliza.


Imagens de www.rotten.com, http://web.mit.edu e http://pslasswell.blogspot.com/.

A educação para a castração


I

A maioria das pessoas
Fica lerda quando cresce,
Tão responsáveis, tão sérios,
Incongruentes, também...
São máquinas de clonagem que desabam
Sobre as mentes das crianças,
Sentidos proibidos, normalizadores,
Inquisidores de bem com Deus.
É por isso que todos se queixam do mundo,
Maldizem o mundo e as pessoas,
As pessoas que são as pessoas...
As pessoas incham em imbecilidade.
A poética disto, a sua literariedade,
Está no facto tão óbvio de
A imbecilidade ter mais interpretações possíveis
Do que imbecis possa haver no mundo.



II

Sou ainda um ser pequeno...
Dependo em tudo dos grandes.
Tenho que ter tudo limpo.
Tenho que ter tudo certo.
Tenho que ouvir e calar.
Tenho que ser um boneco.
Tudo isso para crescer...
Tudo isso para crescer
E aprender a mandar.



Imagens do filme The Wall.

sexta-feira, abril 21, 2006

As palavras nº 2


Diz-me uma palavra que signifique algo concreto...
Uma mesa que seja mesa,
Uma cadeira que seja cadeira,
Um ódio que seja ódio,
Um amor que seja amor.
Já enterrei tantas delas e dei à luz outras tantas...
Vá, grita-me uma palavra
Que nos sintonize de facto!
Os cães, quando ladram, entendem a voz da matilha,
Os pássaros conhecem o canto do acasalamento...
Eu posso insultar-te pela honestidade,
Fazer-te feliz calculadamente.
É a linguagem que nos superioriza -
Mas nunca vimos árvores de folha caduca
Lançar à fogueira as de folha perene,
Nunca assistimos ao lapidar de rochas calcárias
Por turbas de formações graníticas,
E nunca algum cometa enraivecido
Causou uma extinção propositadamente.
Diz-me eu e dir-te-ei tu...
Que incómoda pode ser a vida enquanto teste gramatical
!

quinta-feira, abril 20, 2006

Elegia nº 3 (ao João Cordeiro - pintor)


O vento varreu mais uma folha...
Caem todas, todos os dias,
Do cimo de pontes e arranha-céus,
Do topo da vida, do degrau de baixo,
Deixando histórias e imagens soltas
Que qualquer borracha apagará.
Quem se lembra concretamente da floresta?
Eis-me rodeado de fantasmas, vivos e mortos,
Gemendo, lancinantes, nos meus pensamentos,
Que doem, ruidosamente, ruidosamente,
Da criação à recriação...
São gotas de água em torneiras avariadas
As minhas palavras, estas quase-dislexias,
Monumentos a soldados desconhecidos.
Caiu mais uma folha, rodopiou, tremeu,
Estacou e já se afundara...
Não imagino quem fosse,
Não imagino mesmo nada...
Alguém chega e varre as folhas
E quem o pode culpar?


Imagem original de http://community.webshots.com (foto de xxvxxsfaith).

quarta-feira, abril 19, 2006

Quarta-feira de cinzas


Hoje é quarta-feira de cinzas
Sem ser quarta-feira de cinzas,
Pelas cinzas de todos os cigarros,
Pelas cinzas das braseiras do passado,
Pelas cinzas que volteiam pela curva temporal...
Nas ruas, em dias de cinzas,
Não há rectas nem espirais.
Somente rasgos de tintas
Que escorregam além-telas,
Enganam os deuses à passagem,
Perpassam os olhares das deusas
Que nunca parem fins nem princípios.
Belíssimo caos da anarquia natural,
Tão bem oculto por pinturas indeléveis!
Vejo-os felizes, infelizes, indiferentes, enganados,
Convictos de que os relógios marcam horas concretas,
De que Deus zela por cada livre-arbítrio,
Certos da ordem, que é a maior das excentricidades...
Amanhã visitarei a minha sepultura abandonada
Onde jazem todas as ilusões, todos os projectos,
Lançarei ao ar as minhas cinzas em slow motion
E deixar-me-ei submergir por essa chuva suave...
Hoje é quarta-feira de cinzas
E, amanhã, quarta-feira uma vez mais.


Imagem de www.semjaaza.com.

Cerebral


Nestes dias, esqueço-me tão frequentemente...
Não sei de quem... Não sei de quê...
Esqueço-me de falar e de calar a boca,
Chego a esquecer-me mesmo de pensar...
Achas que penso quando formo frases,
Se te faço rir ou se comento o mundo,
Se pareço até raciocinar a sério...
Serei eu mesmo quem contigo fala
Ou um automatismo natural das coisas?
Eis uma pergunta, questão para alguns,
Digna dos tratados de filosofia,
Tratados dos quais já não me recordo
Muito simplesmente porque nunca os li.


Imagem original de http://news.bbc.co.uk.

terça-feira, abril 18, 2006

Vidros, vidros, vidros, vidros!


A minha vida é um escritório moderno,
Tão movimentado, tão envidraçado!
Plantas, árvores, flores, pardais e vidros
E as pessoas, além dos vidros, que interacção!
É também preciso medir tudo, eficazmente e ao segundo,
Ter múltiplos relógios sempre prontos a rebentar,
Porque corro numa gincana e o lugar é importante,
O lugar e a posição entre vidros tão modernos!
Um escritório aberto, envidraçado, activo,
De onde vejo tudo e tudo me vê,
Perfeita modernidade envidraçada!
Bom dia, boa tarde, como vai a noite?
Perfeita, respondo, sem deixar de dormir.


Imagem original de http://iyi.yi.org.

segunda-feira, abril 17, 2006

O pomar da tia Patrocínio


Quando o pomar da tia Patrocínio era imenso,
A padaria, a loja, a furgoneta, a Casa Grande,
Tudo desmesurado, imenso não,
Fazíamos caças ao tesouro e encontrávamos fósseis raros,
As abóboras ofuscavam mais que sóis e os homens pisavam uvas,
Couves e flores, fontanários e charcos
Partilhavam-se em paz desmesurada para a eternidade...
Lembro-me, portanto, do esplendor,
Sinto-lhe o cheiro intenso, toco-o, vejo-o, ouço-o,
Tudo era desmesuradamente calmo por ser tão normal
E vivia-se cada dia sem a noção de se viver cada dia...
Enxadas, regatos, urtigas, figos, cobras de água e morcegos
E o sol, como brilhava, que não brilha nunca mais!
Porque brilha o sol sempre anteontem?
Irei, amanhã, ao pomar da tia Patrocínio,
Explorar minas, fazer cachimbos de cana,
Viver todo o esplendor a posteriori,
Tudo sempre a posteriori na vida a posteriori,
Deixarei que os aromas me comam a alma até além do fundo!
O pior é se nem sequer há alma...
Cala-te memória, que a tua voz distorce,
Falas tão alto, baralhas tudo sem pudor:
Vida e morte, sol e chuva, o tempo e a sua ausência,
Tudo paralisado no umbigo de imagens arrendadas...


Imagem original de http://thompsonriverestates.com.

domingo, abril 16, 2006

Olhos descarados de criança


As crianças fitam-nos com olhos curiosos,
Dir-se-ia descarados, nada ocultam,
E pensam não sei bem o quê porque não sei mesmo...
Parecem lugares-comuns de um mestre-escola poeta-popular
E são, no entanto, a realidade pelos nossos olhos.
Faltam recursos estilísticos?
Os termos são claros demais?
É que, assim encarado por olhos tão claros,
Para quê escurecê-los com teorias da estética?
A estética é uma criança muito complicada:
Custa a educar e nem sempre faz o que mandamos.
O que eu sei é que, por algo que me ultrapassa,
Preocupa-me só estar aberto, hoje, o McDonald's
E preocupa-me tudo o que possais imaginar...
Mas a criança só se preocupa com o hamburguer.

sábado, abril 15, 2006

Sábado de Aleluia


I
Eis as nuvens, o vento e algum chuvisco
E eu, caminhando sobre as brasas do meu inferno privativo...
Talvez seja por ser sábado de Aleluia
Ou outro sábado qualquer, porque nunca sei exactamente,
E enquanto os sinos tocam, escapo-me para o lado oposto.
Porque é que só abrem as igrejas para as plateias de fieis?
É certo que Jesus não está sequer no canto mais oculto desta igreja
Porque nunca foi deste mundo nem daquela igreja
E bebia vinho forte com putas e ladrões,
Não sentia medo que dele fizesse um cordeiro de homens
E não me parece que fosse, de todo, cordeiro...
Já me esqueci do Parténon e das catedrais francesas,
Esqueci-me, aliás, de tudo o que poderia recordar
E, lamento, mas não adoro deuses num estado de figadeira permanente.
Uma motoreta entre pelo passeio dentro em direcção à Câmara
E Jesus sempre se deslocou a pé ou sobre o dorso de burros.



II
Cuidado, porque o perigo espreita em cada esquina!
Aquele tem cara de pedófilo,
O outro tem olhar de assassino,
Mais o outro que te quer roubar pela heroína,
Todos te perseguem, repentistas ou intricados,
Maus, diabólicos, espertos, terroristas,
A internet é um antro de piratas na sombra
E os fumadores matam gente inocente todos os dias.
Soem todas as campainhas: acabou-se o recreio!
Escrevam mil vezes em letra bem legível,
Nos cadernos, nos livros de exercícios e nos quadros,
Eu não sou! Conjuguem o verbo não ser!
Resolvam desequações a vida inteira e assistam aos espaços publicitários!
Ah, recordo-me do Parténon e das catedrais francesas,
Mas não me recordo, porque são imagens feitas, transformadas,
Vidas retalhadas como a própria consciência...
De resto,
Qualquer um sabe que é o medo que educa as crianças.
Sábado de Aleluia!
Jesus ria-se das regras e desprezava o medo,
Era, houve quem achasse, um glutão, um beberrolas,
E crucificaram-no porque se portava mal.
Não se pode incomodar certas pessoas...
Chega a polícia e passa-vos uma multa.
Pelo menos, crucificam-vos devagar...



Primeira imagem original de www.arfmagazine.com. Segunda imagem de www.ginghamsburg.org.

quinta-feira, abril 13, 2006

Dança canibal


TEMA

Caras, esgares, automóveis,
Sentidos, sensações, aviões,
Estrelas, planetas, populações,
Correm, param, fazem coisas
E as coisas fazem mais coisas,
Constroem, obstroem, destroem,
Dá-me o teu número de telefone,
O email. Não? Quero-te engolir.



VARIAÇÃO

As coisas...
Fazem,
Desfazem,
Refazem.
Sem desfazer,
Quero-te engolir.



GRAND FINALE

Entra a orquestra em fortissimo,
Toca uma coisa, outra coisa
E engole o público de um trago.
O público aplaude de pé.
Que quentinho nas entranhas das coisas!...



Imagem de www.phyllisrutigliano.com.

A Morgadinha despede-se


A Morgadinha acabou após uma meteórica passagem pela blogosfera, onde deixou muitos amigos. Ao contrário da maioria dos blogs de topo, tratou-se de um blog simples e bonito, incapaz de despertar a raiva no leitor (como os meus ;) ), nada snob ou pretencioso, bonito como a autora, é certo. E apenas à autora podem respeitar os motivos que a levam a abandonar-nos tão precocemente. À autora e, quiçá, ao sistema pré-totalitário em que nos vamos embrenhando enquanto a maioria dorme em pé...
Nada mais a acrescentar. O link para A Morgadinha vai ser apagado pela simples razão de que o blog já nem sequer existe, embora permaneça vivo nas nossas memórias. Se algum dia decidir regressar, o link regressará também.
Para a Elsa, um beijinho amigo do Jorge, do Joaquim e de mais uns amigos que me pediram para lhe deixar esta mensagem. Até sempre!

Composição espectacular


Quiseram-me os deuses uma vida como um job...
O pó, as pedras, caminhos, buracos,
Crateras de uma vida num mundo terceiro
E os turistas exclamando:
Que feliz na sua forma de estar!
Que infelicidade a dos que fazem férias exóticas
E giram como dados rombos de um zeus bêbedo...
Posso fazer-vos rir, brincar com as palavras...
Salta, jogral, que é carnaval!
Que desejais, milady? Rir? Dançar? Jogar? Um baby?
Mais patético do que as lágrimas do palhaço numa sala decadente
Seria o poeta falar do poeta... Dorme, jogral...
Senhoras e senhores, muito boa noite,
Sois o melhor público do universo inteiro!
Obrigado a todos
E continuação...


Imagem de www.lewisbond.com.

domingo, abril 09, 2006

Os fumadores de haxixe

BAÚ DE MEMÓRIAS


Nestes dias estou, lamento informar, sem disponibilidade para escrever originais. Mas, como poemas não me faltam (e sem querer transmitir a impressão de que sou um sonetista), cá vai mais um que tirei à sorte do baú...



Estendem-se em largas redes ilusórias
Observando as auréolas subindo aos candeeiros
E, como insectos, volteiam dias inteiros
Em torno das faúlhas e memórias

E enquanto cresce e diminui o lume, lento
Como um coração a bombear tensões
Nascem-lhes sorrisos, vácuas expressões
Fogos do artifício que é o pensamento

Quebram-se fracções da recta temporal
Nos breves instantes que dura a ilusão
Dos corpos libertos da cela carnal

E ao esvaziar-se a ténue impressão
Do êxtase ultra-leve, quase irreal
Caem como aves em mansa solidão.


1 de Fevereiro de 2005



Imagem original de www.erowid.org.

quarta-feira, abril 05, 2006

Díptico multinacional



Non está permitido fumar



Na Galiza en Galego! Viva España!
Exclamações colaterais
No placard de um pavilhão...
A rapaza ensaia uns passos
E o mundo não sabe dançar...
Fumam no lado de fora.
Um sapato, um zapatero,
A história vai toda no vento
E o vento está fora de fora.
Recorda-me o Astérix en Corse...
Bombas! Bombinhas de São João. Balões que crescem e morrem.
Que sais-je?
It's a wasteland-land-land-land... Dança, rapaza!
Na Galiza en Galego! Viva España!
Caem gotas grossas que alagam todas as nações.



É proibido proibir



Transformaste-te.
Transformei-me.
Maio morreu
E as cantigas de Maio.
Espaços imensos, lunares,
A prisão, no fundo
De uma cratera neo-realista.
Quem mata Maio senão nós?
Todos os dias me vendo
À indústria que não me compra...
Cresceste.
Cresci.
Estamos feitos?



Imagem de http://kellybuns.dnsalias.org.

segunda-feira, abril 03, 2006

O Canto da Louva-a-Deus

BAÚ DE MEMÓRIAS



Se tiverem vindo a acompanhar o blog, ter-se-ão apercebido de que cheguei a planear fazer um blog como Jorge Simões. Mas tendo em conta esta passagem de testemunho com que o Joaquim nos surpreendeu, vou aproveitar para vos mostrar, de quando em vez, um pouco do que fiz antes de o Joaquim Camarinha se me apoderar da mente e antes de eu me apoderar da sua. Sem ordem cronológica óbvia, apenas ao sabor das apetências. Quando virem um Baú de Memórias, já sabem do que se trata. Para já, começo com um soneto... Porque me apetece - bem à Camarinha!



Uma louva-a-deus esguia e possante
Dissimulada por entre a folhagem
Seduz e conquista o macho vibrante
E auto-satisfeito da sua imagem

Uma vez aquietado esse cio
Assim fornicado o pobre ignorante
Ela abre as patinhas e a frio
Devora, gulosa, o incauto amante

Da mesma maneira, a fêmea carnal
Abre as comportas do seu corpo quente
Goza a antevisão do festim final

E embalado pelo canto adormecente
Em adoração, estranho ritual
O macho oferece a alma a Deus, sorridente


13 de Janeiro de 2005



Imagem de http://outsider.weblog.com.pt/.

Amanita primavera


Eis a primavera passarinheira,
Radiosa, florida e aromática!
Os mareantes que rumam ao mar alto,
Os lavradores que trilham os terrenos,
Os citadinos que enchem esplanadas
E os alérgicos, inclusive, sorriem a cada espirro...
Dom Sebastião apodreceu num calabouço marroquino
E o Quinto Império nunca brotará
Mas, garantiram-me, foi visto abraçado a um magic mushroom.
De certa forma, vai-se cumprindo Portugal...
Falta apenas cumprir-se a primavera!


Imagem de www.ics.uci.edu.

Joaquim Camarinha despede-se


Foi com certa surpresa, não diria uma surpresa total, mas alguma surpresa, que hoje encontrei na minha caixa de correio a seguinte carta de Joaquim Camarinha, que passo a revelar-vos:

Meu caro Jorge,

Sei que a minha decisão te apanhará de surpresa (ou nem tanto), como de surpresa apanhará todos os que, em Portugal e no estrangeiro, têm vindo a acompanhar o Poesia para quem quiser... A ti, pela paciência e amizade demonstradas ao manteres-te serenamente na sombra, a todos os restantes, pelo apreço maior do que poderia ter imaginado, agradeço do fundo do coração.
A verdade, no entanto, é que Portugal se torna muito pequeno para mim. Vejo-nos todos atolados em crise após crise, ninguém suficientemente capaz para encontrar saídas válidas, algum provincianismo também, devo confessá-lo, e tudo isso acaba por, de algum modo me sufocar!
É assim que decido partir. Não revelarei o meu destino, os meus destinos, sei apenas que são meus, mas prometo enviar notícias sempre que tal me seja possível e sempre que me apeteça... Parto hoje mesmo. De facto, já parti. O mundo é um sítio pequeno e está na altura de o conhecer um pouco mais...
Tudo o que te peço é que não permitas a morte deste blog que criei com muito gosto, a que dediquei muito do meu tempo, e que cresceu mais do que incialmente previ, tendo em conta a sua especificidade... Em número de textos publicados e em amigos.
Sei que não te será difícil... Na realidade, venho, de há tempos para cá, constatando que, de algum modo, tens vindo a tomar conta das minhas criações. Este espaço afigura-se-me, actualmente, tanto meu como teu. Nada que te leve a mal. Acho mesmo perfeitamente natural. Tu e eu somos o mesmo sem o sermos e, se mais ninguém o compreender, compreendêmo-lo nós.
Peço-te ainda que mantenhas a escolha estética - porque é nossa e não apenas minha. Peço-te que mantenhas a força na escrita, as opções que aqui desenvolvi, que o Poesia para quem quiser permaneça vivo e coerente. Para tal, conto contigo e sei que posso fazê-lo...
Um grande abraço fraterno e até sempre!

Joaquim Camarinha

Bom, que posso acrescentar? Joaquim, podes confiar. Farei o meu melhor para honrar os teus desejos. De resto, desejo-te boas viagens, muitas descobertas, novas inspirações e espero que nos contactes ocasionalmente, que nos envies, inclusive, um poema ou outro, se para tal te sentires inspirado. Um abraço meu e de todos nós.



Imagem de http://lunaroutpost.com.

Nota final: vejo que todos os poemas até agora publicados passaram a conter a minha assinatura, em lugar da de Joaquim Camarinha. Coisas do blogger que não sei resolver. Se alguém souber e tiver a amabilidade de me transmitir uma solução destinada a repor a verdade - que todos os poemas até agora publicados são da autoria de Joaquim Camarinha - agradeço muito sinceramente.


Segunda nota, só para quem interessar: se forem bisbilhotar o meu perfil, verificarão que o mesmo indica que o meu signo solar é Capricórnio. O significado disso é que o blogger não sabe traçar cartas astrais. No dia em que nasci, à hora em que nasci, o meu signo solar é Sagitário, tal como o meu ascendente é Sagitário.

sábado, abril 01, 2006

Ashes to ashes (funk to funky)


O padre-cura balbucia um xamanismo desbotado
Na pequena igreja pseudo-barroca face ao café de pseudo-província,
Envia uns para o céu, outros para o inferno,
Ambos justos e eternos no seu português incorrectíssimo...
A lengalenga dos sinos interrompe a missa como um cortejo de telemóveis.
Amen, diz ele, e todos nos sentamos e erguemos ao seu comando.
Depois, segue-se em silêncio pelos caminhos pedregosos...
O cadáver segue à frente, numa serenidade única, irreal.
Eu vi Santa Rita dar a lotaria a um tetraplégico!, alguém exclama.
E eu vi-a dar um cancro a um homem rico!, exclama-se também.
Santo, santo, santo!
Ashes to ashes, dust to dust.



Imagem original de http://us.news1.yimg.com.

Poema de Joaquim Camarinha

advertising
advertising Counter