sábado, junho 17, 2017

Os gritos silenciosos


Vejo os camiões passar
Junto às árvores derrubadas
Entre casas descascadas
Como exclamações no ar

E além de etéreos compridos
Vive o delírio da cor
Que artifica a humana dor
A buzinar nos ouvidos

O cancro gargalha sozinho
Com a diversão que traz
A convicção tão sagaz
De que o mal é o vizinho

E buzina como um louco
Mata a rua convencida
De que é grande e que tem vida
Buzina até eu ficar rouco

E a rouquidão é saudável
Silêncio com o bloqueio a Cuba
Os icebergues aos saltos
Os assassínios no ecrã
Regras rígidas de interesses
Safam-se como bem podem
Por mais que se grite e buzine
O cancro ri com cinismo
Da afonia desejável

Imagem de: Tumblr

quarta-feira, junho 14, 2017

Poema aparentemente mórbido que não o é realmente


Eu não tenho qualquer terra
Mesmo se a terra me tem
Norte, sul, oeste, leste
Cima, baixo, lado, adiante
Não passo de um Che diferente
Sem causas e sem bravura
Que dura nesta andadura
A minha terra é a Luísa
A minha terra é o Alexandre
Os meus pais, a minha avó
Os meus amigos na vida
A minha terra mental
E além da cintura de Kuiper
Para lá da GN-z11
Além da bolha inicial
Além da implosão final
Quero as cinzas, ossos, alma
Dispersos por quem me amou

Imagem de: rajveerspace.blogspot

segunda-feira, junho 12, 2017

A víbora


Vislumbro o olhar triangular entre as ervas do jardim
O cinzento-azul, a mancha escura em zig-zag em direção a mim
Fita-me selvagem, sensual, ereta e silva em tom aberto
Porque não saboreias o sumo que gratuitamente te oferto
Perante a minha nega gargalha e diz estar a ver mal
As tonturas do veneno são o que me tornará real
Com um bastão que apanho do cascalho fino
Quebro-lhe o pescoço num súbito crac assassino
Pobre víbora, obediente ao Deus fatal
Quem a poderá acusar por ter sido natural
Com um crac assassino elimino a inimiga
A acusadora na inocência e sigo com a vida

Imagem de: Animais - Cultura Mix

domingo, junho 11, 2017

Raios solares


Os raios do sol dão existência
Em câmara ardente de intenso vibrar
Flamejam no vácuo, trespassam o ar
E soam no canto próprio da essência

E eu sou e faço-me raio solar
Cresço em florestas de paciência
Percorro oceanos de luminescência
E sou apenas o meu respirar

Que ritmo palpita na luz da ciência
Que canto floresce no jardim do falar
Que é a intuição senão a experiência
Que nos faz viver e nos vem matar

Os raios solares na sua insistência
Lutam inglórios na impermanência
E toda a beleza é alveolar
Verões imaginados que queremos sonhar

Imagem de: National Climatic Data Center

quinta-feira, junho 01, 2017

It was fifty years ago today


quarta-feira, maio 31, 2017

Pessoas a caminhar



As pessoas caminham dentro de redomas
Em quartos fechados, cheios de axiomas
(E nem saberão o que isso quer dizer;
Debatem consigo e julgam escolher)
Por ruas e estradas e outros roteiros
Por praias e vales, montes e outeiros
Percorrem distâncias em pontos finais
E embatem, por vezes, em outros mortais
"Desculpe", "desculpe", "filho da mãe"
"O que é que me disse? O filho de quem?"
Caminham em círculos e chocam com nada
E zangam-se e erguem o indicador em riste
Pois nada talvez seja tudo o que existe

Imagem de: Draycat.com



terça-feira, maio 30, 2017

O rio


Rio longo e largo vai serpenteando
Forte e emplumado no seu fogo brando
E é a gente quem grita e o sangue repica
Num campanário remoto, o deserto
Um portal incerto ao rumo entreaberto
E seguem-no os peixes pelo mar dentro
E bebem-se a sorte da vida e da morte
Por entre sargaços de fogo a dançar
E naus pelo caminho estrelas a pastar
E astros espelhados e nuvens opacas
E Adão em sofás, em camas e em macas
Num sonho bizarro de um deus persistente
O rio dilui todo o mundo de gente
Chegados ao cosmos onde arde a fornalha
Onde o céu se põe como uma mortalha
Cantam louvores e entregam-se ao nada
E o rio desenha no universo a estrada
Vazia e imensa em queda e esplendor
Fogo de artifício de um só espetador

Imagem de: Groupon

quarta-feira, maio 24, 2017

E afinal...

E afinal... acho que vou manter o tamanho da letra. Ou tentar o mesmo tamanho com fontes diferentes, mais pequenas. Ou tentar um tamanho menor, com fontes diferentes, maiores.
Isto porque fico com a estranha sensação de que, alterando o tamanho da fonte, se perde visualmente algo.
Não sei... Se quem me vai visitando desse opiniões, talvez soubesse um pouco mais...

Apaga as luzes





Apaga as luzes devagar


Que os terroristas se vão deitar
Em espessos leitos de um morto mar
Cilícios negros secos de sal
E os anarquistas vão-se deitar
E os revoltosos vão-se deitar
E os piratas vão-se deitar
E os gananciosos vão-se deitar
E os violentos vão-se deitar
E os mentirosos vão-se deitar
E os ébrios loucos vão-se deitar


Apaga-as delicadamente


Que as silvas rudes se vão deitar
Em cravações por montes antigos
Onde a alcateia chega para uivar
E as supernovas vão-se deitar
E as brisas mornas vão-se deitar
E as horas mortas vão-se deitar
E os oceanos vão-se deitar
E as avezinhas vão-se deitar
E as oliveiras vão-se deitar
E os próprios anjos vão-se deitar


Apaga


E logo fecharei as persianas

Imagem de: Survivopedia

terça-feira, maio 23, 2017

La Mula Rosa


A llanura estica alongamentos, fulva ronda
Ultrapassa o touro bravo e o trem dormente
Espraia-se junto à linha incandescente
Onde o sol dormita sobre a onda

Mas é uma miragem, putativa imagem
Quebra-se a largueza nas mãos do fascista
O papel abafa a voz do alquimista
E apouca na letra a nossa viagem

Quem lhes deu a ordem vendeu a mordaça
Forçou a passagem na casa dos fracos
Arrumou a Europa em sacos com cacos
E onde a luz passava já nada mais passa

Imagem de: My world in pastel, blog

segunda-feira, maio 22, 2017

Alteração no tamanho da fonte


Não foram as musas quem me encarregou de o fazer. Nem as fontes de Aganipe e Hipocrene perderam parte do seu caudal. Fui eu mesmo.
Como já devem ter notado, os caracteres do texto passam a surgir em letras menores do que o habitual. A razão é o facto de estar cansado de ver, em resultado da formatação, palavras fugirem-me para a linha seguinte como se se tratasse de um neobarroquismo. Que não é.
Abraços.

Lunar


Não tenho coisa nenhuma que hoje queira partilhar
Na impermanência do mundo sento-me e fico a pensar
Onde estive até agora, em que quark de algum lado
Em que degrau deslizei sem tombar estatelado
A quantos graus derreti no meio do caldo solar
A quantos sois viajei no cosmos esvaziado

Nada novo sob o sol, nada velho no luar
Tudo sem forma ou idade, tudo quieto a vibrar
Como um cântico perdido no meio de um livro inventado
Ou um quântico brunido por um tecelão fiado
A quantos graus ascendi no meio do caldo solar
Quantos sois imaginei neste caos imponderado

Imagem de: cnn.com


quarta-feira, maio 03, 2017

Fábrica abandonada



Ao passar na estrada, ensanduichado
Junto a uma velha usina de fantasmas
Todos emparedados, como em Douaumont,
Entre ruídos ausentes e grafittis
Penso que, em verdade, nada sei.
O que sou, o que sei, mas que diabo?
E deixo os conhecimentos todos
Inteiros, plenos, a quem julgar tê-los
Assim mesmo, séria e candidamente
Como a sabedoria dos arcanjos
Coelho a anunciar o fim das eras
Cristas a mostrar-se confiante
May a alertar para inimigos vagos
Um cantor a imitar Syd Barrett
Cinco décadas totais atrás da meta
E concentro-me na rádio e na condução.
Os dias repetem-se pelo mundo fora
Quer chova, faça sol ou vente
E em Douaumont pingam nas paredes gotas finas
Como o sangue que se esgota dos que já partiram
Quem os chorou? Uma mãe, pai, esposa, filhos
Amigos talvez, a pátria não
Que a pátria vive sempre à sombra das usinas
Amante exigente e superficial
E o que resta são muros vazios, condutas retorcidas
E a deslocalização das almas e das vidas

Fotografia Fábrica abandonada, de El Club Digital

quinta-feira, abril 27, 2017

Migrações 2


Portugal esvazia-se como um caixão do avesso
Seremos, brevemente, todos velhos nos alpendres
Mordidos dos cães vadios, magros e possuídos
Profundamente isolados entre os poços celulares 
Magros, igualmente nós, os sonhos a enferrujar
Memórias da meninice, dos nossos meninos também
Perdidos eternamente além das ondas de areia
Como lendas rarefeitas de triângulos no oceano
Mensagens inentendíveis de algum deus omniausente
Very typical, sem dúvida, utterly archetypical
E para os bolsos gananciosos que assim nos vão empurrando
Ficam os velhos e os cães e toda a demência a seu mando

Foto de José Rodrigues in blog Farrapos de Memória

sexta-feira, abril 21, 2017

Os sonhadores do tempo



Certas pessoas sonham com o passado
Como quem sonha com manchas de cor
E eu sonho a dormir num mundo indolor
E vivo o presente bastante acordado

Não como saudade ou bebo nostalgia
Nem vejo fantasmas e auras fluidas
E sei que as neblinas das manhãs compridas
Nem exclamam respostas nem calam o dia

Hoje foi ontem e amanhã também
Quem chora ou ri ou sente autoimportância
É parte da sua pequena inconstância
Deus em causa própria, bebé de uma mãe

E é triste no riso e alegre no esgar
Que nunca se explica porque é igualmente
Manchas de cor, tempo impermanente
Sonhador incauto, estrela decadente
Acreditador que a vida inconsente
Filho menor do adjetivar

Diálogos de uma psicótica numa esplanada ao sol


Falas comigo outra vez?
Comigo ou com quem tu não vês?
Sim, porque se falas para mim
Não é princípio nem fim.
!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Hei de ver-te para lá
Onde não estaremos cá
Veremos quem é maioral
Larga a igreja, o bacanal
E tu, porque te enfias no meio
Não sabes que é rude, que é feio?
Que é como já nem sei bem
Estás a olhar-me como quem?
?????????????!!!!!!!!!!
Matei-te porque mereces
E, estás aqui, adoeces
E enfio-te um tiro nas trombas
Encho-te o prato de bombas
Terrorista duma treta
És feia como a careta
Controlas-me em ondas no ar
Mas vais parar, vais parar.
###################
Larga-me a mioleira,
Trolha, médico, peixeira
Palavras leva-as o vento
Branco é, galinha de Noé
Espeto-vos tiros no pé
Foste, perdeste o assento
!?#%«€&2................................

sexta-feira, abril 14, 2017

Uma dama de rubro negro


Em tempos infinitamente além
Uma dama rubra de negro vestida
Cruzou meu caminho, sempre eu de partida
E, numa voz cava, falou muito bem

O seu discurso composto de imagens
Colava-se às mentes dos pobres mortais
Em calafrios quentes, sensuais
Que prometiam eternas viagens

Dizia: “Sou uma amante muito ciosa
Que nunca abandona os seus protegidos
E se, acaso, ficam desvalidos
Redobro o meu gozo, a aura poderosa”

E eu perguntei, só por desfastio:
“Ofereces um lar, uma luz vibrante,
A felicidade mais do que um instante?
Que amor ofereces mais do que o vazio?”

Não se zangou, toda ela controlo.
“Quem me desposa vive só para mim
Porque sou o princípio, o meio e o fim
E o único erro é o ouro do tolo”

“Queres experimentar-me, assim tu bem hajas,
Sem compromissos, pelo prazer maior?”
E eu, para a afastar, olhando em redor,
Respondi: "Lamento, não gosto de gajas"

sexta-feira, março 03, 2017

Memória


Já um dia tive a tua idade
Vivi na aldeia como na cidade
E não me perdi não sei bem porquê
Ou pode ser que esteja onde não se vê
E o que será ver senão desconhecer?
E o que é viver? Que será?
Que vida nas tessituras das folhas
Nas partituras da palma da mão?
E eis-nos todos no mesmo local
A horas dormentes, diferentes
E a memória esboroada
Talvez já não recorde nada...
Só o amanhã brilhará
No tempo que então fará

quinta-feira, janeiro 26, 2017

A humble smile at the Beam me up Scottie flood

I don't write poetry much anymore as it's a bit frustrating not to be published. Let's face it: as much as I like the net and its potential, as much as I'm thankful to everyone who's visited the blog during so many years, there's nothing like the actual recognition. 
But so be it. I'm a realist but I refuse to pay to get published. Published on paper, that is. And befriend critcs. And the press. And everyone. It feels too much like cheating.
Now... something interesting has happened lately... Ever since I wrote a poem named Beam me up Scottie. I've been relatively flooded by visitors from the US (and even from Russia once; at least that I noticed).
That's very interesting and speaks enormously of markets. I think.
I only wish my visitors could actually understand my poetry (said with a humble smile)...

sexta-feira, dezembro 30, 2016

Beam me up Scottie


Pa-pá-pá-pa-pá-pá.....
Beam me up Scottie, there's something wrong in outer space
E a NASA avisa que há satélites a cair sobre o planeta
Toute petite, toute petite, la planète
Mais interferências, ruído, estática
Pa-pá-pá-pá.....
Que tempo oculto
Captamos mensagens intergaláticas
Wormholes, a grande expansão primordial
Galáxias que chocam entre si com violência
Os tempos misturados e perdemo-nos em nunca e sempre
Imersos em nuvens imensas de matéria escura
OVNIs ocultos pela radiação estelar
Pa-pápápápápá.....
Será código Morse que chega de 1838?
Aquela bebé vai ter a minha idade em 2070.
Há quem me possa chamar antipoesia
E a ave voa e o gato mia e o rato chia
Quem plana também se desengana...
E o código chega de algum universo paralelo
Ininterrupto, como a melopeia doida de um Deus triste
Senhor dos Exércitos e das Leis
Pa-pápápápápápápá...................................

quarta-feira, dezembro 21, 2016

Votos de Bom Natal


Os meus votos de Bom Natal a quem por cá passar. A norte ou a sul, a leste ou a oeste, que o espírito encontre a vossa morada.

Imagem de: www.theodysseyonline.com

terça-feira, dezembro 06, 2016

Composição em claro-escuro


Sonhei que sonhei que sonhava
E que nunca mais despertava
E os raios do sol cobriam lajedos
E a lua abraçava-se aos arvoredos
Os galhos zunindo ao vento-dará
E o tempo, o tempo onde andará?
Pensei que pensei que acordava
E que nunca mais parava
E os raios do sol cobriam bosquedos
E os raios da lua como seus brinquedos
Que entrelaçava pensando, pensante
O tempo, não mais do que um breve instante.
Memória de inseto, tromba de elefante.

Tela de Raimundo Porto

terça-feira, março 15, 2016

Sempre


Sempre os mesmos gestos usuais...

A chave que abre também fecha.
O carro que arranca também para.
O teclado escreve como apaga.
O telemóvel fala e silencia.
A estrada suaviza e também chia.

Sempre os mesmos gestos usuais...

Falta algures o abraço do meu pai,
Da minha mãe o beijo, o olhar da minha avó,
O sol da eternidade imaginária
Tão certa que nem mesmo se imagina
A linha longa e certa dessa sina

Sempre os mesmos gestos usuais...
Reconfortantes - que se pedem mais.

sábado, agosto 08, 2015

Hi!


Gosto quando desconhecidos genuinamente me saúdam
Com sorrisos genuínos de galáxias impensáveis
Prefiro-o definitivamente a golpes de estado
E a batalhas de egos num mundo descampado
Por vezes gosto ainda de versificar sem destino
De não pensar na rima, métrica, ritmo e tino
Em vastas planícies que de vastas não se afundam
E surpreender-me sempre com estranhos amáveis

Imagem de: www.come2drum.wordpress.com

quinta-feira, julho 23, 2015

Insónia 2


Quando o tempo não avança
E os minutos morrem lentos
Sinto vontade de gritar aos ventos
Deixem-me nanar como em criança

Nada me embala no mundo calado
O tempo que pinga numa contradança
De um rio entupido no cabo da esperança
O mundo parado e eu todo acordado

Dormem os corruptos na injusta balança
Os animaizinhos sonhando os momentos
As plantas e as pedras em tons pardacentos...
Só eu despertado no planeta, cansa

segunda-feira, julho 06, 2015

Insónia


Em noites insones de vácuo lunar
Por motivo algum que me ocorra agora
Sento-me a esta mesa a escrevinhar
As poucas palavras que permite a hora

Escuta-se a ausência do pêndulo na sala
Os cães adormecem e não uivam mais
E o vapor que ascende, lento como a fala
Prepara-me o sono doce dos mortais

Imagem de: shiffmanmattresses.wordpress.com

sexta-feira, julho 03, 2015

Petite histoire pour dormir


Il ne sut jamais parler le portugais
Hélas, il ne l'apprit jamais
Mais il dort maintenant au panthéon des dieux
Mortels dans leur non-lieu
C'est un angle obscur, celui du rouge
Soi-disant encarnado paysan
La mort enregistrée par une gouge
"Tué en combat" à peu près

Imagem de: myguide.iol.pt

Porque é que escrevi isto em francês? Porque sim...

domingo, março 15, 2015

O mundo e a Europa, a Europa e o mundo



O mundo e a Europa conhecem o Victan 
A Europa e o mundo conhecem o Xanax 
O mundo e a Europa tomam Lexotan 
A Europa e o mundo, o mundo e a Europa 
As marcas, os hamburgers, os tablets, o FB 
E ainda o FBI nas séries de televisão 
O mundo tem noção quando sopra um furacão 
Os jovens vestem roupas e um brinco na orelha 
Uma tatuagem, um piercing na sobrancelha 
O mundo e a Europa, a Europa e o mundo 
A ideia da austeridade, a poluição na cidade 
O cartaz publicitário em Estocolmo e em Luanda 
Sobre os telhados de colmo pairam céus de propaganda 
E os velhos arrastam as roupas como um manto de memória 
E o patriotismo faz-se com os bonecos da história 
E o internacionalismo com os bonecos bonecos 
E o federalismo com bonecos-ecos-ecos 
E as taxas e os impostos 
Pelos corredores animados por eternos deputados 
Em Estrasburgo e em Bruxelas 
No Kremlin e em Pequim 
Em Brasília e em Berlim 
As sombras das sentinelas 
Que imaginam conhecer-nos

Imagem de: tiempodefuria.blogspot.com. 

quarta-feira, dezembro 24, 2014

Um bom Natal para todos


Para não quebrar a tradição, porque há boas tradições, aqui vos deixo os meus votos sinceros de um Feliz Natal e de um 2015 à medida dos vossos melhores desejos. Abraço.

quinta-feira, novembro 06, 2014

Não, o blog não está abandonado...

Não, o blog não está abandonado. Tenho-me simplesmente dedicado à prosa, provavelmente um degrau acima do da poesia, e gostaria de receber opiniões acerca do romance anunciado no post anterior - não se esqueçam que o podem adquirir online -, sendo que acabo de concluir um novo romance... mas isso é outra história e ficará para mais tarde!

Abraços,

Jorge

quinta-feira, agosto 07, 2014

Para quem quiser adquirir O Rodopio do Escorpião



Recordam-se do convite para a apresentação? Está uns posts abaixo. Quem não quiser ter que procurar a obra nas livrarias (opção tradicional) e ainda assim tenha interesse em adquiri-la, é só seguir o link: O Rodopio do Escorpião. Abraço e boas leituras (eu já tenho andado a aproveitar a silly season para as colocar em dia).

sábado, agosto 02, 2014

Porto Santo


Aves, palmeiras, colinas e terreno ressequido
A casa onde Colombo viveu equivocado
E onde não fomos. O silêncio...
As nuvens e o vento seco e fresco
Junto à praia longa, o mar imenso
As Desertas disfarçadas na neblina
Fina areia que se cola, indefinida
Como estrelinhas de vida.
Adeus a Porto Santo, nunca mais te vejo...
Olá, longo como o areal, sempre olá no nosso beijo.

quarta-feira, junho 25, 2014

Filipe


Partiste cedo e a 54 à hora
Numa motorizada quase sem um raio
Num quase triciclo quase inexistente
A caminho de uma feira onde venderás
Certamente uma pulseira a cada anjo.
Partiste noutro tempo já inimaginável
Num raio de luz intemporal
Bebendo cai-bens, bem humorado
Com o sorriso de calcorrear a liberdade…
Dizem que estavas anafado,
Que o stress te tinha roubado a vida,
Que reagias mal a quem te prevenia,
Que corrias, te enervavas, rabujavas…
Custa-me a entender como te podem ter mudado,
Os que mandam, orgulhosos, cães-polícias,
Os políticos em todas as aceções,
Os que mandam em todas as direções
Raios de Zeus podres como o Hades.
Eu vejo-te como então te via…
Entramos, agora, num pomar alheio,
Limpamos uma maçã à ganga coçada
De tempos tão diferentes, comestíveis
E, jovens, criamos cachimbos de cana,
De festa em festa quando o verão era verão,
Tendas de índios, explorações,
Mundos vastos, imaginações
E culminamos numa eterna gargalhada.

Imagem de: www.andorinhas.planetaclix.pt

sábado, maio 31, 2014

Lançamento de romance a 14 de junho: convite


Olá. Como podem ver, o meu romance O Rodopio do Escorpião tem lançamento agendado para o próximo dia 14 de junho, pelas 16,30 h, no Café Concerto do Fórum da Maia. A apresentação estará a cargo do jornalista Pedro Olavo Simões. Espero ter o prazer de vos encontrar no evento!

Jorge

quarta-feira, maio 28, 2014

Aniversários


O meu aniversário foi há muito tempo
Tanto que só o consigo relativizar
E tornar Einstein numa espécie de anti-herói
Dos sonhos desvanecidos ao despertar

Reuniamo-nos à volta da mesa, sim
Cantávamos a lengalenga do costume
E nada disso me traz lágrimas aos olhos
Exceto ocasionalmente os que morreram
Mas nem todos os que morreram
Ou seria eu o maior de todos os mortos
E não sou

As tias, tios, primos, primas dissolveram-se
Os amigos são um continuum espaço-temporal
E eis-me no buraco negro de nós todos
Sorvendo a luz ténue das velas agora no lixo

As paredes não estão de todo descascadas
Porque os muros são uma ilusão do homem
E estou eu no centro para me aborrecer de mim apenas
Tudo o resto é ilusão e deixo o drama para outros

Vendo bem, todos os anos faço anos
Mesmo gostando de dizer que só existo
É uma pecha literária e pouco mais
Somos poucos, mas muitos são desnecessários
Vamos a um restaurante, bebemos vinho
Comemos bem, cantamos os parabéns
E, até ver, continuo a flutuar nas vagas
E navegamos normalmente até um dia

Imagem de: www.diabetesdad.org

quinta-feira, maio 15, 2014

Recordação dos oitenta


Certo dia, há uns trinta anos, incrédulo, perguntaste
(tinhas-me visto com um vinil de JJ Cale na mão):
"Mas tu curtes essa cena, meu?
Isso é o tipo de coisa que os meus velhos têm lá em casa!"
Passado pouco tempo, estavas embrulhado em heroína
E, depois (terás tido sorte relativa) ficaste um profissional.
Entretanto, o tempo passou como sempre passa,
Arma cortante e constante do universo real...
Agora que todos somos velhos
E temos o que tivermos em casa
JJ não morreu nem nunca morrerá
Nós vamos morrendo lentamente à contagem dos minutos
E os teus ídolos techno-pop estavam mortos à nascença.

Imagem de: www.independent.co.uk

sábado, março 29, 2014

Cão amarelo notívago


Passa das duas, junto da estrada, sob o céu nublado
Um cão amarelo ergue-se em vigia no tempo parado
Um abandonado que ladra, por vezes, ao carro passante
E se quiser, sem ordens de alguém, solta-se uivante

À hora tardia, o ser pensante dorme um sono perturbado
De quem segue as regras (dormir inclusive)
Sempre esteirado num leve declive
Que o acorda vago e sobressaltado

Outros fumam, bebem, conversam pela noite calada
Não sonham ainda os seus pesadelos
Que caem como granizo grosso eriçando os pelos
E não sabem também da sentinela serena na estrada

Quão mais luminosa não seria a noite (e os dias singelos)
Se mais povoada fosse de lúcidos cães amarelos!

Imagem de: www.fireflyforest.net

domingo, março 09, 2014

Os sinos da minha aldeia


Os sinos da minha aldeia
Badalam sempre a finados
Se falo na minha aldeia
Não é por querer copiar
Quem melhor soube cantar
À luz crua a mesma ideia –
Estamos apenas cruzados.
À luz crua da igreja
Com os sinos sempre a dobrarem
E os habitués a cantarem
Há a mesquinhez que sobeja
Mundo fora, para quem veja
A ignorância persistente
Quer do ateu, quer do crente.
Vivem na aldeia gigante
Afogados em certezas
Sentam-se em redor das mesas
Senhores de cada instante
Ignorantes da noção
De que um dia partirão.

Imagem de: www.romulogondim.com.br
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