segunda-feira, dezembro 11, 2017

Buda


Não imagino que foi Buda
Ou sequer se Buda foi
Ou se alguma vez cá esteve
Ou o que cá possa ser
Ou o que seja o que for
Na aniquilação do eu
Suavemente como a brisa
Se é que a brisa é existente
Mas sei que se Buda existisse
E dissesse o que dele dizem
Que é o nada além do nada
Sem dor ou gozo presentes
Comeria das lixeiras
Beberia das chuvadas
Tomaria eletrochoques
E pregaria aos pardais

Imagem de: My Hero

segunda-feira, dezembro 04, 2017

Mar da tranquilidade


Quero compor músicas sem sons
Redigir textos sem palavras
Adquirir coisas sem dinheiro
E ser eu, eu por inteiro
No não ser, não ter, passar na sombra
Ser a própria sombra que viaja
Entre os interstícios, pleno dia
Respirar o sol que é ilusório
E alunar no mar da vaga inerte
Onde dormita o brilho aleatório
Do embalo da infância que subverte

Imagem de: The Daily Galaxy

terça-feira, novembro 28, 2017

Nuvens à beira, chuva na capital


Rostos cinzentos cravados na rua
Sorrisos gravados num tutorial
Gestos forjados em pedras da lua
E abate-se a chuva sobre a capital

O que escrevi antes de crescer
É o silêncio da nuvem letal
E crer-me precoce é desconhecer
O hall e o salão do meu tribunal

E assim adormeço no edredão do mundo
E sonho com a vida que conheço mal
Encostado às nuvens entre as quais me afundo
Pensando os chuveiros sobre a capital

Imagem de: lusonotícias

quarta-feira, novembro 22, 2017

Rotundas sons


Uns têm o que desejam
Outros o que não desejam
E assim cabe algo a todos
E há justiça no mundo
E a música salta da rádio
Cabeças de encontro aos muros
Num ruído punk primevo
Quem diria, não é pop
E recordo a Rádio Caos
Que nunca cheguei a escutar
E ao som das distorções
Passo a rotunda e as canções
E imobilizo o pensar

Imagem de: ScienceOholic

quinta-feira, outubro 26, 2017

Pensamento breve (ao meu pai)



Não terias precisado de chorar por mim
Nem de sonhar, nem de pedir, nem de temer
O facto é apenas um: eu sou quem fiz
Entre o existir e o nada ser assim
A linha sobre as nuvens e o país
E sobretudo o sem-princípio e o nunca-fim
E o mais é falso, fica sempre por fazer

Imagem de: Thoughts, Tales and Whatnot.

domingo, outubro 15, 2017

Feira Popular


Ninguém tem palavra-passe para a Feira Popular
Quer nos jardins do Palácio, quer nas folhas do Tintin
Porque todos estão já mortos nas perceções que pensamos
E todos se transformaram tal como os imaginamos
E tudo o que acreditamos nos chega digitalmente
Como este momento agora de quando é que foi que já foi
Saudade de ter saudade, termo apenas português
Porque os outros só existem fora do tempo e do fado
Essa canção nacional da saudade lisboeta
E pensam que tudo é Tejo e navegam rumo ao mar
E todos somos turistas nas naus de Vasco da Gama
E el-rei, no seu palácio, ergue-se iroso e proclama:
Todos para os calabouços ora feitos em poeira
E que paguem o bilhete da não existente feira

Imagem de: Porto, de Agostinho Rebelo da Costa aos nossos dias

quinta-feira, outubro 12, 2017

Música Som Abstrato Etéreo



A música paira ao largo dos sentidos
Conduz a minha direção abstrata
Ao romper em ondas de seratonina
O amplo comprimento das circunvoluções
Negando a suficiência das canções
E é porque ouso analisar o leve etéreo
Que acabo pequenino, tão pequeno
Agarrado a almofadas de veneno

Imagem de: Pinterest

segunda-feira, outubro 09, 2017

Tempo tempo tempo



A todo o redor vi vida e vi morte
Épocas do ano sempre em sucessão
Prosas e poemas, ciência a pairar
Estética e lixeira juntas rumo ao mar
Todos os sentidos malabarizados
Homens em sentido, pequenos soldados
A chuva que rega e corrompe os campos
E a mudança eterna como congelada
E pedi a Deus, pedi quase nada
Por quem amo e quero na minha existência
Ou na perceção que é tudo o que sei
E que é quase nada e aparenta ser
No meio do caos ou ordem complexa
No centro das coisas como folha em branco
Do minimalismo de opostos iguais
Pedi-lhe tão pouco achando demais
Que o tempo parasse num amplo nirvana
Nada se mexesse, nada se pensasse
E tudo fluísse pela eternidade
E todos presentes, leves e felizes
Na sala de estar, os vivos e os mortos
Bebendo do vinho, comendo da mesa
Trocando palavras em nada trocadas
Como um fim do tempo tirado à medida
E Deus ofereceu-me o tempo da vida

Imagem de: Aditi's Think Tank

terça-feira, outubro 03, 2017

Crepúsculo de um talvez Deus


Negrume

Iridescência

Ruas pardacentas

E as tonalidades sempiternas do pincel na folha
Que amarelece e logo tenra, verde recrudesce
A utopia plena do universo limitante
Cujo criador sufoca e enlouquece

As minhas criaturas têm que pagar

Mais certo que o imposto só Deus e Shiva

Pairando numa lentidão fugaz de quem cultiva

Imagem de: Atmospheric Phenomena - Wordpress.com

quinta-feira, setembro 14, 2017

Quem


Quem te semeou no meio do deserto estreito
Entre as dunas secas e os escorpiões
Sob o sol e a lua, as estrelas e o negrume
Em meditação forçada nas cavernas
Quem te agrilhoou assim ao tempo parco
Como a vítima de uma aposta plena de ego
Que ainda hoje soa entre os muros ocos
Como uma palavra inexplicada do Além
E a multidão ressoa mantras repetidos
E os mantras no silêncio rebentam os ouvidos
E tombado de joelhos no lajedo frio
Perguntas quem e quem responde com o vazio

Imagem de: Reddit

sábado, agosto 12, 2017

Escárnio e maldizer

Bom...

Tenho tido esta mensagem guardada e não publicada há, pelo menos, 50 anos, e começo a achar, algo supersticiosamente, que me está a dar azar. Sei que não se pode agradar a gregos e troianos mas, convenhamos, há gente perturbada.
Assim, aqui vai ela, só para ver se acabo com o mau olhado e se, pelo menos de vez em quando, passo a receber uns comentários simpáticos que me deem vontade de seguir em frente.
Abraço e cá vai o escárnio e maldizer da senhora anónima:

"Este blogger é horrível. Você não sabe apreciar a vida. Tem que começar a trabalhar para fazer melhores poemas e também eu duvido mas duvido mesmo que você o “excelentíssimo” senhor escreva os poemas acho que os vai buscar aquela coisa do computador em que eu estou. Sou uma velha de 50 anos e aprecio muito poesia mas esta não."

Por falar nisso, faço 55 este ano e estou longe de ser velho. :)

quarta-feira, julho 26, 2017

Raio de sol entre as folhas


Dá-me um raio desse sol passando por entre as folhagens
Um mero raio isolado que saberei refratar
E transmutarei o raio numa iluminação
Se tiver sabedoria e encontrar inspiração
E saberei ser pardal e em torno do raio voar
E capturar o universo no meu álbum de viagens

Dá-me um raio desse sol que nos ensina imagens
Um simples raio vivente, uma chama num altar
E falarei com o raio num mantra, numa oração
Se tiver crença na fé e a bater um coração
E saberei ser o vento e em torno das folhas planar
E inventar novos mundos, soltos e sem engrenagens

Imagem de: Zastavski.com

Que tempo é o meu


Que tempo é o meu, qual foi já e qual será
Da TV a preto e branco projetando flores cinzentas
Da passagem decidida, new wavers e negritude
Do passo profissional, a busca fátua do centro
Da maturidade aprendida (e há quem aprenda mal)
Tudo dividido em estantes como agora dividi
O meu tempo é todo o tempo, mas acho que nunca o vi
E ainda não vi amanhã nem sei se existirá
Mas ele será certamente para quem por ele passar
E todos só amam os mortos pois não podem opinar

Imagem de: TheScarletSecret - DeviantArt

terça-feira, julho 25, 2017

Veloz


Os automóveis voam soltos sobre o asfalto
Os aviões e os foguetões e os fotões no alto
Tudo é rapidez, tudo é facto certo e foi
Com as carreiras termitais cravadas na terra seca
E é o vento que transporta as torres e os relógios
Sopra forte por aqui, leva folhas e raízes
Passa em brisa doce ali e afaga todos os egos
E as nuvens aceleram, folhas, raízes, relógios
E os egos inclusive, tão plenos e tão queimantes
Olha a redondez do sol, tão circular e planante
Simultaneamente alto, baixo, fresco, morno e escaldante
E sigo ao lado das nuvens
Pois não sei de outro caminho
Entre os ecos do eterno
Por rotas que não adivinho

Imagem de: GoodWP.com


quarta-feira, julho 19, 2017

Always the sun


A memória é uma amante traiçoeira
Que nos amarra entre cobertores de lã
Onde a luz não passa como se passasse
Ou vice-versa na autoestrada de fotões
Esqueço-me, por vezes, do essencial
Das coisas pequenas, das coisas enormes
Como eu costumar ver Deus na luz do sol
Sempre ele, o sol, um inca ficcional
E eu costumava mas deixei de costumar
Ei-lo, no entanto, o simples sol, o acorde
O abarcar da complexidade imaginária
Esvaída, como as ondas, entre as mãos
Sempre ele, o sol, arquétipo de mim
A luz que me confunde no que digo
E no que penso, pensando em imagens
O círculo da vida na composição
O sol dourando a relva verde e o mar
E todas as folhagens e os pardais nos ramos
E tudo o que se sente sem pensar
E toda a intuição sem planos

Imagem de: wallpapers.brothersoft.com

sexta-feira, julho 14, 2017

A luz ilusória


O fatalismo muçulmano e o americano
Desconheço, mas sei que os próprios gregos
Fatalizavam no obscuro reino do sombrio
E sei que é fatal a fatalidade estranha
Pois desconhecer é ser pequeno como o barro
E o livre-arbítrio é uma amável chaise longue
E quem não deseja esse conforto
De apontar o dedo e dizer eu sou melhor?
Pois bem, se calhar eu sou melhor
E viva e recompense Deus Nosso Senhor

Imagem de: The Muslim Observer

sexta-feira, junho 30, 2017

A arte não morreu antigamente


A arte não morreu antigamente
No bloco ilusório ilimitado
Que é o espaço-tempo dos sentidos
Talvez eu me tenha deslocado
Talvez eu me tenha transformado
Ou talvez já existisse inteiramente
E a arte não morreu antigamente
Bendita seja a criação eterna
Na sua perfeita imperfeição
E a moda e o fluxo e a ilusão
E o final juízo que nos mói
E a arte do prazer mesmo se dói
Louvadas sejam todas as correntes
E as suas searas e sementes

Imagem de: www.emerson.com

quarta-feira, junho 28, 2017

"Two turntables and a microphone"



Nunca faças planos sérios sobre ti mesmo
Porque os deuses riem-se como tu te rias
No tempo em que dormias agarrado a um peluche
E antes de lhe estraçalhares o pescoço azul de felpo
Sem que o imagines remodelaram a creche
E esqueceram-se de te ir buscar ao fim da tarde
Por isso, ri com os teus planos e sorri
E toma-os a sério como quem toma café
Ou uma piña colada junto ao coqueiral
A verdade, a verdade
A verdade é que nunca me ocorrera antes
Que o Beck tivesse andado a ouvir os Doors
Enquanto rolo sob o céu seminublado
É a rádio que mo revela sem mais
Sobre o asfalto negro do caminho repetido
E a verdade, a verdade
Sem maiúscula como dizem que alguém foi
É que sempre amei os sons mais que eles a mim
E por isso brinco com as palavras e os versos
Para não bigbangar em todas as direções
Tornado incompetente no criar de universos

Imagem de: Classic Aletrnative @ Twitter





sábado, junho 17, 2017

Os gritos silenciosos


Vejo os camiões passar
Junto às árvores derrubadas
Entre casas descascadas
Como exclamações no ar

E além de etéreos compridos
Vive o delírio da cor
Que artifica a humana dor
A buzinar nos ouvidos

O cancro gargalha sozinho
Com a diversão que traz
A convicção tão sagaz
De que o mal é o vizinho

E buzina como um louco
Mata a rua convencida
De que é grande e que tem vida
Buzina até eu ficar rouco

E a rouquidão é saudável
Silêncio com o bloqueio a Cuba
Os icebergues aos saltos
Os assassínios no ecrã
Regras rígidas de interesses
Safam-se como bem podem
Por mais que se grite e buzine
O cancro ri com cinismo
Da afonia desejável

Imagem de: Tumblr

quarta-feira, junho 14, 2017

Poema aparentemente mórbido que não o é realmente


Eu não tenho qualquer terra
Mesmo se a terra me tem
Norte, sul, oeste, leste
Cima, baixo, lado, adiante
Não passo de um Che diferente
Sem causas e sem bravura
Que dura nesta andadura
A minha terra é a Luísa
A minha terra é o Alexandre
Os meus pais, a minha avó
Os meus amigos na vida
A minha terra mental
E além da cintura de Kuiper
Para lá da GN-z11
Além da bolha inicial
Além da implosão final
Quero as cinzas, ossos, alma
Dispersos por quem me amou

Imagem de: rajveerspace.blogspot

segunda-feira, junho 12, 2017

A víbora


Vislumbro o olhar triangular entre as ervas do jardim
O cinzento-azul, a mancha escura em zig-zag em direção a mim
Fita-me selvagem, sensual, ereta e silva em tom aberto
Porque não saboreias o sumo que gratuitamente te oferto
Perante a minha nega gargalha e diz estar a ver mal
As tonturas do veneno são o que me tornará real
Com um bastão que apanho do cascalho fino
Quebro-lhe o pescoço num súbito crac assassino
Pobre víbora, obediente ao Deus fatal
Quem a poderá acusar por ter sido natural
Com um crac assassino elimino a inimiga
A acusadora na inocência e sigo com a vida

Imagem de: Animais - Cultura Mix

domingo, junho 11, 2017

Raios solares


Os raios do sol dão existência
Em câmara ardente de intenso vibrar
Flamejam no vácuo, trespassam o ar
E soam no canto próprio da essência

E eu sou e faço-me raio solar
Cresço em florestas de paciência
Percorro oceanos de luminescência
E sou apenas o meu respirar

Que ritmo palpita na luz da ciência
Que canto floresce no jardim do falar
Que é a intuição senão a experiência
Que nos faz viver e nos vem matar

Os raios solares na sua insistência
Lutam inglórios na impermanência
E toda a beleza é alveolar
Verões imaginados que queremos sonhar

Imagem de: National Climatic Data Center

quinta-feira, junho 01, 2017

It was fifty years ago today


quarta-feira, maio 31, 2017

Pessoas a caminhar



As pessoas caminham dentro de redomas
Em quartos fechados, cheios de axiomas
(E nem saberão o que isso quer dizer;
Debatem consigo e julgam escolher)
Por ruas e estradas e outros roteiros
Por praias e vales, montes e outeiros
Percorrem distâncias em pontos finais
E embatem, por vezes, em outros mortais
"Desculpe", "desculpe", "filho da mãe"
"O que é que me disse? O filho de quem?"
Caminham em círculos e chocam com nada
E zangam-se e erguem o indicador em riste
Pois nada talvez seja tudo o que existe

Imagem de: Draycat.com



terça-feira, maio 30, 2017

O rio


Rio longo e largo vai serpenteando
Forte e emplumado no seu fogo brando
E é a gente quem grita e o sangue repica
Num campanário remoto, o deserto
Um portal incerto ao rumo entreaberto
E seguem-no os peixes pelo mar dentro
E bebem-se a sorte da vida e da morte
Por entre sargaços de fogo a dançar
E naus pelo caminho estrelas a pastar
E astros espelhados e nuvens opacas
E Adão em sofás, em camas e em macas
Num sonho bizarro de um deus persistente
O rio dilui todo o mundo de gente
Chegados ao cosmos onde arde a fornalha
Onde o céu se põe como uma mortalha
Cantam louvores e entregam-se ao nada
E o rio desenha no universo a estrada
Vazia e imensa em queda e esplendor
Fogo de artifício de um só espetador

Imagem de: Groupon

quarta-feira, maio 24, 2017

E afinal...

E afinal... acho que vou manter o tamanho da letra. Ou tentar o mesmo tamanho com fontes diferentes, mais pequenas. Ou tentar um tamanho menor, com fontes diferentes, maiores.
Isto porque fico com a estranha sensação de que, alterando o tamanho da fonte, se perde visualmente algo.
Não sei... Se quem me vai visitando desse opiniões, talvez soubesse um pouco mais...

Apaga as luzes





Apaga as luzes devagar


Que os terroristas se vão deitar
Em espessos leitos de um morto mar
Cilícios negros secos de sal
E os anarquistas vão-se deitar
E os revoltosos vão-se deitar
E os piratas vão-se deitar
E os gananciosos vão-se deitar
E os violentos vão-se deitar
E os mentirosos vão-se deitar
E os ébrios loucos vão-se deitar


Apaga-as delicadamente


Que as silvas rudes se vão deitar
Em cravações por montes antigos
Onde a alcateia chega para uivar
E as supernovas vão-se deitar
E as brisas mornas vão-se deitar
E as horas mortas vão-se deitar
E os oceanos vão-se deitar
E as avezinhas vão-se deitar
E as oliveiras vão-se deitar
E os próprios anjos vão-se deitar


Apaga


E logo fecharei as persianas

Imagem de: Survivopedia

terça-feira, maio 23, 2017

La Mula Rosa


A llanura estica alongamentos, fulva ronda
Ultrapassa o touro bravo e o trem dormente
Espraia-se junto à linha incandescente
Onde o sol dormita sobre a onda

Mas é uma miragem, putativa imagem
Quebra-se a largueza nas mãos do fascista
O papel abafa a voz do alquimista
E apouca na letra a nossa viagem

Quem lhes deu a ordem vendeu a mordaça
Forçou a passagem na casa dos fracos
Arrumou a Europa em sacos com cacos
E onde a luz passava já nada mais passa

Imagem de: My world in pastel, blog

segunda-feira, maio 22, 2017

Alteração no tamanho da fonte


Não foram as musas quem me encarregou de o fazer. Nem as fontes de Aganipe e Hipocrene perderam parte do seu caudal. Fui eu mesmo.
Como já devem ter notado, os caracteres do texto passam a surgir em letras menores do que o habitual. A razão é o facto de estar cansado de ver, em resultado da formatação, palavras fugirem-me para a linha seguinte como se se tratasse de um neobarroquismo. Que não é.
Abraços.

Lunar


Não tenho coisa nenhuma que hoje queira partilhar
Na impermanência do mundo sento-me e fico a pensar
Onde estive até agora, em que quark de algum lado
Em que degrau deslizei sem tombar estatelado
A quantos graus derreti no meio do caldo solar
A quantos sois viajei no cosmos esvaziado

Nada novo sob o sol, nada velho no luar
Tudo sem forma ou idade, tudo quieto a vibrar
Como um cântico perdido no meio de um livro inventado
Ou um quântico brunido por um tecelão fiado
A quantos graus ascendi no meio do caldo solar
Quantos sois imaginei neste caos imponderado

Imagem de: cnn.com


quarta-feira, maio 03, 2017

Fábrica abandonada



Ao passar na estrada, ensanduichado
Junto a uma velha usina de fantasmas
Todos emparedados, como em Douaumont,
Entre ruídos ausentes e grafittis
Penso que, em verdade, nada sei.
O que sou, o que sei, mas que diabo?
E deixo os conhecimentos todos
Inteiros, plenos, a quem julgar tê-los
Assim mesmo, séria e candidamente
Como a sabedoria dos arcanjos
Coelho a anunciar o fim das eras
Cristas a mostrar-se confiante
May a alertar para inimigos vagos
Um cantor a imitar Syd Barrett
Cinco décadas totais atrás da meta
E concentro-me na rádio e na condução.
Os dias repetem-se pelo mundo fora
Quer chova, faça sol ou vente
E em Douaumont pingam nas paredes gotas finas
Como o sangue que se esgota dos que já partiram
Quem os chorou? Uma mãe, pai, esposa, filhos
Amigos talvez, a pátria não
Que a pátria vive sempre à sombra das usinas
Amante exigente e superficial
E o que resta são muros vazios, condutas retorcidas
E a deslocalização das almas e das vidas

Fotografia Fábrica abandonada, de El Club Digital

quinta-feira, abril 27, 2017

Migrações 2


Portugal esvazia-se como um caixão do avesso
Seremos, brevemente, todos velhos nos alpendres
Mordidos dos cães vadios, magros e possuídos
Profundamente isolados entre os poços celulares 
Magros, igualmente nós, os sonhos a enferrujar
Memórias da meninice, dos nossos meninos também
Perdidos eternamente além das ondas de areia
Como lendas rarefeitas de triângulos no oceano
Mensagens inentendíveis de algum deus omniausente
Very typical, sem dúvida, utterly archetypical
E para os bolsos gananciosos que assim nos vão empurrando
Ficam os velhos e os cães e toda a demência a seu mando

Foto de José Rodrigues in blog Farrapos de Memória

sexta-feira, abril 21, 2017

Os sonhadores do tempo



Certas pessoas sonham com o passado
Como quem sonha com manchas de cor
E eu sonho a dormir num mundo indolor
E vivo o presente bastante acordado

Não como saudade ou bebo nostalgia
Nem vejo fantasmas e auras fluidas
E sei que as neblinas das manhãs compridas
Nem exclamam respostas nem calam o dia

Hoje foi ontem e amanhã também
Quem chora ou ri ou sente autoimportância
É parte da sua pequena inconstância
Deus em causa própria, bebé de uma mãe

E é triste no riso e alegre no esgar
Que nunca se explica porque é igualmente
Manchas de cor, tempo impermanente
Sonhador incauto, estrela decadente
Acreditador que a vida inconsente
Filho menor do adjetivar

Diálogos de uma psicótica numa esplanada ao sol


Falas comigo outra vez?
Comigo ou com quem tu não vês?
Sim, porque se falas para mim
Não é princípio nem fim.
!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Hei de ver-te para lá
Onde não estaremos cá
Veremos quem é maioral
Larga a igreja, o bacanal
E tu, porque te enfias no meio
Não sabes que é rude, que é feio?
Que é como já nem sei bem
Estás a olhar-me como quem?
?????????????!!!!!!!!!!
Matei-te porque mereces
E, estás aqui, adoeces
E enfio-te um tiro nas trombas
Encho-te o prato de bombas
Terrorista duma treta
És feia como a careta
Controlas-me em ondas no ar
Mas vais parar, vais parar.
###################
Larga-me a mioleira,
Trolha, médico, peixeira
Palavras leva-as o vento
Branco é, galinha de Noé
Espeto-vos tiros no pé
Foste, perdeste o assento
!?#%«€&2................................

sexta-feira, abril 14, 2017

Uma dama de rubro negro


Em tempos infinitamente além
Uma dama rubra de negro vestida
Cruzou meu caminho, sempre eu de partida
E, numa voz cava, falou muito bem

O seu discurso composto de imagens
Colava-se às mentes dos pobres mortais
Em calafrios quentes, sensuais
Que prometiam eternas viagens

Dizia: “Sou uma amante muito ciosa
Que nunca abandona os seus protegidos
E se, acaso, ficam desvalidos
Redobro o meu gozo, a aura poderosa”

E eu perguntei, só por desfastio:
“Ofereces um lar, uma luz vibrante,
A felicidade mais do que um instante?
Que amor ofereces mais do que o vazio?”

Não se zangou, toda ela controlo.
“Quem me desposa vive só para mim
Porque sou o princípio, o meio e o fim
E o único erro é o ouro do tolo”

“Queres experimentar-me, assim tu bem hajas,
Sem compromissos, pelo prazer maior?”
E eu, para a afastar, olhando em redor,
Respondi: "Lamento, não gosto de gajas"
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