terça-feira, junho 29, 2010

Ode interminável





A vida é um sonho num sonho num sonho...
Pergunte-se aos deserdados
Aos descamisados
Aos desencontrados
Aos desencorajados
Aos esventrados em todos os tons arroxeados...
Pergunte-se ao Deus que não existe nas religiões
Aos Deuses de todas as regiões
Ao Deus metafórico despersonalizado
Ao cordeiro forçosamente sacrificado
De quem jorra sangue como um recurso de estilo
Se magoa, para que serve, para que existe ou não existe
Se acorda, por vezes, alegre ou triste
Se chega a compreender-se entre tanto e tanto espelho
Se por vezes se lhe adocica o sangue coalhado vermelho...
O sonho é um sonho num sonho num sonho...
Que energia tão plena de cansaço!
Passa o carro, passa o poste, passa a casa
Passa o prado, passa o rio, passa a nuvem
Passa tudo, tão imóvel, volteando
Passa o parto e o funeral avançando
E o tempo recobre tudo como um sudário invisível
Branco de todas as cores na negridão insensível...
O sonho é um sonho num sonho num sonho...
Pergunte-se ao puto pateta no seu mundo luxuoso
O que lhe é importante, o que lhe é precioso
O que é dormir numa esteira e curvar-se receoso...
Estará alguma resposta nos cães de instinto a guardar?
Estará alguma resposta nos gatos dormindo a caçar?
Alguma resposta nos Deuses que sonham aleatoriamente
E tanto sonham com pedras como congeminam gente?
Será procurar respostas um gesto inconsequente?
Um sonho num sonho num sonho num sonho...
E não há princípio nem fim.


Imagem de: http://mylifestream.net.

Recordação muito breve





Recordo-me de Lobsang, de Robert, de Eugenio
De quando o tempo brilhava na inocência da procura
Mas os livros apodrecem e nenhuma ideia dura
E já ninguém vê objectos entre a ausência de oxigénio

Recordo-me e não me recordo com a memória transmutada
De quando o tempo brilhava em galáxias e universos
E havia quem protestasse e sonhasse nos seus versos...
Se me recordo de algo não me recordo de nada.


Imagem de: www.xenophilia.com.

domingo, junho 20, 2010

Sobre Saramago depois de Saramago e os outros





Eis as cerimónias fúnebres de Saramago concluídas... Em Lisboa. Bom, tantos de nós pudemos ver e ouvir o autor exprimir o desejo de vir a ser sepultado sob uma pedra no seu jardim ou, ocasionalmente, sob uma oliveira, que bem poderíamos imaginar conspirações politiqueiras com alguma razão. Mas se Pilar, ela mesma, terá afirmado contar-se entre os últimos desejos do marido ser sepultado em Portugal, na terra-natal de Azinhaga do Ribatejo, não creio que nos restem razões para tal. Já escutar António Costa colocar Lisboa no centro da obra de José Saramago parece, pelo menos, estranho. Como parecem estranhas as pressões diversas para lhe desviar as cinzas para o Panteão. Parece estranho e desrespeitoso para com alguém que já não tem possibilidade de se expressar. Parece Lisboa, uma vez mais, sugando gulosamente as vontades e o território...
Estranha não é, de modo algum e por outro lado, a ausência de Sousa Lara no adeus ao escritor. Mas que dizer da permanência do presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, e do presidente da Assembleia da República, Jaime Gama, ambos em férias nos Açores? Tacanhez? Comodismo exacerbado? Falta de maneiras? Desrespeito certamente. Felizmente, creio bem, Saramago sentiria menos as ausências do que eu mesmo e tantos outros. E não sendo esta, nem de longe nem de perto, uma declaração de voto, não deixa de ser comida para o pensamento acerca do povo que somos e sobre as figuras máximas da nação que pretendemos ser.


Imagem de: http://img.informador.com.mx.

sexta-feira, junho 18, 2010

Morreu José Saramago





Morreu José Saramago, vítima de doença prolongada que desconhecia e desconheço no pormenor. Deixa-nos uma obra, gloriosamente concluída com Caim, onde encontrou uma perfeita fluência e um fino sentido de humor que só a idade concede. Nobel da literatura, em nada o deveu a Portugal. Custa-me, aliás, pensar sem esforço em qualquer português valoroso que tenha ficado devedor deste país... Deixa-nos um artista obviamente importante, com uma obra variada e inovadora, um cidadão mais universalmente representativo de Portugal do que tanta da choldra que agora o lamentará. Um cidadão que sempre se exprimiu livremente, com mais ou menos razão, o que não deixa de ser subjectivo, mas livremente. Os outros, os medíocres, os não livres, irritavam-se e chamavam-lhe arrogante enquanto se atribuiam prémios mutuamente. Não me apetece, de momento, dedicar-lhe um poema apressado. Que descanse em paz no céu que melhor lhe aprouver...


Imagem de: http://arrastao.org.

segunda-feira, junho 07, 2010

T1





Vejo um T1 à venda há anos
Através da vidraça divisória
E a Europa, outrora bela e com memória
Mendigando no mercado dos enganos

Tudo números, como o número desenhado
Desgastado na varanda do terceiro
E ouvimos na TV o dia inteiro
Falar num cinto estreito e apertado

A Hungria em bancarrota ameaçante
A Grécia perto da revolução
E os ecrãs enchem-se com a Selecção
Nesta terra tão bizarra de distante

Na Assembleia riem deputados
De ironias atiradas pelo ar
E tudo vai andando com vagar
Nesta terra flutuante de calados

Indiferem-me os feitos do passado
Não sonho com torres de cristal
Digam-me antes o que são o bem e o mal
E o que faz algum sentido aproximado

Na distante China jogam todos
Os neoliberais e a populaça
E enquanto alguns se afundam pela vidraça
Para outros o champanhe corre a rodos


Imagem de: http://poetryfoundation.org.

Mas que...?!!?





"Mas que merda é esta?!!?...",
Urrava o diseur à plateia adormecida
Na feira do livro acinzentada
Sob um sol que imitava a trovoada.
Era domingo e eu seguia de mão dada
Com o meu filho ao longo da avenida.

"Mas que merda é esta?!!?..." -
Ora, era isso mesmo que eu, então,
(Sem qualquer intento de plágio ou imitação)
Lhe deveria ter perguntado
Se fazê-lo não fôra inadequado.


Imagem de: www.sesow.com (tela de Matt Sesow).

sexta-feira, junho 04, 2010

Criar recriar recrear





Aves, répteis, mamíferos, vírus, bactérias, insectos
Seres rastejantes sob pedras e as próprias pedras
Plantas que oxigenam como poderiam não oxigenar
Mesas, televisores, carros, autocarros, aviões
O sol e a chuva, a neve e o granizo
Somos, ao que parece, irmãos sob o céu

Confesso, porém, ao calor dos raios cósmicos
À luz invisível das aparências componentes
Matei moscas, mosquitos, besouros, centopeias
Exterminei ninhos inteiros de vespas inimigas
Como um soldado em plena selva, rambo metafórico
E fi-lo com o prazer atónito da arbitrariedade
Sentei-me, tomei café, fumei um cigarro e conversei

Acho que me perco entre fragmentos de religiões
E penso em São Bob Dylan, mestre das palavras
Embora tal devoção só possa ser intuída instintivamente
E tanto se me dê como se me dá pois desconheço todas as razões


Imagem de: www.roanoke.edu.

quarta-feira, junho 02, 2010

Tem que haver de tudo





Arquitectos, engenheiros, professores
Médicos, enfermeiros, artistas plásticos
Operários indiferenciados e especializados
Vendedores e varredores dos restos colectivos
Polícias, malfeitores e obcecados
Tem que haver de tudo
Para perfazer uma espécie de tudo

E tem que haver a verdura longa dos relvados
E as nuvens brancas em farrapos de nirvana
E o passarinho que cata a minhoca fugidia
E o pensamento intuitivo, que é mais natural

Tem que haver de tudo
E é o que basta por vezes
A existência sem dúvida nem método
Dispersa pelo tempo como um faz-de-conta


Imagem de: http://photo.digitha.net. (monges budistas construindo uma mandala)
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