quarta-feira, maio 24, 2017

E afinal...

E afinal... acho que vou manter o tamanho da letra. Ou tentar o mesmo tamanho com fontes diferentes, mais pequenas. Ou tentar um tamanho menor, com fontes diferentes, maiores.
Isto porque fico com a estranha sensação de que, alterando o tamanho da fonte, se perde visualmente algo.
Não sei... Se quem me vai visitando desse opiniões, talvez soubesse um pouco mais...

Apaga as luzes





Apaga as luzes devagar


Que os terroristas se vão deitar
Em espessos leitos de um morto mar
Cilícios negros secos de sal
E os anarquistas vão-se deitar
E os revoltosos vão-se deitar
E os piratas vão-se deitar
E os gananciosos vão-se deitar
E os violentos vão-se deitar
E os mentirosos vão-se deitar
E os ébrios loucos vão-se deitar


Apaga-as delicadamente


Que as silvas rudes se vão deitar
Em cravações por montes antigos
Onde a alcateia chega para uivar
E as supernovas vão-se deitar
E as brisas mornas vão-se deitar
E as horas mortas vão-se deitar
E os oceanos vão-se deitar
E as avezinhas vão-se deitar
E as oliveiras vão-se deitar
E os próprios anjos vão-se deitar


Apaga


E logo fecharei as persianas

Imagem de: Survivopedia

terça-feira, maio 23, 2017

La Mula Rosa


A llanura estica alongamentos, fulva ronda
Ultrapassa o touro bravo e o trem dormente
Espraia-se junto à linha incandescente
Onde o sol dormita sobre a onda

Mas é uma miragem, putativa imagem
Quebra-se a largueza nas mãos do fascista
O papel abafa a voz do alquimista
E apouca na letra a nossa viagem

Quem lhes deu a ordem vendeu a mordaça
Forçou a passagem na casa dos fracos
Arrumou a Europa em sacos com cacos
E onde a luz passava já nada mais passa

Imagem de: My world in pastel, blog

segunda-feira, maio 22, 2017

Alteração no tamanho da fonte


Não foram as musas quem me encarregou de o fazer. Nem as fontes de Aganipe e Hipocrene perderam parte do seu caudal. Fui eu mesmo.
Como já devem ter notado, os caracteres do texto passam a surgir em letras menores do que o habitual. A razão é o facto de estar cansado de ver, em resultado da formatação, palavras fugirem-me para a linha seguinte como se se tratasse de um neobarroquismo. Que não é.
Abraços.

Lunar


Não tenho coisa nenhuma que hoje queira partilhar
Na impermanência do mundo sento-me e fico a pensar
Onde estive até agora, em que quark de algum lado
Em que degrau deslizei sem tombar estatelado
A quantos graus derreti no meio do caldo solar
A quantos sois viajei no cosmos esvaziado

Nada novo sob o sol, nada velho no luar
Tudo sem forma ou idade, tudo quieto a vibrar
Como um cântico perdido no meio de um livro inventado
Ou um quântico brunido por um tecelão fiado
A quantos graus ascendi no meio do caldo solar
Quantos sois imaginei neste caos imponderado

Imagem de: cnn.com


quarta-feira, maio 03, 2017

Fábrica abandonada



Ao passar na estrada, ensanduichado
Junto a uma velha usina de fantasmas
Todos emparedados, como em Douaumont,
Entre ruídos ausentes e grafittis
Penso que, em verdade, nada sei.
O que sou, o que sei, mas que diabo?
E deixo os conhecimentos todos
Inteiros, plenos, a quem julgar tê-los
Assim mesmo, séria e candidamente
Como a sabedoria dos arcanjos
Coelho a anunciar o fim das eras
Cristas a mostrar-se confiante
May a alertar para inimigos vagos
Um cantor a imitar Syd Barrett
Cinco décadas totais atrás da meta
E concentro-me na rádio e na condução.
Os dias repetem-se pelo mundo fora
Quer chova, faça sol ou vente
E em Douaumont pingam nas paredes gotas finas
Como o sangue que se esgota dos que já partiram
Quem os chorou? Uma mãe, pai, esposa, filhos
Amigos talvez, a pátria não
Que a pátria vive sempre à sombra das usinas
Amante exigente e superficial
E o que resta são muros vazios, condutas retorcidas
E a deslocalização das almas e das vidas

Fotografia Fábrica abandonada, de El Club Digital

quinta-feira, abril 27, 2017

Migrações 2


Portugal esvazia-se como um caixão do avesso
Seremos, brevemente, todos velhos nos alpendres
Mordidos dos cães vadios, magros e possuídos
Profundamente isolados entre os poços celulares 
Magros, igualmente nós, os sonhos a enferrujar
Memórias da meninice, dos nossos meninos também
Perdidos eternamente além das ondas de areia
Como lendas rarefeitas de triângulos no oceano
Mensagens inentendíveis de algum deus omniausente
Very typical, sem dúvida, utterly archetypical
E para os bolsos gananciosos que assim nos vão empurrando
Ficam os velhos e os cães e toda a demência a seu mando

Foto de José Rodrigues in blog Farrapos de Memória

sexta-feira, abril 21, 2017

Os sonhadores do tempo



Certas pessoas sonham com o passado
Como quem sonha com manchas de cor
E eu sonho a dormir num mundo indolor
E vivo o presente bastante acordado

Não como saudade ou bebo nostalgia
Nem vejo fantasmas e auras fluidas
E sei que as neblinas das manhãs compridas
Nem exclamam respostas nem calam o dia

Hoje foi ontem e amanhã também
Quem chora ou ri ou sente autoimportância
É parte da sua pequena inconstância
Deus em causa própria, bebé de uma mãe

E é triste no riso e alegre no esgar
Que nunca se explica porque é igualmente
Manchas de cor, tempo impermanente
Sonhador incauto, estrela decadente
Acreditador que a vida inconsente
Filho menor do adjetivar

Diálogos de uma psicótica numa esplanada ao sol


Falas comigo outra vez?
Comigo ou com quem tu não vês?
Sim, porque se falas para mim
Não é princípio nem fim.
!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Hei de ver-te para lá
Onde não estaremos cá
Veremos quem é maioral
Larga a igreja, o bacanal
E tu, porque te enfias no meio
Não sabes que é rude, que é feio?
Que é como já nem sei bem
Estás a olhar-me como quem?
?????????????!!!!!!!!!!
Matei-te porque mereces
E, estás aqui, adoeces
E enfio-te um tiro nas trombas
Encho-te o prato de bombas
Terrorista duma treta
És feia como a careta
Controlas-me em ondas no ar
Mas vais parar, vais parar.
###################
Larga-me a mioleira,
Trolha, médico, peixeira
Palavras leva-as o vento
Branco é, galinha de Noé
Espeto-vos tiros no pé
Foste, perdeste o assento
!?#%«€&2................................

sexta-feira, abril 14, 2017

Uma dama de rubro negro


Em tempos infinitamente além
Uma dama rubra de negro vestida
Cruzou meu caminho, sempre eu de partida
E, numa voz cava, falou muito bem

O seu discurso composto de imagens
Colava-se às mentes dos pobres mortais
Em calafrios quentes, sensuais
Que prometiam eternas viagens

Dizia: “Sou uma amante muito ciosa
Que nunca abandona os seus protegidos
E se, acaso, ficam desvalidos
Redobro o meu gozo, a aura poderosa”

E eu perguntei, só por desfastio:
“Ofereces um lar, uma luz vibrante,
A felicidade mais do que um instante?
Que amor ofereces mais do que o vazio?”

Não se zangou, toda ela controlo.
“Quem me desposa vive só para mim
Porque sou o princípio, o meio e o fim
E o único erro é o ouro do tolo”

“Queres experimentar-me, assim tu bem hajas,
Sem compromissos, pelo prazer maior?”
E eu, para a afastar, olhando em redor,
Respondi: "Lamento, não gosto de gajas"

sexta-feira, março 03, 2017

Memória


Já um dia tive a tua idade
Vivi na aldeia como na cidade
E não me perdi não sei bem porquê
Ou pode ser que esteja onde não se vê
E o que será ver senão desconhecer?
E o que é viver? Que será?
Que vida nas tessituras das folhas
Nas partituras da palma da mão?
E eis-nos todos no mesmo local
A horas dormentes, diferentes
E a memória esboroada
Talvez já não recorde nada...
Só o amanhã brilhará
No tempo que então fará

quinta-feira, janeiro 26, 2017

A humble smile at the Beam me up Scottie flood

I don't write poetry much anymore as it's a bit frustrating not to be published. Let's face it: as much as I like the net and its potential, as much as I'm thankful to everyone who's visited the blog during so many years, there's nothing like the actual recognition. 
But so be it. I'm a realist but I refuse to pay to get published. Published on paper, that is. And befriend critcs. And the press. And everyone. It feels too much like cheating.
Now... something interesting has happened lately... Ever since I wrote a poem named Beam me up Scottie. I've been relatively flooded by visitors from the US (and even from Russia once; at least that I noticed).
That's very interesting and speaks enormously of markets. I think.
I only wish my visitors could actually understand my poetry (said with a humble smile)...

sexta-feira, dezembro 30, 2016

Beam me up Scottie


Pa-pá-pá-pa-pá-pá.....
Beam me up Scottie, there's something wrong in outer space
E a NASA avisa que há satélites a cair sobre o planeta
Toute petite, toute petite, la planète
Mais interferências, ruído, estática
Pa-pá-pá-pá.....
Que tempo oculto
Captamos mensagens intergaláticas
Wormholes, a grande expansão primordial
Galáxias que chocam entre si com violência
Os tempos misturados e perdemo-nos em nunca e sempre
Imersos em nuvens imensas de matéria escura
OVNIs ocultos pela radiação estelar
Pa-pápápápápá.....
Será código Morse que chega de 1838?
Aquela bebé vai ter a minha idade em 2070.
Há quem me possa chamar antipoesia
E a ave voa e o gato mia e o rato chia
Quem plana também se desengana...
E o código chega de algum universo paralelo
Ininterrupto, como a melopeia doida de um Deus triste
Senhor dos Exércitos e das Leis
Pa-pápápápápápápá...................................

quarta-feira, dezembro 21, 2016

Votos de Bom Natal


Os meus votos de Bom Natal a quem por cá passar. A norte ou a sul, a leste ou a oeste, que o espírito encontre a vossa morada.

Imagem de: www.theodysseyonline.com

terça-feira, dezembro 06, 2016

Composição em claro-escuro


Sonhei que sonhei que sonhava
E que nunca mais despertava
E os raios do sol cobriam lajedos
E a lua abraçava-se aos arvoredos
Os galhos zunindo ao vento-dará
E o tempo, o tempo onde andará?
Pensei que pensei que acordava
E que nunca mais parava
E os raios do sol cobriam bosquedos
E os raios da lua como seus brinquedos
Que entrelaçava pensando, pensante
O tempo, não mais do que um breve instante.
Memória de inseto, tromba de elefante.

Tela de Raimundo Porto

terça-feira, março 15, 2016

Sempre


Sempre os mesmos gestos usuais...

A chave que abre também fecha.
O carro que arranca também para.
O teclado escreve como apaga.
O telemóvel fala e silencia.
A estrada suaviza e também chia.

Sempre os mesmos gestos usuais...

Falta algures o abraço do meu pai,
Da minha mãe o beijo, o olhar da minha avó,
O sol da eternidade imaginária
Tão certa que nem mesmo se imagina
A linha longa e certa dessa sina

Sempre os mesmos gestos usuais...
Reconfortantes - que se pedem mais.

sábado, agosto 08, 2015

Hi!


Gosto quando desconhecidos genuinamente me saúdam
Com sorrisos genuínos de galáxias impensáveis
Prefiro-o definitivamente a golpes de estado
E a batalhas de egos num mundo descampado
Por vezes gosto ainda de versificar sem destino
De não pensar na rima, métrica, ritmo e tino
Em vastas planícies que de vastas não se afundam
E surpreender-me sempre com estranhos amáveis

Imagem de: www.come2drum.wordpress.com

quinta-feira, julho 23, 2015

Insónia 2


Quando o tempo não avança
E os minutos morrem lentos
Sinto vontade de gritar aos ventos
Deixem-me nanar como em criança

Nada me embala no mundo calado
O tempo que pinga numa contradança
De um rio entupido no cabo da esperança
O mundo parado e eu todo acordado

Dormem os corruptos na injusta balança
Os animaizinhos sonhando os momentos
As plantas e as pedras em tons pardacentos...
Só eu despertado no planeta, cansa

segunda-feira, julho 06, 2015

Insónia


Em noites insones de vácuo lunar
Por motivo algum que me ocorra agora
Sento-me a esta mesa a escrevinhar
As poucas palavras que permite a hora

Escuta-se a ausência do pêndulo na sala
Os cães adormecem e não uivam mais
E o vapor que ascende, lento como a fala
Prepara-me o sono doce dos mortais

Imagem de: shiffmanmattresses.wordpress.com

sexta-feira, julho 03, 2015

Petite histoire pour dormir


Il ne sut jamais parler le portugais
Hélas, il ne l'apprit jamais
Mais il dort maintenant au panthéon des dieux
Mortels dans leur non-lieu
C'est un angle obscur, celui du rouge
Soi-disant encarnado paysan
La mort enregistrée par une gouge
"Tué en combat" à peu près

Imagem de: myguide.iol.pt

Porque é que escrevi isto em francês? Porque sim...

domingo, março 15, 2015

O mundo e a Europa, a Europa e o mundo



O mundo e a Europa conhecem o Victan 
A Europa e o mundo conhecem o Xanax 
O mundo e a Europa tomam Lexotan 
A Europa e o mundo, o mundo e a Europa 
As marcas, os hamburgers, os tablets, o FB 
E ainda o FBI nas séries de televisão 
O mundo tem noção quando sopra um furacão 
Os jovens vestem roupas e um brinco na orelha 
Uma tatuagem, um piercing na sobrancelha 
O mundo e a Europa, a Europa e o mundo 
A ideia da austeridade, a poluição na cidade 
O cartaz publicitário em Estocolmo e em Luanda 
Sobre os telhados de colmo pairam céus de propaganda 
E os velhos arrastam as roupas como um manto de memória 
E o patriotismo faz-se com os bonecos da história 
E o internacionalismo com os bonecos bonecos 
E o federalismo com bonecos-ecos-ecos 
E as taxas e os impostos 
Pelos corredores animados por eternos deputados 
Em Estrasburgo e em Bruxelas 
No Kremlin e em Pequim 
Em Brasília e em Berlim 
As sombras das sentinelas 
Que imaginam conhecer-nos

Imagem de: tiempodefuria.blogspot.com. 

quarta-feira, dezembro 24, 2014

Um bom Natal para todos


Para não quebrar a tradição, porque há boas tradições, aqui vos deixo os meus votos sinceros de um Feliz Natal e de um 2015 à medida dos vossos melhores desejos. Abraço.

quinta-feira, novembro 06, 2014

Não, o blog não está abandonado...

Não, o blog não está abandonado. Tenho-me simplesmente dedicado à prosa, provavelmente um degrau acima do da poesia, e gostaria de receber opiniões acerca do romance anunciado no post anterior - não se esqueçam que o podem adquirir online -, sendo que acabo de concluir um novo romance... mas isso é outra história e ficará para mais tarde!

Abraços,

Jorge

quinta-feira, agosto 07, 2014

Para quem quiser adquirir O Rodopio do Escorpião



Recordam-se do convite para a apresentação? Está uns posts abaixo. Quem não quiser ter que procurar a obra nas livrarias (opção tradicional) e ainda assim tenha interesse em adquiri-la, é só seguir o link: O Rodopio do Escorpião. Abraço e boas leituras (eu já tenho andado a aproveitar a silly season para as colocar em dia).

sábado, agosto 02, 2014

Porto Santo


Aves, palmeiras, colinas e terreno ressequido
A casa onde Colombo viveu equivocado
E onde não fomos. O silêncio...
As nuvens e o vento seco e fresco
Junto à praia longa, o mar imenso
As Desertas disfarçadas na neblina
Fina areia que se cola, indefinida
Como estrelinhas de vida.
Adeus a Porto Santo, nunca mais te vejo...
Olá, longo como o areal, sempre olá no nosso beijo.

quarta-feira, junho 25, 2014

Filipe


Partiste cedo e a 54 à hora
Numa motorizada quase sem um raio
Num quase triciclo quase inexistente
A caminho de uma feira onde venderás
Certamente uma pulseira a cada anjo.
Partiste noutro tempo já inimaginável
Num raio de luz intemporal
Bebendo cai-bens, bem humorado
Com o sorriso de calcorrear a liberdade…
Dizem que estavas anafado,
Que o stress te tinha roubado a vida,
Que reagias mal a quem te prevenia,
Que corrias, te enervavas, rabujavas…
Custa-me a entender como te podem ter mudado,
Os que mandam, orgulhosos, cães-polícias,
Os políticos em todas as aceções,
Os que mandam em todas as direções
Raios de Zeus podres como o Hades.
Eu vejo-te como então te via…
Entramos, agora, num pomar alheio,
Limpamos uma maçã à ganga coçada
De tempos tão diferentes, comestíveis
E, jovens, criamos cachimbos de cana,
De festa em festa quando o verão era verão,
Tendas de índios, explorações,
Mundos vastos, imaginações
E culminamos numa eterna gargalhada.

Imagem de: www.andorinhas.planetaclix.pt

sábado, maio 31, 2014

Lançamento de romance a 14 de junho: convite


Olá. Como podem ver, o meu romance O Rodopio do Escorpião tem lançamento agendado para o próximo dia 14 de junho, pelas 16,30 h, no Café Concerto do Fórum da Maia. A apresentação estará a cargo do jornalista Pedro Olavo Simões. Espero ter o prazer de vos encontrar no evento!

Jorge

quarta-feira, maio 28, 2014

Aniversários


O meu aniversário foi há muito tempo
Tanto que só o consigo relativizar
E tornar Einstein numa espécie de anti-herói
Dos sonhos desvanecidos ao despertar

Reuniamo-nos à volta da mesa, sim
Cantávamos a lengalenga do costume
E nada disso me traz lágrimas aos olhos
Exceto ocasionalmente os que morreram
Mas nem todos os que morreram
Ou seria eu o maior de todos os mortos
E não sou

As tias, tios, primos, primas dissolveram-se
Os amigos são um continuum espaço-temporal
E eis-me no buraco negro de nós todos
Sorvendo a luz ténue das velas agora no lixo

As paredes não estão de todo descascadas
Porque os muros são uma ilusão do homem
E estou eu no centro para me aborrecer de mim apenas
Tudo o resto é ilusão e deixo o drama para outros

Vendo bem, todos os anos faço anos
Mesmo gostando de dizer que só existo
É uma pecha literária e pouco mais
Somos poucos, mas muitos são desnecessários
Vamos a um restaurante, bebemos vinho
Comemos bem, cantamos os parabéns
E, até ver, continuo a flutuar nas vagas
E navegamos normalmente até um dia

Imagem de: www.diabetesdad.org

quinta-feira, maio 15, 2014

Recordação dos oitenta


Certo dia, há uns trinta anos, incrédulo, perguntaste
(tinhas-me visto com um vinil de JJ Cale na mão):
"Mas tu curtes essa cena, meu?
Isso é o tipo de coisa que os meus velhos têm lá em casa!"
Passado pouco tempo, estavas embrulhado em heroína
E, depois (terás tido sorte relativa) ficaste um profissional.
Entretanto, o tempo passou como sempre passa,
Arma cortante e constante do universo real...
Agora que todos somos velhos
E temos o que tivermos em casa
JJ não morreu nem nunca morrerá
Nós vamos morrendo lentamente à contagem dos minutos
E os teus ídolos techno-pop estavam mortos à nascença.

Imagem de: www.independent.co.uk

sábado, março 29, 2014

Cão amarelo notívago


Passa das duas, junto da estrada, sob o céu nublado
Um cão amarelo ergue-se em vigia no tempo parado
Um abandonado que ladra, por vezes, ao carro passante
E se quiser, sem ordens de alguém, solta-se uivante

À hora tardia, o ser pensante dorme um sono perturbado
De quem segue as regras (dormir inclusive)
Sempre esteirado num leve declive
Que o acorda vago e sobressaltado

Outros fumam, bebem, conversam pela noite calada
Não sonham ainda os seus pesadelos
Que caem como granizo grosso eriçando os pelos
E não sabem também da sentinela serena na estrada

Quão mais luminosa não seria a noite (e os dias singelos)
Se mais povoada fosse de lúcidos cães amarelos!

Imagem de: www.fireflyforest.net

domingo, março 09, 2014

Os sinos da minha aldeia


Os sinos da minha aldeia
Badalam sempre a finados
Se falo na minha aldeia
Não é por querer copiar
Quem melhor soube cantar
À luz crua a mesma ideia –
Estamos apenas cruzados.
À luz crua da igreja
Com os sinos sempre a dobrarem
E os habitués a cantarem
Há a mesquinhez que sobeja
Mundo fora, para quem veja
A ignorância persistente
Quer do ateu, quer do crente.
Vivem na aldeia gigante
Afogados em certezas
Sentam-se em redor das mesas
Senhores de cada instante
Ignorantes da noção
De que um dia partirão.

Imagem de: www.romulogondim.com.br

domingo, janeiro 26, 2014

Matemática, matemática, matemática... (a Nuno Crato, dias depois de assistir a um episódio absurdo de uma série que propagandeou a doce Matemática)


A Matemática está nas flores, nas aves, nas abelhas,
Nas nuvens, nas galáxias e nos sons astrais,
Em todos os pensamentos mais fulcrais,
Nas janelas das casas e nas telhas.

A Matemática não mete medo aos miúdos
Desde que se acabaram as reguadas
E está presente nas reuniões agendadas
Que endireitam os docentes mais sisudos.

A Matemática, tal como a gramática,
Não é complicada: só complicativa.
Muda a cada dia como a ideia viva
De que é severa, mas muito simpática.

Não sei por que Jesus terá esquecido
De a mencionar nos seus Evangelhos…
Talvez porque já são um pouco velhos
E o seu fulcro se tenha perdido…

Estão aí os políticos, no entanto,
Para colmatar essa grande falha,
Cortando nas pertenças da gentalha
E multiplicando para si um outro tanto.

Imagem de: dinamizacantabria.es

domingo, dezembro 22, 2013

As rabanadas da minha mãe


Recordo-me hoje das rabanadas da minha mãe
Porque está um céu cinzento de Natal
E me recordo dos seus modos doces na velhice
E da fragilidade desfeita como o mel derretido
Ou das rabanadas sem mel com gosto a mel
E porque faço anos sem fazer anos
Hoje, copiando sem copiar o incopiável

E no universo onde se movia tudo se esboroou
Como uma broa de mel fresca que comprávamos por um escudo
Uns mortos, outros cegos, outros acabados
Todos deixaram de beber, fumar e talvez riam pouco
E eu, simultaneamente jovem e sénior à volta da mesa
Entre risos e gargalhadas de nós que nascemos mais tarde,
Recordo-me dessas rabanadas sempre frescas
Do gosto que nunca envelhecerá nalgum limbo meu
Para além do além porque é sempre mais além

segunda-feira, dezembro 16, 2013

Feliz Natal!

Com votos de Feliz Natal do Jorge...


sábado, novembro 23, 2013

Enganei-me parcialmente

A partir de 2014 os pais fumadores vão ter cadastro. Seria interessante que o governo utilizasse o dinheiro que vai roubar aos trabalhadores da Função Pública e pensionistas para, completando a atitude fascista que nunca se sabe onde terminará, colocar detetores de fumo e câmaras ocultas em todos os locais onde os potenciais fumadores-criminosos possam passar tempo, nomeadamente em suas casas. Deveria o governo, de igual modo, elaborar uma grande ficha de Excel homogeneizadora para que os hábitos tabágicos dos portugueses passassem a ser exatamente similares; para tal, os fumadores deveriam realizar reuniões de trabalho extensivas em horário pós-laboral e até, pelo menos, à meia noite, sem esquecer o material necessário para se autoflagelarem e o necessário exame a nível nacional. 
Fico satisfeito por ter mudado para os vaporizadores, vulgo "cigarros eletrónicos", há coisa de três anos e nunca mais ter pegado num cigarro. Mas não é isso que me fará sentir menos vítima do fascismo, porque todos o somos, fumadores e não fumadores, trabalhadores e não trabalhadores, cretinos e mais ajuizados.
Fico triste porque me enganei quando dei o meu apoio a este bando de gente estranha e perigosa e por ter confiado em Portas (que no Passos Coelho nunca confiei muito). Mea culpa. Isso não quer dizer que me tenha enganado relativamente ao Sócrates, para cuja lavagem este governo tanto tem contribuído - porque uma das poucas coisas dignas que me restam é a memória.

terça-feira, novembro 05, 2013

Soneto construtivista


A 10
B 10
B 10
A 10

A 10
B 10
B 10
A 10

C 10
D 10
C 10

D 10
C 10
D 10

sexta-feira, agosto 02, 2013

JJ Cale: the one that got away

Notícias extremamente tristes retiradas diretamente do site de JJ Cale:

JJ Cale Has Passed Away
JJ Cale passed away at 8:00 pm on Friday July 26
at Scripps Hospital in La Jolla, CA.
The legendary singer / songwriter had suffered a heart attack.
There are no immediate plans for services.
His history is well documented at JJCale.comrosebudus.com/cale,
and in the documentary, To Tulsa And Back.
Donations are not needed but he was a great lover of animals so, if you like,
you can remember him with a donation to your favorite local animal shelter.

quinta-feira, agosto 01, 2013

Som e visão (a David Bowie)


Há coisas misteriosas, como o som e a visão
O que me recorda algo, recorda-me uma canção
Que se me dilui na mente sem chegar a sensação
O som e a visão, a visão e mais o som
Sentir coisas relativas deve ser algo de bom
Certamente quando o todo se encaixa dentro do tom.
E o que tem tudo isso a ver com Saïdia
Onde venta junto à praia e tremula a luz do dia?
Com o aroma a chá de menta, com a fronteira guardada
Os retratos nos placards de um lado e do outro da estrada?
A medina velha de Oudja, o tempo algo sorumbático
O vestuário exótico e o comércio tão enfático?
Será que não te interrogas sobre o som e a visão
E o dia a dia sensível, perecível como o verão?

Imagem de: www.flickr.com

domingo, julho 21, 2013

Tweety pie seguro

Estou a adorar ouvir os vácuos costumeiros do Tozé Seguro na SIC Notícias. Principalmente pelo tom de voz tão grave e segura de quem se acocora totalmente perante a chantagem das personagens mais caquéticas do ninho de vespas que é o partido dito socialista...
Sempre é uma mudança face ao costumeiro discurso em que começa em tom baixo e conclui num crescendo de furar os tímpanos (indignadamente).

quarta-feira, julho 10, 2013

Tweet

Tweety pie? Comecei por pensar em algo assim e estive momentaneamente muito surpreendido. Depois pensei... Será que o PS vai arcar com o ónus de se ter recusado a contribuir para a salvação nacional? E será que a vingança contra Paulo Portas se come tão fria? E como se trata de um tweet, mais não digo...

sexta-feira, julho 05, 2013

Qual é, qual é?

Qual é, qual é, o partido político com provas dadas de causador de descalabros ao longo de 30 e mais anos cujos elementos andam, como sempre, irresponsavelmente, a aguçar as facas para tornar a crise mais afiada? Qual é o partido que aguça facas e anda augado e babado de modo mais que imoral mas não apresenta uma única proposta? Quem não se lembra do que foram seis anos desse partido e quem tem tão pouca memória que ache que estaríamos melhor se não tivéssemos corrido com eles? Qual é o partido político esclerosado e tomado pelos mais acerados interesses pessoais cujo líder, depois de um conhecido ditador, é a personagem política mais vazia de todo o nosso panorama? Serias capaz de alguma vez votar ou voltar a votar no partido do regabofe?

sexta-feira, junho 14, 2013

Navios afundados


A manhã rompe monótona, cinzenta…
Pedras da calçada lançadas pelo ar.
E quem pondera onde é que irão tombar?
Talvez nalguma alma perdida e avarenta?

A diktatur do caos do carreirismo
De frases feitas que logo degeneram
Em verões perdidos que não se recuperam
Como sóis frios e cegos no abismo…

A minha liberdade começa… e tudo o mais.
Com tanta informação concebem um zumbido
De quem na pose sabe estar tudo perdido,
Décadas como navios afundados pelos cais.

Imagem de: www.thehindu.com

domingo, maio 26, 2013

O Benfica no (segundo) lugar

Segunda vez em que falo em futebol neste blog e é para confirmar a primeira.

Não há muito a dizer. Hoje, com a derrota frente ao Vitória de Guimarães, no Jamor, em pleno coração da capital artificial, a mão de Deus parece ter confirmado que castiga os arrogantes que pensam, cedo demais, ter tudo na mão. Afinal, espalharam-se à grande num segundo em todos os planos e o pior é que não sabem perder, são arrogantes que não aprendem com a lição da arrogância...
Foi engraçado ver a cara de enterro do presidente mação do sistema e da câmara. Mas outras coisas foram bem menos engraçadas... Nomeadamente, o empurrão que o puto Cardozo deu ao treinador, numa atitude digna de um verdadeiro Luisão. Temos um Cardozão. Mas, se olharmos para trás nesses termos, diria que o Benfica colhe o que semeou. Se Jorge Jesus, apesar dos seus erros passados (mais que os presentes) tiver a coragem que um homem deve ter, Cardozo irá pagar com couro e cabelo, porque quem age dessa forma merece estar noutro lugar que certamente não num dos primeiros clubes nacionais. Triste foi também a atitude de diversos putos jogadores do Benfica que passaram por Cavaco, até ver o presidente da República, com mais uma pitada de arrogância, ignorando por completo a sua presença quando da entrega das medalhas. Estão mal onde estão... Muito dinheiro e pouca educação. Muito chuto na bola e demasiado chuto no saber estar. Quanto aos adeptos que insultavam Jesus à passagem como se fossem desabar com uma apoplexia, é a ralé - dizer o quê? Não sabemos de onde vêm nem para onde vão.
Em suma e regressando ao meu primeiro post sobre futebol, como mencionei no início: tive toda a razão e Luís Filipe Vieira demonstrou que não tem capacidade para ser um vencedor às claras. Fundamentalmente, a arrogância perdeu com língua de palmo - e disso, oh, disso gostei muito. Assim fosse no dia a dia dos buzinadores e guerreiros urbanos de trazer por casa...
advertising
advertising Counter