terça-feira, abril 17, 2018

Inhale - exhale


Os heróis não têm céu
Nem inferno ou purgatório
Nem limbo das intenções
Caminham na berma das ruas
Sós em auto-estradas nuas
Em pano de fundo, canções
Sacadas de um repertório
De ruído, caos e breu
Era o destino, o destino
E o grande herói do momento
Suicida-se rumo ao poente
E o público abandona a sala
Ele diz isto, ela fala
Estendem-se na cama quente
E bebem do esquecimento
E a noite apaga as memórias
De heróis-traidores e de histórias

Imagem de: FilmBook

segunda-feira, abril 16, 2018

O tempo ilusório


Banana esmagada com garfo e geleia
Um grande panelão de mel da aldeia
Lascas pequenas de bacalhau cru
E os cheiros e imagens tão subjetivados
Tudo antes da vida e aquém da morte
Num tempo que pode até não ter sido
Sessenta por cento de bichos e plantas
E o sapiens convicto de estar ao comando
De ser por inteiro uma entidade plena
Sapiens delirante, o que quer que seja
Massa heterogénea de argila e conceitos
À espera que a alma trespasse um fotão
Banana esmagada, fonte de potássio
Desejo do eterno, nem que material
E um panelão grande feito de metal

segunda-feira, março 26, 2018

Tudo flutua


Tudo flutua no universo canibal
Onde a flor pequena suga o sangue terreal
Flutua ou volteia e chega e afasta
E nunca nada está e nunca nada basta
Tudo flutua no universo iconoclasta
Onde cada fim é um esforço inicial
Tudo flutua, a foice sobre um ponto
Nada planeies pois tudo é um espanto
Tudo flutua na matrix poderosa
Como a chuva curva abatida sobre a rosa
E nada podemos, achando que fazemos
E cada livre-arbítrio sobre o tabuleiro
Pode ser um caos, esmigalhado, inteiro
Pode ser tudo o que desconhecemos
E tudo flutua em pose assassina
Flutua ou volteia na força estelar
Em imitações perdidas no ar
E no cosmos negro que nos alucina
Tudo volteia numa obsessão
Toda mascarada de ponderação

Imagem de: Pixbay - Universe Person Silhouette Star Joy Hug He

quinta-feira, março 15, 2018

Sonhos



Todos os meus sonhos são simples
Como um raio de sol num campo de orvalho
Ou desejar a paz no meu mundo
Que não é só meu e é grande e pequeno
Pela noite fora, pela vida fora
Pelo rio dentro que longe se estende
Lençol de papoilas vermelhas de sangue
Céu do pensamento em nuvens rendado
Pois eu nada exijo e por nada espero
E a simplicidade é tudo o que quero

Imagem de: Focused Moments

sexta-feira, março 02, 2018

Silêncio ruidoso do Natal


Noite de Natal, estou só
Frente à telefonia antiga
Sobre a alcatifa meio rasgada
Toda a gente come o pão-de-ló
Toda a gente bebe a jeropiga
Ou o bolo-rei ou o que seja
Donos do bolo e da cereja
Trocam prendas, cheios de cagança
Fumam muito, enchem muito a pança;
Na poltrona velha, desgastada
Também fumo e penso e nada.
Foi há muito, muito tempo e surreal
Ou irreal (em casa, um vendaval):
A minha mãe na ilusão da caridade
Pai, avó, sepultados na cidade
O meu irmão talvez com os seus parceiros
E eu só, enfrentando esses fantasmas
Na memória, memória que me sarcasmas
Em risos desdentados, pouco inteiros.
Nem um tiquetaque de um relógio inexistente
Todos os ruídos, doidos, só na mente.
E como pode alguém saber o que se sente?

Imagem de: Abandoned Places

segunda-feira, fevereiro 26, 2018

Lentamente


Gosto de ir caminhando lentamente
Como o caracol e o sol
Num dia quente
E a nuvem esfiapada no azul
Sem saber do norte nem do sul
E a música passa como o vento
E o ruído dos motores e os placards
Alheio a tudo e ao solo e aos ares
E aos mares, quaisquer, tudo tão lento
E em meu redor corre um filme sem autor
Que tarde é já que ainda é tão cedo
Trip total, saudável e sem medo
E trago o ritmo todo na cabeça
Como uma peça que encaixa noutra peça
Em harmonia extensa do dia sedutor

Imagem de: Clutter Busting

quarta-feira, fevereiro 21, 2018

Memory of a free festival


No universo, tudo se transforma a cada dia
E, a mim, pouco me importa Lavoisier
Pois a existência está no cérebro, alma, verve
E não na Coisa, a engrenagem não me serve
Falta-me saber se vejo o que se vê
E se isso tem alguma serventia
 
Por isso, olhei para um sol imaginário
(um sol de pleno verão, não refratário)
Sonhando as flores brotando de algum lado
E entoei, sorrindo, um mantra do passado:
The sun machine is coming down
And we're gonna have a party
 
Imagem de: Media Drum World

quinta-feira, janeiro 25, 2018

O tempo das coisas



O rio fluía e poderia ser um deus
Em direção à deusa brisa naqueles céus
De um lusco-fusco estranho em sépia borratado
Onde tudo é todos e isso é todo o lado
E a deusa rocha dorme à sombra da sequoia
Que um urso deus arranha, onde se enrola uma jiboia
Tudo isso há muito tempo, ou direi antes,
Em universos improváveis, hierofantes
Das coisas e dos seres, num antigo baque
E os macacos sapiens só semente de Prozac

Imagem de: Philippe Marangoz em Pinterest



segunda-feira, janeiro 15, 2018

Blue Sun Day


O corpo jaz ainda quente
Arrefece lentamente e jaz
Cinco dólares, cinco libras
Cinco euros, tanto faz
Pois tudo é feito de fibras
E as coisas existem na mente
O corpo dobrado pisou
Palcos, ruas e inventou
(The guns shot above our heads)
Na Berlim de um tempo ido
Na Paris de cemitérios
O corpo exaurido cantou
Como mil balas explosivas
Num intenso vagido carnal
Insana alegria primal
Na aniquilação do sentido
No abraçar dos mistérios
Das perceções primitivas
O corpo jaz e é semente

Imagem de: Daily Mail

segunda-feira, janeiro 01, 2018

Ano Novo, Novo Ano


A neve, a chuva, o gelo
E o sol incendiando o grão de areia
Hurram como uma onomatopeia
No universo mal medido que torneia
De um a outro ano subjetivo
Ou intersubjetivo ou talvez vivo
Com o fim do tempo sempre à porta
Da casa que tanto nos custou comprar
E a esta hora a humanidade a dormitar
Sonha desbragadamente os mitos
Que perfazem os silêncios e os gritos
E as conversas intermédias em surdina
Envoltas em alma e serotonina
E quem nos ditou regras de existência
E quem nos mentiu sobre a persistência
E quem imaginou por medo a essência
É pó varrendo as dunas do deserto
Onde permanece o escorpião desperto

Imagem de: Youtube

quarta-feira, dezembro 20, 2017

Votos de Bom Natal


Votos amigos de boas festas a todos os leitores.

Jorge Simões

Imagem de: Black Gate Magazine

segunda-feira, dezembro 11, 2017

Buda


Não imagino que foi Buda
Ou sequer se Buda foi
Ou se alguma vez cá esteve
Ou o que cá possa ser
Ou o que seja o que for
Na aniquilação do eu
Suavemente como a brisa
Se é que a brisa é existente
Mas sei que se Buda existisse
E dissesse o que dele dizem
Que é o nada além do nada
Sem dor ou gozo presentes
Comeria das lixeiras
Beberia das chuvadas
Tomaria eletrochoques
E pregaria aos pardais

Imagem de: My Hero

segunda-feira, dezembro 04, 2017

Mar da tranquilidade


Quero compor músicas sem sons
Redigir textos sem palavras
Adquirir coisas sem dinheiro
E ser eu, eu por inteiro
No não ser, não ter, passar na sombra
Ser a própria sombra que viaja
Entre os interstícios, pleno dia
Respirar o sol que é ilusório
E alunar no mar da vaga inerte
Onde dormita o brilho aleatório
Do embalo da infância que subverte

Imagem de: The Daily Galaxy

terça-feira, novembro 28, 2017

Nuvens à beira, chuva na capital


Rostos cinzentos cravados na rua
Sorrisos gravados num tutorial
Gestos forjados em pedras da lua
E abate-se a chuva sobre a capital

O que escrevi antes de crescer
É o silêncio da nuvem letal
E crer-me precoce é desconhecer
O hall e o salão do meu tribunal

E assim adormeço no edredão do mundo
E sonho com a vida que conheço mal
Encostado às nuvens entre as quais me afundo
Pensando os chuveiros sobre a capital

Imagem de: lusonotícias

quarta-feira, novembro 22, 2017

Rotundas sons


Uns têm o que desejam
Outros o que não desejam
E assim cabe algo a todos
E há justiça no mundo
E a música salta da rádio
Cabeças de encontro aos muros
Num ruído punk primevo
Quem diria, não é pop
E recordo a Rádio Caos
Que nunca cheguei a escutar
E ao som das distorções
Passo a rotunda e as canções
E imobilizo o pensar

Imagem de: ScienceOholic

quinta-feira, outubro 26, 2017

Pensamento breve (ao meu pai)



Não terias precisado de chorar por mim
Nem de sonhar, nem de pedir, nem de temer
O facto é apenas um: eu sou quem fiz
Entre o existir e o nada ser assim
A linha sobre as nuvens e o país
E sobretudo o sem-princípio e o nunca-fim
E o mais é falso, fica sempre por fazer

Imagem de: Thoughts, Tales and Whatnot.

domingo, outubro 15, 2017

Feira Popular


Ninguém tem palavra-passe para a Feira Popular
Quer nos jardins do Palácio, quer nas folhas do Tintin
Porque todos estão já mortos nas perceções que pensamos
E todos se transformaram tal como os imaginamos
E tudo o que acreditamos nos chega digitalmente
Como este momento agora de quando é que foi que já foi
Saudade de ter saudade, termo apenas português
Porque os outros só existem fora do tempo e do fado
Essa canção nacional da saudade lisboeta
E pensam que tudo é Tejo e navegam rumo ao mar
E todos somos turistas nas naus de Vasco da Gama
E el-rei, no seu palácio, ergue-se iroso e proclama:
Todos para os calabouços ora feitos em poeira
E que paguem o bilhete da não existente feira

Imagem de: Porto, de Agostinho Rebelo da Costa aos nossos dias

quinta-feira, outubro 12, 2017

Música Som Abstrato Etéreo



A música paira ao largo dos sentidos
Conduz a minha direção abstrata
Ao romper em ondas de serotonina
O amplo comprimento das circunvoluções
Negando a suficiência das canções
E é porque ouso analisar o leve etéreo
Que acabo pequenino, tão pequeno
Agarrado a almofadas de veneno

Imagem de: Pinterest

segunda-feira, outubro 09, 2017

Tempo tempo tempo



A todo o redor vi vida e vi morte
Épocas do ano sempre em sucessão
Prosas e poemas, ciência a pairar
Estética e lixeira juntas rumo ao mar
Todos os sentidos malabarizados
Homens em sentido, pequenos soldados
A chuva que rega e corrompe os campos
E a mudança eterna como congelada
E pedi a Deus, pedi quase nada
Por quem amo e quero na minha existência
Ou na perceção que é tudo o que sei
E que é quase nada e aparenta ser
No meio do caos ou ordem complexa
No centro das coisas como folha em branco
Do minimalismo de opostos iguais
Pedi-lhe tão pouco achando demais
Que o tempo parasse num amplo nirvana
Nada se mexesse, nada se pensasse
E tudo fluísse pela eternidade
E todos presentes, leves e felizes
Na sala de estar, os vivos e os mortos
Bebendo do vinho, comendo da mesa
Trocando palavras em nada trocadas
Como um fim do tempo tirado à medida
E Deus ofereceu-me o tempo da vida

Imagem de: Aditi's Think Tank

terça-feira, outubro 03, 2017

Crepúsculo de um talvez Deus


Negrume

Iridescência

Ruas pardacentas

E as tonalidades sempiternas do pincel na folha
Que amarelece e logo tenra, verde recrudesce
A utopia plena do universo limitante
Cujo criador sufoca e enlouquece

As minhas criaturas têm que pagar

Mais certo que o imposto só Deus e Shiva

Pairando numa lentidão fugaz de quem cultiva

Imagem de: Atmospheric Phenomena - Wordpress.com

quinta-feira, setembro 14, 2017

Quem


Quem te semeou no meio do deserto estreito
Entre as dunas secas e os escorpiões
Sob o sol e a lua, as estrelas e o negrume
Em meditação forçada nas cavernas
Quem te agrilhoou assim ao tempo parco
Como a vítima de uma aposta plena de ego
Que ainda hoje soa entre os muros ocos
Como uma palavra inexplicada do Além
E a multidão ressoa mantras repetidos
E os mantras no silêncio rebentam os ouvidos
E tombado de joelhos no lajedo frio
Perguntas quem e quem responde com o vazio

Imagem de: Reddit

sábado, agosto 12, 2017

Escárnio e maldizer

Bom...

Tenho tido esta mensagem guardada e não publicada há, pelo menos, 50 anos, e começo a achar, algo supersticiosamente, que me está a dar azar. Sei que não se pode agradar a gregos e troianos mas, convenhamos, há gente perturbada.
Assim, aqui vai ela, só para ver se acabo com o mau olhado e se, pelo menos de vez em quando, passo a receber uns comentários simpáticos que me deem vontade de seguir em frente.
Abraço e cá vai o escárnio e maldizer da senhora anónima:

"Este blogger é horrível. Você não sabe apreciar a vida. Tem que começar a trabalhar para fazer melhores poemas e também eu duvido mas duvido mesmo que você o “excelentíssimo” senhor escreva os poemas acho que os vai buscar aquela coisa do computador em que eu estou. Sou uma velha de 50 anos e aprecio muito poesia mas esta não."

Por falar nisso, faço 55 este ano e estou longe de ser velho. :)

quarta-feira, julho 26, 2017

Raio de sol entre as folhas


Dá-me um raio desse sol passando por entre as folhagens
Um mero raio isolado que saberei refratar
E transmutarei o raio numa iluminação
Se tiver sabedoria e encontrar inspiração
E saberei ser pardal e em torno do raio voar
E capturar o universo no meu álbum de viagens

Dá-me um raio desse sol que nos ensina imagens
Um simples raio vivente, uma chama num altar
E falarei com o raio num mantra, numa oração
Se tiver crença na fé e a bater um coração
E saberei ser o vento e em torno das folhas planar
E inventar novos mundos, soltos e sem engrenagens

Imagem de: Zastavski.com

Que tempo é o meu


Que tempo é o meu, qual foi já e qual será
Da TV a preto e branco projetando flores cinzentas
Da passagem decidida, new wavers e negritude
Do passo profissional, a busca fátua do centro
Da maturidade aprendida (e há quem aprenda mal)
Tudo dividido em estantes como agora dividi
O meu tempo é todo o tempo, mas acho que nunca o vi
E ainda não vi amanhã nem sei se existirá
Mas ele será certamente para quem por ele passar
E todos só amam os mortos pois não podem opinar

Imagem de: TheScarletSecret - DeviantArt

terça-feira, julho 25, 2017

Veloz


Os automóveis voam soltos sobre o asfalto
Os aviões e os foguetões e os fotões no alto
Tudo é rapidez, tudo é facto certo e foi
Com as carreiras termitais cravadas na terra seca
E é o vento que transporta as torres e os relógios
Sopra forte por aqui, leva folhas e raízes
Passa em brisa doce ali e afaga todos os egos
E as nuvens aceleram, folhas, raízes, relógios
E os egos inclusive, tão plenos e tão queimantes
Olha a redondez do sol, tão circular e planante
Simultaneamente alto, baixo, fresco, morno e escaldante
E sigo ao lado das nuvens
Pois não sei de outro caminho
Entre os ecos do eterno
Por rotas que não adivinho

Imagem de: GoodWP.com


quarta-feira, julho 19, 2017

Always the sun


A memória é uma amante traiçoeira
Que nos amarra entre cobertores de lã
Onde a luz não passa como se passasse
Ou vice-versa na autoestrada de fotões
Esqueço-me, por vezes, do essencial
Das coisas pequenas, das coisas enormes
Como eu costumar ver Deus na luz do sol
Sempre ele, o sol, um inca ficcional
E eu costumava mas deixei de costumar
Ei-lo, no entanto, o simples sol, o acorde
O abarcar da complexidade imaginária
Esvaída, como as ondas, entre as mãos
Sempre ele, o sol, arquétipo de mim
A luz que me confunde no que digo
E no que penso, pensando em imagens
O círculo da vida na composição
O sol dourando a relva verde e o mar
E todas as folhagens e os pardais nos ramos
E tudo o que se sente sem pensar
E toda a intuição sem planos

Imagem de: wallpapers.brothersoft.com

sexta-feira, julho 14, 2017

A luz ilusória


O fatalismo muçulmano e o americano
Desconheço, mas sei que os próprios gregos
Fatalizavam no obscuro reino do sombrio
E sei que é fatal a fatalidade estranha
Pois desconhecer é ser pequeno como o barro
E o livre-arbítrio é uma amável chaise longue
E quem não deseja esse conforto
De apontar o dedo e dizer eu sou melhor?
Pois bem, se calhar eu sou melhor
E viva e recompense Deus Nosso Senhor

Imagem de: The Muslim Observer

sexta-feira, junho 30, 2017

A arte não morreu antigamente


A arte não morreu antigamente
No bloco ilusório ilimitado
Que é o espaço-tempo dos sentidos
Talvez eu me tenha deslocado
Talvez eu me tenha transformado
Ou talvez já existisse inteiramente
E a arte não morreu antigamente
Bendita seja a criação eterna
Na sua perfeita imperfeição
E a moda e o fluxo e a ilusão
E o final juízo que nos mói
E a arte do prazer mesmo se dói
Louvadas sejam todas as correntes
E as suas searas e sementes

Imagem de: www.emerson.com

quarta-feira, junho 28, 2017

"Two turntables and a microphone"



Nunca faças planos sérios sobre ti mesmo
Porque os deuses riem-se como tu te rias
No tempo em que dormias agarrado a um peluche
E antes de lhe estraçalhares o pescoço azul de felpo
Sem que o imagines remodelaram a creche
E esqueceram-se de te ir buscar ao fim da tarde
Por isso, ri com os teus planos e sorri
E toma-os a sério como quem toma café
Ou uma piña colada junto ao coqueiral
A verdade, a verdade
A verdade é que nunca me ocorrera antes
Que o Beck tivesse andado a ouvir os Doors
Enquanto rolo sob o céu seminublado
É a rádio que mo revela sem mais
Sobre o asfalto negro do caminho repetido
E a verdade, a verdade
Sem maiúscula como dizem que alguém foi
É que sempre amei os sons mais que eles a mim
E por isso brinco com as palavras e os versos
Para não bigbangar em todas as direções
Tornado incompetente no criar de universos

Imagem de: Classic Aletrnative @ Twitter





sábado, junho 17, 2017

Os gritos silenciosos


Vejo os camiões passar
Junto às árvores derrubadas
Entre casas descascadas
Como exclamações no ar

E além de etéreos compridos
Vive o delírio da cor
Que artifica a humana dor
A buzinar nos ouvidos

O cancro gargalha sozinho
Com a diversão que traz
A convicção tão sagaz
De que o mal é o vizinho

E buzina como um louco
Mata a rua convencida
De que é grande e que tem vida
Buzina até eu ficar rouco

E a rouquidão é saudável
Silêncio com o bloqueio a Cuba
Os icebergues aos saltos
Os assassínios no ecrã
Regras rígidas de interesses
Safam-se como bem podem
Por mais que se grite e buzine
O cancro ri com cinismo
Da afonia desejável

Imagem de: Tumblr

quarta-feira, junho 14, 2017

Poema aparentemente mórbido que não o é realmente


Eu não tenho qualquer terra
Mesmo se a terra me tem
Norte, sul, oeste, leste
Cima, baixo, lado, adiante
Não passo de um Che diferente
Sem causas e sem bravura
Que dura nesta andadura
A minha terra é a Luísa
A minha terra é o Alexandre
Os meus pais, a minha avó
Os meus amigos na vida
A minha terra mental
E além da cintura de Kuiper
Para lá da GN-z11
Além da bolha inicial
Além da implosão final
Quero as cinzas, ossos, alma
Dispersos por quem me amou

Imagem de: rajveerspace.blogspot

segunda-feira, junho 12, 2017

A víbora


Vislumbro o olhar triangular entre as ervas do jardim
O cinzento-azul, a mancha escura em zig-zag em direção a mim
Fita-me selvagem, sensual, ereta e silva em tom aberto
Porque não saboreias o sumo que gratuitamente te oferto
Perante a minha nega gargalha e diz estar a ver mal
As tonturas do veneno são o que me tornará real
Com um bastão que apanho do cascalho fino
Quebro-lhe o pescoço num súbito crac assassino
Pobre víbora, obediente ao Deus fatal
Quem a poderá acusar por ter sido natural
Com um crac assassino elimino a inimiga
A acusadora na inocência e sigo com a vida

Imagem de: Animais - Cultura Mix
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