terça-feira, dezembro 06, 2016

Composição em claro-escuro


Sonhei que sonhei que sonhava
E que nunca mais despertava
E os raios do sol cobriam lajedos
E a lua abraçava-se aos arvoredos
Os galhos zunindo ao vento-dará
E o tempo, o tempo onde andará?
Pensei que pensei que acordava
E que nunca mais parava
E os raios do sol cobriam bosquedos
E os raios da lua como seus brinquedos
Que entrelaçava pensando, pensante
O tempo, não mais do que um breve instante.
Memória de inseto, tromba de elefante.

Tela de Raimundo Porto

terça-feira, março 15, 2016

Sempre


Sempre os mesmos gestos usuais...

A chave que abre também fecha.
O carro que arranca também para.
O teclado escreve como apaga.
O telemóvel fala e silencia.
A estrada suaviza e também chia.

Sempre os mesmos gestos usuais...

Falta algures o abraço do meu pai,
Da minha mãe o beijo, o olhar da minha avó,
O sol da eternidade imaginária
Tão certa que nem mesmo se imagina
A linha longa e certa dessa sina

Sempre os mesmos gestos usuais...
Reconfortantes - que se pedem mais.

sábado, agosto 08, 2015

Hi!


Gosto quando desconhecidos genuinamente me saúdam
Com sorrisos genuínos de galáxias impensáveis
Prefiro-o definitivamente a golpes de estado
E a batalhas de egos num mundo descampado
Por vezes gosto ainda de versificar sem destino
De não pensar na rima, métrica, ritmo e tino
Em vastas planícies que de vastas não se afundam
E surpreender-me sempre com estranhos amáveis

Imagem de: www.come2drum.wordpress.com

quinta-feira, julho 23, 2015

Insónia 2


Quando o tempo não avança
E os minutos morrem lentos
Sinto vontade de gritar aos ventos
Deixem-me nanar como em criança

Nada me embala no mundo calado
O tempo que pinga numa contradança
De um rio entupido no cabo da esperança
O mundo parado e eu todo acordado

Dormem os corruptos na injusta balança
Os animaizinhos sonhando os momentos
As plantas e as pedras em tons pardacentos...
Só eu despertado no planeta, cansa

segunda-feira, julho 06, 2015

Insónia


Em noites insones de vácuo lunar
Por motivo algum que me ocorra agora
Sento-me a esta mesa a escrevinhar
As poucas palavras que permite a hora

Escuta-se a ausência do pêndulo na sala
Os cães adormecem e não uivam mais
E o vapor que ascende, lento como a fala
Prepara-me o sono doce dos mortais

Imagem de: shiffmanmattresses.wordpress.com

sexta-feira, julho 03, 2015

Petite histoire pour dormir


Il ne sut jamais parler le portugais
Hélas, il ne l'apprit jamais
Mais il dort maintenant au panthéon des dieux
Mortels dans leur non-lieu
C'est un angle obscur, celui du rouge
Soi-disant encarnado paysan
La mort enregistrée par une gouge
"Tué en combat" à peu près

Imagem de: myguide.iol.pt

Porque é que escrevi isto em francês? Porque sim...

domingo, março 15, 2015

O mundo e a Europa, a Europa e o mundo



O mundo e a Europa conhecem o Victan 
A Europa e o mundo conhecem o Xanax 
O mundo e a Europa tomam Lexotan 
A Europa e o mundo, o mundo e a Europa 
As marcas, os hamburgers, os tablets, o FB 
E ainda o FBI nas séries de televisão 
O mundo tem noção quando sopra um furacão 
Os jovens vestem roupas e um brinco na orelha 
Uma tatuagem, um piercing na sobrancelha 
O mundo e a Europa, a Europa e o mundo 
A ideia da austeridade, a poluição na cidade 
O cartaz publicitário em Estocolmo e em Luanda 
Sobre os telhados de colmo pairam céus de propaganda 
E os velhos arrastam as roupas como um manto de memória 
E o patriotismo faz-se com os bonecos da história 
E o internacionalismo com os bonecos bonecos 
E o federalismo com bonecos-ecos-ecos 
E as taxas e os impostos 
Pelos corredores animados por eternos deputados 
Em Estrasburgo e em Bruxelas 
No Kremlin e em Pequim 
Em Brasília e em Berlim 
As sombras das sentinelas 
Que imaginam conhecer-nos

Imagem de: tiempodefuria.blogspot.com. 

quarta-feira, dezembro 24, 2014

Um bom Natal para todos


Para não quebrar a tradição, porque há boas tradições, aqui vos deixo os meus votos sinceros de um Feliz Natal e de um 2015 à medida dos vossos melhores desejos. Abraço.

quinta-feira, novembro 06, 2014

Não, o blog não está abandonado...

Não, o blog não está abandonado. Tenho-me simplesmente dedicado à prosa, provavelmente um degrau acima do da poesia, e gostaria de receber opiniões acerca do romance anunciado no post anterior - não se esqueçam que o podem adquirir online -, sendo que acabo de concluir um novo romance... mas isso é outra história e ficará para mais tarde!

Abraços,

Jorge

quinta-feira, agosto 07, 2014

Para quem quiser adquirir O Rodopio do Escorpião



Recordam-se do convite para a apresentação? Está uns posts abaixo. Quem não quiser ter que procurar a obra nas livrarias (opção tradicional) e ainda assim tenha interesse em adquiri-la, é só seguir o link: O Rodopio do Escorpião. Abraço e boas leituras (eu já tenho andado a aproveitar a silly season para as colocar em dia).

sábado, agosto 02, 2014

Porto Santo


Aves, palmeiras, colinas e terreno ressequido
A casa onde Colombo viveu equivocado
E onde não fomos. O silêncio...
As nuvens e o vento seco e fresco
Junto à praia longa, o mar imenso
As Desertas disfarçadas na neblina
Fina areia que se cola, indefinida
Como estrelinhas de vida.
Adeus a Porto Santo, nunca mais te vejo...
Olá, longo como o areal, sempre olá no nosso beijo.

quarta-feira, junho 25, 2014

Filipe


Partiste cedo e a 54 à hora
Numa motorizada quase sem um raio
Num quase triciclo quase inexistente
A caminho de uma feira onde venderás
Certamente uma pulseira a cada anjo.
Partiste noutro tempo já inimaginável
Num raio de luz intemporal
Bebendo cai-bens, bem humorado
Com o sorriso de calcorrear a liberdade…
Dizem que estavas anafado,
Que o stress te tinha roubado a vida,
Que reagias mal a quem te prevenia,
Que corrias, te enervavas, rabujavas…
Custa-me a entender como te podem ter mudado,
Os que mandam, orgulhosos, cães-polícias,
Os políticos em todas as aceções,
Os que mandam em todas as direções
Raios de Zeus podres como o Hades.
Eu vejo-te como então te via…
Entramos, agora, num pomar alheio,
Limpamos uma maçã à ganga coçada
De tempos tão diferentes, comestíveis
E, jovens, criamos cachimbos de cana,
De festa em festa quando o verão era verão,
Tendas de índios, explorações,
Mundos vastos, imaginações
E culminamos numa eterna gargalhada.

Imagem de: www.andorinhas.planetaclix.pt

sábado, maio 31, 2014

Lançamento de romance a 14 de junho: convite


Olá. Como podem ver, o meu romance O Rodopio do Escorpião tem lançamento agendado para o próximo dia 14 de junho, pelas 16,30 h, no Café Concerto do Fórum da Maia. A apresentação estará a cargo do jornalista Pedro Olavo Simões. Espero ter o prazer de vos encontrar no evento!

Jorge

quarta-feira, maio 28, 2014

Aniversários


O meu aniversário foi há muito tempo
Tanto que só o consigo relativizar
E tornar Einstein numa espécie de anti-herói
Dos sonhos desvanecidos ao despertar

Reuniamo-nos à volta da mesa, sim
Cantávamos a lengalenga do costume
E nada disso me traz lágrimas aos olhos
Exceto ocasionalmente os que morreram
Mas nem todos os que morreram
Ou seria eu o maior de todos os mortos
E não sou

As tias, tios, primos, primas dissolveram-se
Os amigos são um continuum espaço-temporal
E eis-me no buraco negro de nós todos
Sorvendo a luz ténue das velas agora no lixo

As paredes não estão de todo descascadas
Porque os muros são uma ilusão do homem
E estou eu no centro para me aborrecer de mim apenas
Tudo o resto é ilusão e deixo o drama para outros

Vendo bem, todos os anos faço anos
Mesmo gostando de dizer que só existo
É uma pecha literária e pouco mais
Somos poucos, mas muitos são desnecessários
Vamos a um restaurante, bebemos vinho
Comemos bem, cantamos os parabéns
E, até ver, continuo a flutuar nas vagas
E navegamos normalmente até um dia

Imagem de: www.diabetesdad.org

quinta-feira, maio 15, 2014

Recordação dos oitenta


Certo dia, há uns trinta anos, incrédulo, perguntaste
(tinhas-me visto com um vinil de JJ Cale na mão):
"Mas tu curtes essa cena, meu?
Isso é o tipo de coisa que os meus velhos têm lá em casa!"
Passado pouco tempo, estavas embrulhado em heroína
E, depois (terás tido sorte relativa) ficaste um profissional.
Entretanto, o tempo passou como sempre passa,
Arma cortante e constante do universo real...
Agora que todos somos velhos
E temos o que tivermos em casa
JJ não morreu nem nunca morrerá
Nós vamos morrendo lentamente à contagem dos minutos
E os teus ídolos techno-pop estavam mortos à nascença.

Imagem de: www.independent.co.uk

sábado, março 29, 2014

Cão amarelo notívago


Passa das duas, junto da estrada, sob o céu nublado
Um cão amarelo ergue-se em vigia no tempo parado
Um abandonado que ladra, por vezes, ao carro passante
E se quiser, sem ordens de alguém, solta-se uivante

À hora tardia, o ser pensante dorme um sono perturbado
De quem segue as regras (dormir inclusive)
Sempre esteirado num leve declive
Que o acorda vago e sobressaltado

Outros fumam, bebem, conversam pela noite calada
Não sonham ainda os seus pesadelos
Que caem como granizo grosso eriçando os pelos
E não sabem também da sentinela serena na estrada

Quão mais luminosa não seria a noite (e os dias singelos)
Se mais povoada fosse de lúcidos cães amarelos!

Imagem de: www.fireflyforest.net

domingo, março 09, 2014

Os sinos da minha aldeia


Os sinos da minha aldeia
Badalam sempre a finados
Se falo na minha aldeia
Não é por querer copiar
Quem melhor soube cantar
À luz crua a mesma ideia –
Estamos apenas cruzados.
À luz crua da igreja
Com os sinos sempre a dobrarem
E os habitués a cantarem
Há a mesquinhez que sobeja
Mundo fora, para quem veja
A ignorância persistente
Quer do ateu, quer do crente.
Vivem na aldeia gigante
Afogados em certezas
Sentam-se em redor das mesas
Senhores de cada instante
Ignorantes da noção
De que um dia partirão.

Imagem de: www.romulogondim.com.br

domingo, janeiro 26, 2014

Matemática, matemática, matemática... (a Nuno Crato, dias depois de assistir a um episódio absurdo de uma série que propagandeou a doce Matemática)


A Matemática está nas flores, nas aves, nas abelhas,
Nas nuvens, nas galáxias e nos sons astrais,
Em todos os pensamentos mais fulcrais,
Nas janelas das casas e nas telhas.

A Matemática não mete medo aos miúdos
Desde que se acabaram as reguadas
E está presente nas reuniões agendadas
Que endireitam os docentes mais sisudos.

A Matemática, tal como a gramática,
Não é complicada: só complicativa.
Muda a cada dia como a ideia viva
De que é severa, mas muito simpática.

Não sei por que Jesus terá esquecido
De a mencionar nos seus Evangelhos…
Talvez porque já são um pouco velhos
E o seu fulcro se tenha perdido…

Estão aí os políticos, no entanto,
Para colmatar essa grande falha,
Cortando nas pertenças da gentalha
E multiplicando para si um outro tanto.

Imagem de: dinamizacantabria.es

domingo, dezembro 22, 2013

As rabanadas da minha mãe


Recordo-me hoje das rabanadas da minha mãe
Porque está um céu cinzento de Natal
E me recordo dos seus modos doces na velhice
E da fragilidade desfeita como o mel derretido
Ou das rabanadas sem mel com gosto a mel
E porque faço anos sem fazer anos
Hoje, copiando sem copiar o incopiável

E no universo onde se movia tudo se esboroou
Como uma broa de mel fresca que comprávamos por um escudo
Uns mortos, outros cegos, outros acabados
Todos deixaram de beber, fumar e talvez riam pouco
E eu, simultaneamente jovem e sénior à volta da mesa
Entre risos e gargalhadas de nós que nascemos mais tarde,
Recordo-me dessas rabanadas sempre frescas
Do gosto que nunca envelhecerá nalgum limbo meu
Para além do além porque é sempre mais além

segunda-feira, dezembro 16, 2013

Feliz Natal!

Com votos de Feliz Natal do Jorge...


sábado, novembro 23, 2013

Enganei-me parcialmente

A partir de 2014 os pais fumadores vão ter cadastro. Seria interessante que o governo utilizasse o dinheiro que vai roubar aos trabalhadores da Função Pública e pensionistas para, completando a atitude fascista que nunca se sabe onde terminará, colocar detetores de fumo e câmaras ocultas em todos os locais onde os potenciais fumadores-criminosos possam passar tempo, nomeadamente em suas casas. Deveria o governo, de igual modo, elaborar uma grande ficha de Excel homogeneizadora para que os hábitos tabágicos dos portugueses passassem a ser exatamente similares; para tal, os fumadores deveriam realizar reuniões de trabalho extensivas em horário pós-laboral e até, pelo menos, à meia noite, sem esquecer o material necessário para se autoflagelarem e o necessário exame a nível nacional. 
Fico satisfeito por ter mudado para os vaporizadores, vulgo "cigarros eletrónicos", há coisa de três anos e nunca mais ter pegado num cigarro. Mas não é isso que me fará sentir menos vítima do fascismo, porque todos o somos, fumadores e não fumadores, trabalhadores e não trabalhadores, cretinos e mais ajuizados.
Fico triste porque me enganei quando dei o meu apoio a este bando de gente estranha e perigosa e por ter confiado em Portas (que no Passos Coelho nunca confiei muito). Mea culpa. Isso não quer dizer que me tenha enganado relativamente ao Sócrates, para cuja lavagem este governo tanto tem contribuído - porque uma das poucas coisas dignas que me restam é a memória.

terça-feira, novembro 05, 2013

Soneto construtivista


A 10
B 10
B 10
A 10

A 10
B 10
B 10
A 10

C 10
D 10
C 10

D 10
C 10
D 10

sexta-feira, agosto 02, 2013

JJ Cale: the one that got away

Notícias extremamente tristes retiradas diretamente do site de JJ Cale:

JJ Cale Has Passed Away
JJ Cale passed away at 8:00 pm on Friday July 26
at Scripps Hospital in La Jolla, CA.
The legendary singer / songwriter had suffered a heart attack.
There are no immediate plans for services.
His history is well documented at JJCale.comrosebudus.com/cale,
and in the documentary, To Tulsa And Back.
Donations are not needed but he was a great lover of animals so, if you like,
you can remember him with a donation to your favorite local animal shelter.

quinta-feira, agosto 01, 2013

Som e visão (a David Bowie)


Há coisas misteriosas, como o som e a visão
O que me recorda algo, recorda-me uma canção
Que se me dilui na mente sem chegar a sensação
O som e a visão, a visão e mais o som
Sentir coisas relativas deve ser algo de bom
Certamente quando o todo se encaixa dentro do tom.
E o que tem tudo isso a ver com Saïdia
Onde venta junto à praia e tremula a luz do dia?
Com o aroma a chá de menta, com a fronteira guardada
Os retratos nos placards de um lado e do outro da estrada?
A medina velha de Oudja, o tempo algo sorumbático
O vestuário exótico e o comércio tão enfático?
Será que não te interrogas sobre o som e a visão
E o dia a dia sensível, perecível como o verão?

Imagem de: www.flickr.com

domingo, julho 21, 2013

Tweety pie seguro

Estou a adorar ouvir os vácuos costumeiros do Tozé Seguro na SIC Notícias. Principalmente pelo tom de voz tão grave e segura de quem se acocora totalmente perante a chantagem das personagens mais caquéticas do ninho de vespas que é o partido dito socialista...
Sempre é uma mudança face ao costumeiro discurso em que começa em tom baixo e conclui num crescendo de furar os tímpanos (indignadamente).

quarta-feira, julho 10, 2013

Tweet

Tweety pie? Comecei por pensar em algo assim e estive momentaneamente muito surpreendido. Depois pensei... Será que o PS vai arcar com o ónus de se ter recusado a contribuir para a salvação nacional? E será que a vingança contra Paulo Portas se come tão fria? E como se trata de um tweet, mais não digo...

sexta-feira, julho 05, 2013

Qual é, qual é?

Qual é, qual é, o partido político com provas dadas de causador de descalabros ao longo de 30 e mais anos cujos elementos andam, como sempre, irresponsavelmente, a aguçar as facas para tornar a crise mais afiada? Qual é o partido que aguça facas e anda augado e babado de modo mais que imoral mas não apresenta uma única proposta? Quem não se lembra do que foram seis anos desse partido e quem tem tão pouca memória que ache que estaríamos melhor se não tivéssemos corrido com eles? Qual é o partido político esclerosado e tomado pelos mais acerados interesses pessoais cujo líder, depois de um conhecido ditador, é a personagem política mais vazia de todo o nosso panorama? Serias capaz de alguma vez votar ou voltar a votar no partido do regabofe?

sexta-feira, junho 14, 2013

Navios afundados


A manhã rompe monótona, cinzenta…
Pedras da calçada lançadas pelo ar.
E quem pondera onde é que irão tombar?
Talvez nalguma alma perdida e avarenta?

A diktatur do caos do carreirismo
De frases feitas que logo degeneram
Em verões perdidos que não se recuperam
Como sóis frios e cegos no abismo…

A minha liberdade começa… e tudo o mais.
Com tanta informação concebem um zumbido
De quem na pose sabe estar tudo perdido,
Décadas como navios afundados pelos cais.

Imagem de: www.thehindu.com

domingo, maio 26, 2013

O Benfica no (segundo) lugar

Segunda vez em que falo em futebol neste blog e é para confirmar a primeira.

Não há muito a dizer. Hoje, com a derrota frente ao Vitória de Guimarães, no Jamor, em pleno coração da capital artificial, a mão de Deus parece ter confirmado que castiga os arrogantes que pensam, cedo demais, ter tudo na mão. Afinal, espalharam-se à grande num segundo em todos os planos e o pior é que não sabem perder, são arrogantes que não aprendem com a lição da arrogância...
Foi engraçado ver a cara de enterro do presidente mação do sistema e da câmara. Mas outras coisas foram bem menos engraçadas... Nomeadamente, o empurrão que o puto Cardozo deu ao treinador, numa atitude digna de um verdadeiro Luisão. Temos um Cardozão. Mas, se olharmos para trás nesses termos, diria que o Benfica colhe o que semeou. Se Jorge Jesus, apesar dos seus erros passados (mais que os presentes) tiver a coragem que um homem deve ter, Cardozo irá pagar com couro e cabelo, porque quem age dessa forma merece estar noutro lugar que certamente não num dos primeiros clubes nacionais. Triste foi também a atitude de diversos putos jogadores do Benfica que passaram por Cavaco, até ver o presidente da República, com mais uma pitada de arrogância, ignorando por completo a sua presença quando da entrega das medalhas. Estão mal onde estão... Muito dinheiro e pouca educação. Muito chuto na bola e demasiado chuto no saber estar. Quanto aos adeptos que insultavam Jesus à passagem como se fossem desabar com uma apoplexia, é a ralé - dizer o quê? Não sabemos de onde vêm nem para onde vão.
Em suma e regressando ao meu primeiro post sobre futebol, como mencionei no início: tive toda a razão e Luís Filipe Vieira demonstrou que não tem capacidade para ser um vencedor às claras. Fundamentalmente, a arrogância perdeu com língua de palmo - e disso, oh, disso gostei muito. Assim fosse no dia a dia dos buzinadores e guerreiros urbanos de trazer por casa...

domingo, maio 12, 2013

Saudade fosca


Meu pai viveu com saudade de uma aldeia inexistente
Eu tenho nostalgias breves da cidade que não era
E, quem quer que possas ser, revês líquidos bailes mascarados
Uns sonham com tempos futuros, outros com tempos passados
São sonhos vagos e foscos porque o sonho é uma esfera
E a saudade é sempre vaga como é a crença do crente

Imagem de: www.nationofchange.org

sábado, abril 13, 2013

Promessas de medos e muros

Este não é meu e sim de um amigo preocupado com o buraco e a escuridão. Acho que vale a pena ver... Promessas de medos e muros de Hernâni Carqueja:



domingo, março 24, 2013

Conchinhas do mar


Lembro-me de uma tarde toda ensolarada
Em que, ao puro acaso, sem hora marcada
Fomos ao molhe da Foz ver o mar
E do teu riso infantil a brincar
Como o sol, as ondas e a enseada
Tudo o que em ti estava a despontar

Lembro-me das conchinhas que colecionavas
De as apanhares no gélido areal
E dos cavalinhos que então jogavas
Da cumplicidade quase irracional

Agora caem gotas do céu encoberto
E penso nos momentos em que te vi
Pela primeira vez para o mundo desperto
E ao vento que passa lembro-me de ti

Imagem de: www.apartmenttherapy.com

Luísa, anda ver o mar!


Luísa, anda ver o mar!
As ondas rolando à sua vontade
Espalhando brancura longe da cidade
O tanto que dizem sem sequer falar

As profundidades assim pressentidas
Os corais pulsando como corações
Os peixes vogando sem governações
Essas liberdades nas águas movidas

À luz desse sol, à luz do luar
Tudo se reflete num redemoinho
De vida e ninguém pode estar sozinho.
Luísa, Luísa, anda ver o mar!

Imagem de: www.desicomments.com

segunda-feira, março 11, 2013

Máscara



Vi um homem careca, amparado
O rosto coberto por uma máscara farmacêutica
O passo lento, a dependência
O dia coberto por uma máscara farmacêutica
Feliz, infeliz ou sujeitado
Encoberto como o céu infindável do inverno
A máscara não permitia compreender
E é verdade que por vezes a compreensão
É um mero acessório entre a multidão de máscaras

Imagem de: minimops.wordpress.com

Sonoridades



Criei e vivi tantas sonoridades
Como se disso dependesse o universo
Imaginei, escrevi, elaborei, narrei e descrevi
Diante de academias imaginadas
Publicitei os meus produtos, fui afável
Num desafio mais a mim que à humanidade

O universo continua a mover-se por si só

As academias nomeiam quem bem entendem

Os desafios dependem de coisas inexplicáveis

A recordação do bem que fiz é vaga
Como que toldada pela atmosfera
E não há ninguém a quem culpar…

Imagem de: www.thebigidea.co.nz

quinta-feira, fevereiro 14, 2013

Abraço a Francisco José Viegas

Gostaria, ainda que muito brevemente, de não deixar passar a oportunidade de agradecer encarecidamente a Francisco José Viegas pela coragem demonstrada hoje mesmo no seu blog Origem das Espécies. Francisco José Viegas disse, passe o brasileirismo da expressão que optou por utilizar, aquilo que qualquer português com uma réstia de sangue vermelho correndo-lhe nas veias pensa mas ainda não disse. Foi pioneiro e esteve muito bem. 
Ah, foi uma delícia observar o incómodo (incómodo assassino?) do doutor Relvas ao ser-lhe pedido para comentar o comentário face às câmaras de televisão! Claro que ainda não tinha lido...
Termino acrescentando às palavras de José Viegas que o caminho por ele apontado também não estaria desadequado perante qualquer invasão domiciliária de um qualquer fiscal provavelmente demasiadamente jovem para saber o que é civilização e respiração, exigindo autocraticamente a apresentação imediata ou até ao prazo máximo de dez dias de todas as plantas (da casa, do lugar...), sendo que tal implica perda de horas do tão indispensável trabalho para obter uma treta que todas as câmaras possuem nos seus arquivos.
Desvarios. E pensar que nunca imaginei que pudesse haver pior que Durão Barroso ou Sócrates. Mas há sempre quem esteja pior, é bem verdade e nunca deixamos de aprender...

terça-feira, janeiro 29, 2013

A geração que gosta de meter medo e quem gosta de o ter

Só para que não pareça que ando distraído... Tenho cinquenta anos. É a minha geração, mais coisa, menos coisa, que está no poder. No grande poder, no poder médio, no pequeno poder... Os outros, que ainda restam algures e que, por vício político talvez, muitas vezes fazem coro com a minha geração, estão mais para o lado da reforma; logo, são, convenhamos, figuras decorativas, anciãos que se escutam com maior ou menor atenção, com respeito e com desrespeito, mas não riscam. 
E quem foi a minha geração? A minha geração, ela mesma e um pouco abaixo, um pouco acima, terá sido provavelmente a geração mais anárquica do século XX, a geração que mais se entreteve a aproveitar a liberdade, essa palavra fluída que vai mudando de significado com o marchar dos tempos. Mesmo os mais certinhos são culpados se a culpa, nome mais moderno para pecado, for algo de perfeitamente objetivo. E quem é a minha geração? É a geração que acredita na chamada "democracia forte". A geração que, perdido todo o decoro e toda a razoabilidade, acredita nas virtudes sagradas de tudo regulamentar, tudo numerar, tudo implementar, assim, de um dia para o outro, tudo ameaçar e punir porque não são do "nacional-porreirismo" - saliente-se que não se trata de algo estritamente nacional, pelo que o "nacional" é um sintoma algo deslocado e que porreiro significa simpático, amável, compreensivo. Mas não, é preciso meter tudo na ordem (e isto traz-me à mente os ex-fumadores que se alistam na legião dos anti-fumadores mais rudes) porque de ordem entendem eles. Talvez não entendam de memória. Ou de simpatia, amabilidade e compreensão. É, também, uma geração que dificilmente sabe distinguir entre o correto e o incorreto e tanto educa os filhos como se fossem crianças, como os educa como se fossem adultos e não chega a compreender que se trata de jovens em formação, cuja formação acaba por ser feita no meio deste proibicionismo (para os outros) e mão leve (para si).
Ocorreu-me - porque todos os dias assisto a isto como um tsunami em crescendo - que os mais ingénuos, aqueles a quem Cristo talvez perdoasse porque no meio da desonestidade mostram mais honestidade e menor maleabilidade melíflua manietada por todos os medos, se tramam. E que os outros sobrevivem - porque ninguém pode viver sob a cortina escura do medo que sempre começa num aparentemente lógico e razoável "a minha liberdade termina onde começa a dos outros". Sendo tantas as liberdades, claro, devem ser tantos os conflitos de liberdades que não deve sobrar o mínimo espaço para qualquer réstea de liberdade. Ocorreu-me que no crescendo vulcânico de proibicionismos e regulamentações, cada vez mais o que era normal simplesmente deixou de ser e que o que era banal passou a ser crime. E que as pessoas - lembram-se delas, as pessoas? - têm por opções serem apanhadas desprevenidas e criminalizadas de surpresa ou tornarem-se abjetas colaboracionistas. Não falo de Vale e Azevedo. Nem sequer de Alves dos Reis. Falo de todos nós, de vós todos, apanhados neste turbilhão que, até ao momento ainda não vi propriamente melhorar o que quer que seja em área alguma. Talvez porque as grandes mudanças demoram. Ou porque grande parte delas são simplesmente absurdas ou obedecem a interesses inconfessáveis. Como vós, ou muitos de entre vós, obedeceis: meramente por medo do papão.

terça-feira, janeiro 15, 2013

Terra plana



As pessoas não têm botão de desligar
E passam pela vida apressadamente
Pela lenta vida tão nervosamente
Ou sem saber bem o que pensar

Porque a vida é simples como A, B, C
Ou 1,2,3, conta-se à vontade
Do momento, quem sabe o que é verdade?
E a vida é, dia-a-dia, o que não se vê

Podemos estar sentados sobre uma lixeira
Ou vogar no sol que aquece os sentidos
Como a nau perdida dos que são esquecidos
Vogando à deriva até ao fim da terra
Onde os monstros grassam na mente que aterra
E vogar tão longe, sempre, sempre à beira

Imagem de: www.creationrevolution.com

quarta-feira, dezembro 26, 2012

Dona Canô


Com 105 anos de idade, depois de ter sido acometida por um AVC e de regresso a casa, faleceu no dia de Natal Dona Canô, a carismática mãe de Caetano Veloso e Maria Betânia. A eles, aos seus restantes filhos,  familiares e amigos, as condolências do poeta que dificilmente chegará a trilhar tão longo caminho...

segunda-feira, dezembro 24, 2012

Boas Festas


Votos de Festas Felizes para os leitores de todas as fés, não-fés e meias-fés. 
Que no meio dos embrulhos ainda resistentes, das rabanadas e outros antídotos da amargura, assim como do vinho que dá de comer a um milhão de portugueses enquanto não o proibirem, saibamos esquecer momentaneamente as diferenças e perdoar às nossas classes dirigentes de ontem, hoje e amanhã porque não têm a mínima noção real do que fazem.

Imagem de: www.bakelovenotwar.co.za. 


sexta-feira, dezembro 14, 2012

Cão à chuva



Chovem  gatos, cães e o gelo dos infernos
Alagando as ruas e os motores depauperados
Sente-se na espinha dias lentos e gelados
E é como se num só se cosessem mil invernos

Triste escuridão que preenche o tempo inteiro
De poças obliteradas e falhas de iluminação
Enquanto em ruas fechadas se vai repetindo o padrão:
Gatos, cães, gelo e folhas cobrindo um bueiro

E eis que passas tu, pingando o tempo letal
Escorrendo do pelo ralo a vida que te atropela
Quase que não me notas, talvez desejes a trela
Com o teu olhar canino de abandono universal 

Imagem de: http://www.sun-sentinel.com

quarta-feira, novembro 21, 2012

Infância


É tocante a idade inexistente
Para quem a observa imaginando ver
O que um dia é para não mais ser
Não sendo tocado por olhar em frente

O ter um prato que é o preferido
O ver um objeto e achá-lo fascinante
O achar desejos, pensar o instante
Sem saber que um dia tudo é esquecido

Ter memória curta de luzinhas feita
Como as que enfeitam os Natais distantes
Todos os momentos novos, diletantes
Como paraísos sem deuses à espreita

Imagem de: www.dailymail.co.uk. 

quinta-feira, novembro 01, 2012

Todos os santos



Se se soltar uma pomba branca
Nos céus ensombrados do dia dos mortos
E uma criança de espírito aventureiro
E mente por escrever e reescrever
Usar uma espingarda de chumbinhos
Ou uma mera fisga
Dura no calhau, líquida no pensamento
Ou na ausência da estrutura socializada
Do pensamento que ensombra o dia
A criança é um deus enquanto dura
Depois liquefaz-se e diminui-se
Cresce até se tornar anã
E se a pomba branca não tinha culpa alguma
A criança não tinha também culpa alguma
E ninguém a tem ou todos a têm
E por isso se vêm punidos com a sombra do universo
Antes de se diluir na líquida movimentação
Dos visitantes dos cemitérios que nas suas lápides
Mantêm as diferenças dos anos decorridos
Sem que isso lhes importe, à criança ou ao universo

Imagem de: noticias.pt.msn.com . 
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