Quarta-feira, Março 07, 2012

Vento


O vento incolor na flexibilidade
No moldar de um tempo sem qualquer idade
Soando na mente como a eternidade
Repetindo em rimas e em sonoridade
O vento, o tempo, a eletricidade
No campo, no mar, por toda a cidade
Minúsculo e gigante, calmo e irrequieto
O vento repleto de tudos e nadas
A mais invisível de todas as estradas
O vento que pasma os próprios fotões
O mais inefável entre os turbilhões


Imagem de: www. themebin.com. 

Terça-feira, Fevereiro 14, 2012

Rochas


As rochas são bisavós, trisavós do universo
O fogo, o gelo, o vazio, tudo rochas deslocantes
Altas, pensativas, discretas e silenciosas
As rochas que se movem só ao ritmo das Idades
Esses seres inanimados face à lógica dos homens
Que as cortam, as partem e explodem, que as tratam como rochas
Discretas como essas cores que variam sem se ver
As rochas são a essência da existência e do ser
Mais lentas que o universo, o próprio estoicismo no verso

Imagem de: www.vulgare.net

Quarta-feira, Janeiro 04, 2012

Plantas


Em plumagens multicoloridas, quentes, frescas
Ascendendo sempre aonde o sol rodar
Devem, certamente, ser intensamente antigas
Mais que o próprio sol na criação dos mitos;
Elas, espalhando materialidade e o etéreo
Dominando a vida e os ritmos construtores
No silêncio restolhado do planeta
Budas sobre o Buda e sobre o jade
A inteira preciosidade pouco apercebida
Ondulando antes das ondas e das nuvens
Conjugando tudo o que é primordial
No início, meio, fim, na mente...


Imagem de: www.byronjorjorian.com. 

Sexta-feira, Dezembro 23, 2011

Boas Festas


A todos, os meus votos de Boas Festas e o desejo de que 2012 se não faça sentir nos seus aspetos mais negros. A poesia não está morta, nunca morre: está apenas a hibernar ao de leve como a neve que não cai...

Domingo, Novembro 27, 2011

ai o tempo da bolacha araruta



Ai, o tempo da bolacha araruta!...
Os velhos, serenos, serões de província,
Os bons costumes, tirar o chapéu,
O ar tão puro, verde, florestal,
Os bonecos dos gelados e o que mais…
A Lei: mais física, menos financeira,
E os meninos sujos e descalços,
Ariscos e alegres garotos da rua,
Comendo um tubérculo em água fervida,
Olhando as estrelas por singelos tetos,
Passavam como os vultos passam – num espaço lateral.
E o espaço e o espaço-tempo
E todas as dimensões a cru numa só
Que é a diluição do encenador
Que é sempre o mesmo, muda a iluminação
Como o sol, sempre oito minutos passados
No tempo araruto, redondo e inexistente…

Imagem de: www.gourmet-at-home.com. 

Domingo, Novembro 20, 2011

O mosquito


Enquanto procuro ler Somerset Maugham
No esparso lapso da chuva densa
Com raios de sol entre nuvens vagas
E vagas de nuvens em Toledo e a lua
De El Greco, os casarios, a rua,
Um minucioso mosquito meneia
O ínfimo esvoaçar entre os conjuntos de letras
Sobre a capa e sobre os meus pensamentos.
Enxoto-o piamente e o mosquito não desiste –
É um mosquito ativo, sei lá se alegre, se triste
Que eu só quero que me deixe e ao fraseado longo
E o mosquito nunca para, o pequeno ser oblongo…
Tanta preocupação em poupar aquele ser!
E no entanto, no entanto, certo como factual
Sem El Greco em descrição, isento do bem e do mal
Sei que não hesitaria um instante em me comer.

Imagem de: www.sumateologica.wordpress.com (A Última Ceia, de El Greco).

Quarta-feira, Novembro 09, 2011

Chuva nossa de cada dia


A chuva cai como maná do agnosticismo
Na meteorologia diária e sem idade
A chuva rega o campo e a cidade
Leve nos corpos, com um toque de erotismo

Leva ou levaria as poeiras da maldade
Se assim fossem as poeiras materiais
Santas milagreiras face aos vis metais
Que temos nos altares da sociedade

E fria, embora, a chuva é invisível
Como o maná e a levitação
O transformar da água e a multiplicação
No mundo hipócrita, medroso e insensível

Algo nos cai assim sobre as cabeças
Tão banal já que nada milagroso
Liquefações do tempo misterioso
Num puzzle a que faltam muitas peças

Imagem de: http://www.telegraph.co.uk. 

Terça-feira, Novembro 01, 2011

Dia dos mortos


I

Uma mosca pousada sobre um espelho
Admira a beleza das suas asas e olhos vários
Ou não admira nada pois não pode
Nem sabe nada, se é nova, se é velha
E a velhice é tão subjetiva numa mosca
Que esbelta figura, que patas admiráveis
Pensaria a mosca se pensasse e descansasse
Se girasse lentamente neste mundo
E o melhor é um mata-moscas dos chineses
E um limpa-vidros no reflexo morto

II

Às portas dos cemitérios pejados
No Dia dos Mortos, entre flores e velas
Surgem sempre alguns pedintes rotos
Que só conhecem auto-lágrimas perdidas
E ignoram todas as memórias
Entre histórias contorcidas
Têm sempre famílias vastas para sustentar
E a ausência é, para eles, imediata
Sem jazigos brancos, por vezes esquecidos
Desconhecem mesmo a arte de falar
E redigem, por isso, lamúrias em pobre português

III

Havemos de viver no paraíso
Havemos de viver no paraíso
Havemos de viver no paraíso
We shall live again
No mantra de um tempo criativo
No mantra de um xamã repetitivo
No mantra de um sorriso ainda vivo
Seja vivo o que for ou o paraíso

Imagem de: www.taishimizu.com.

Terça-feira, Outubro 25, 2011

Vítor Gaspar: uma abelhinha plena de mel


Vítor Gaspar, primo de Francisco Louçã, é uma abelhinha trabalhadora, carregadinha de mel que, na suavidade inabitual do seu zumbir, quase nos convence. Temo, no entanto, que Vítor Gaspar acredite,  acredite convictamente, que o caminho para transformar Portugal num país mais rico (ou menos pobre; ou menos "remediado", como se dizia) será empobrecendo os portugueses por intermédio de uma escalada descendente (?) na curva salarial. Erro grave de julgamento. Quase louçanesco. Ninguém vai produzir mais ou melhor por uma recompensa cada vez menor. Ou então, só à força do chicote - e mal. Sempre mal. Como a confusão, tão nacional, entre horas de prisão e eficácia que perpassa na ideia de os trabalhadores gastarem mais meia hora diária na sua empresa em nome da competitividade. Ou a ideia tantas vezes rebatida e agora basicamente conseguida de cortar nos malditos feriados (e nas pontes, sendo que eu, enquanto professor, há muitos e muitos anos que só conheço pontes rodoviárias, ferroviárias e pedestres). Mas alguém acredita que uma empresa vai produzir coisas que não poderá escoar ou que se faz melhor em mais tempo necessariamente? É La Palice muito pura e simplesmente.
Ainda ontem escutei o professor Medina Carreira (geralmente Velho do Restelo, Cassandra, ave de mau agouro, etc., etc.) considerar otimisticamente que não deveremos voltar a saber o que é um subsídio de férias ou de Natal antes de 2020-2025. O pior é que eu acredito no professor!
O pior também, é vermos Paulo Portas, irmão de Miguel Portas e o possível peso equilibrante da balança, ufanadíssimo em missões diplomáticas a que reconheço potencial valor mas que, no que toca ao burgo diretamente, pouca diferença farão... Paulo Portas com a sua pose de homem de Estado. Por onde anda Portas quando precisamos que, muito para além do discurso, coloque algum senso de equilíbrio nas mentes zumbideiras deste PSD?

Quarta-feira, Outubro 19, 2011

Se...


Se eu parar de escrever sobre buracos
E sobre a escuridão gigante e o dia a dia
E o que fica além do dia a dia
E aquém do que inconvém e do que farta
Se escrever sobre aves, árvores, céus azuis
Promessas e jardins com fontanários
Num tempo que existiu na aparência
E o sol sempre no topo e não se abafa
Não sobre buracos, mas bancos dos jardins
Porque cansa, farta, enfarta como uma dispepsia
Porque enerva como a buzina no sinal
Se eu parar de escrever coisas engajadas
Eu que tanto escrevo sobre aves, árvores, céus
(mas urge entender cada significado,
as aves, árvores, céus, o próprio autor, a dita depressão,
no empirismo do exercício psicológico?)
Se eu aderir a uma sociedade em aparência
E à sociedade e a um partido e a uma associação
Se me movimentar como um coelho corredor
E brincar apenas com os buracos na poesia
Que cansa, farta, enfarta como uma dispepsia
Poder-vos-ei, enfim, agradecer o aplauso
E discorrer sobre o negrume nos ecrãs?

Imagem de: www.dailyholiday.yakohl.com. 

Domingo, Outubro 16, 2011

Luxo, lixo, céu, inferno...


Há, neste mundo, ruas apertadas
Escuras, fétidas, sórdidas, fechadas
E recicladores de lixo imundo
À vista mas tão longe, mas tão fundo
Que turista algum jamais os vê
(salvo em reportagens da TV).
Certo dia, um desses miseráveis,
Na sua indumentária suja e reprovável
Feita de uma traparia inominável,
Rouba a vida a um desses colunáveis.
A polícia chega e impõe-lhe feridas.
O louco! Todas autoinflingidas...
E ei-lo, muito em breve, pendurado,
Um presunto esquecido e enterrado.
Os jornais, telejornais, contam a história
No seu modo tão breve e sem memória
E as pessoas comentam: "Certamente
Um está no céu, o outro num inferno intermitente".
Bom, não serei eu a duvidar...
O inferno existe e é para se calar.

Imagem de: www.ilo.org. 

Será que ouvi bem?


Será que ouvi bem quando Pedro Passos Coelho justificou a perda total dos subsídios exclusivamente por parte dos funcionários públicos com o facto de que cobrar aos privados o dinheiro que era dos empresários não afetaria a despesa do Estado?
Numa perspetiva mais política, no sentido mais maquiavélico, poderia, perante o absurdo da justificação, crer que a ideia consistiria eventualmente em forçar uma perda de produtividade no lado da função pública de modo a angariar apoios gerais para um aliviar cego e em massa dos trabalhadores que, regra geral, são referidos por números. E gostaria muito de ser desmentido...

Quinta-feira, Outubro 13, 2011

A grande explosão implosiva portuguesa


Quem acredita na existência desta Europa e deste euro divididos, fora do federalismo?
Quem acredita que Portugal vai evoluir com os cortes dos subsídios de férias e de Natal especificamente para os funcionários públicos, num corte total de cerca de 20% em apenas dois anos? Onde está a grande coragem de promover o esforço por igual e o que acarreta isso de crescimento?
Quem acredita que Portugal vai crescer com a subida do IVA largamente para 23%?
Quem acredita que as empresas vão crescer e exportar por os seus trabalhadores terem um acréscimo de meia hora diária nos seus horários de trabalho?
Quem acredita que o corte de uns quantos feriados (e pontes; falam sempre como se na Função Pública houvesse pontes... Vão proibir as empresas que o desejarem de fazer as pontes que quiserem?) vão conduzir os trabalhadores a trabalhar com vontade e Portugal a progredir?
Quem acredita que alguém genuinamente vai ter vontade de dar o seu máximo para um futuro incerto e sem promessas a prazo desconhecido?
Quem conhece efetivamente medidas destinadas a melhorar a economia e a repor o (fraco) poder de compra dos portugueses?
Quem acredita nos partidos da esquerda com as suas miragens de tempos utópicos ou nos partidos de direita, desorientados face ao contrato que, liderados pelo PS, assinaram com quem lucra com a nossa dívida?
Quem acredita que não há e continua a não haver culpados dos buracos que temos de tapar, como presos em trabalhos forçados, diariamente?
Quem acredita que o principal responsável, aquele que alguns justificativamente afirmam que acreditava no que fazia (como Hitler, como Mussolini, como Salazar, como Franco, como Staline, como Átila, como...), não está de férias no estrangeiro, rindo-se a bom rir da desgraça sem fim à vista daqueles a quem chamava "os portugueses"?
Quem ainda acredita em alguém com energia positiva e construtiva?
Tu, por exemplo tu, ainda acreditas?

Sexta-feira, Setembro 30, 2011

Tempo, nirvana e ponderações


Gostaria de ponderar não ponderar...
Tantas vidas para trás...
Tantas vidas para diante...
Tantos nirvanas adiados
Para algum tempo distante
Em espaço-tempos curvados
E o tempo circular...

Diz-me um médico inventado:
"Parece-me nervoso, turbulento..."
É ele já desesperado
Pelo dia que crê muito lento...

Imagem de: www.thypolarlife.wordpress.com. 

Sábado, Setembro 24, 2011

Deixem as metáforas dormir


Deixem os pássaros voar
As águas fluir ou estagnar
As oliveiras com folhas normais
E o vento ser ar, nada mais

Saibam que as metáforas são plásticas
Meditem numa espécie de oriente
Esvaziem o mundo e a mente
Sejam somente, somente...

Esqueçam os usuais simbolismos
(vícios académicos perniciosos
vocábulos confusos, ansiosos)
E curem assim as maleitas
As dores todas contrafeitas
No cemitério dos silogismos

Imagem de: www.bodysoulmindspirit.com.

Segunda-feira, Setembro 12, 2011

Não é efetivamente outono ainda


Não é efetivamente outono ainda
Com o sol em ricochete na esplanada
O vapor do café sumido em nada
E o tempo que discorre e não se finda

Não há folhas caídas pelo chão
Nem a melancolia vaga da luz fria
Nem o vento do norte que anuncia
Os meses arrastados da hibernação

E se há no meu país uma dormência
Que flui como uma sina, uma cadência
Um fado, uma canção de decadência

Não é porque haja um outono efetivo
Mas sim por um espírito reativo
Se tanto é morto antes de ser vivo

Imagem de: www.experimentgarden.com.

Domingo, Setembro 04, 2011

Pomba na berma da estrada


Vi uma pomba pousada
Sozinha na berma da estrada
Sob o sol frio do dia
Sol que quase não existia
E avaliava a passagem
Do tempo como uma imagem
Num cinema sem memória
Uma viagem irrisória
Ou não avaliava nada
Porque não simbolizava
Nem paz, nem guerra calada
A pomba que não voava
Limitando-se a existir
A comer e a dormir
A pomba que hoje vi
A pomba que já esqueci

Imagem de: www.freestockphotos.biz (fotografia de Benjamin Miller).

Sábado, Setembro 03, 2011

Desacordo em dó menor


Para os para raios para descansar
Não veem que leem lapis no luar
Como um arco iris todo a despencar
Sob o céu agreste não hão de acordar
A treva atual no acordo a atuar

Imagem de: http://carissimascatrevagens.blogspot.com/. 

Sábado, Agosto 20, 2011

Que sentes?


Que sentes quando tocas a minha alma
E a encontras ora intensa, ora calma
Ou imersa nos seus próprios universos
Em sons, imagens, cheiros, versos?

Não vês que mais do que ilhéus isolados
Somos vastos continentes que se tocam
Em movimentações e vulcões que se deslocam
E em palpitações de mundos primitivos
Tão vivos, sempre tão apaixonados?


Imagem de: www.wallpaperstock.net/. 

Caminho


Mais do que lograr qualquer vitória
Sobressai o caminho da existência
Construído de luta e de inocência
Na casa onde se esvai toda a memória

E um dia, o poderoso e o desgraçado
Sem culpa, nem multa, nem prisão
Sem pecado algum, tocar-se-ão
E diluir-se-ão naturalmente lado a lado

Imagem de: http://thegreatloanblog.blogspot.com/. 

Domingo, Julho 31, 2011

Os Loucos de Deus


Por montes e vales e mares de sargaços
Postos em altares, feitos em estilhaços
Enfrentando os ventos em ermidas frias
Sós e enregelados por estradas vazias

Percorrendo espaços de imobilidades
Desertos adentro nas próprias cidades
Onde quer que existam, sempre tão distantes
Dos fluxos do tempo e dos seus semelhantes

Os Loucos de Deus pairam sobre o mundo
Sobre os que se movem no fundo do fundo
Escravos de si mesmos para a eternidade
Pelo lusco-fusco da auto-verdade

Imagem de:www.mesgrainsdesel.canalblog.com/.

DISCLAIMER: O autor do poema agradece a utilização da imagem, a qual considerou apropriada e expressiva. Tal não significa que trave algum tipo de luta religiosa e/ou se reveja na fonte da mesma, sendo que os poemas falam por si mesmos e as imagens servem apenas como auxiliares ilustrativos.

Quarta-feira, Julho 20, 2011

Tela mexicana


Eis Tenochtitlán, mero nome na memória vagueante
E Tulum, a cidadela à beira-mar
As iguanas e a sombra do jaguar
Todo o passado transformado num resort mutante

Tudo se vende em línguas vagas de Babel
As coronas dos subjugadores esquecidos
Os pesos dos escravos subvertidos
E o céu imenso, cor de azul-pastel

Escutam-se as aves, o resfolhado dos coqueiros
O saltitar tão minucioso nos relvados
E as borboletas nos seus bandos delicados
E ainda os jogos distantes dos bandoleiros

E tu aí, defronte a mim, o livro aberto
És mais que o México, és o que calcorreamos
Nos montes, vales, florestas que inventamos
O exotismo e a velha Europa, um porto certo


Imagem: Índios Maias em Tulum.

Quinta-feira, Junho 30, 2011

Aos que se declaram "chocados" com o corte no subsídio de Natal

Uma pequena cantiga de escárnio moderna para os falsos chocados deste país. Tendo em conta a terra de ninguém em que nos transformaram com tantos anos de políticas ditas "sociais", aplaudo esta medida que, por uma vez, tão justamente pede o esforço de todos os portugueses e não apenas dos suspeitos do costume. Temporária se todos a quisermos e soubermos fazer temporária, trata-se de uma medida corajosa e de visão - contrariamente aos cortes habituais, facilitistas, de morte progressiva, certamente cobardes, destinados apenas a alguns.
Se me é permitido, sugiro, de igual modo, a criação mais que célere de um tribunal alargado destinado apenas a solucionar o cancro que, como tantos bem sabem, tem sido o conjunto enorme das empresas incompetentes e causadoras de uma terrível bola de neve de não pagamentos por produtos recebidos ou serviços prestados. Mortal para as empresas cumpridoras, para os seus funcionários, para a economia em geral e, numa palavra, para todos.


Chocado vai pelos montes
Por silvados e tojais
Espalhados pelos seus iguais
Que nos secaram as fontes

Mentiroso e tão seguro
Falso iludido, iludindo
Os poucos que o vão ouvindo
Finge existir no futuro

Inseguro e tão igual
Repete os gestos cansados
Dos que foram convidados
A fugir de Portugal

Chocado e tão humanista
Quer ser um malabarista
Que já poucos aguentam
Entre as bombas que rebentam
E entre os mações arrivistas
Nas chamas que lhe ardem nas vistas

Imagem de: http://dreamworldenigma.blogspot.com/

Sexta-feira, Junho 24, 2011

Lançamento de 13 Ideias Politicamente Incorrectas sobre a Droga


13 Ideias Politicamente Incorrectas sobre a Droga é o novo trabalho do psiquiatra Hernâni Carqueja, publicado pela Chiado Editora, com lançamento agendado para 2 de Julho, pelas 18 horas. O local será a Livraria-Bar Les Enfants Terribles, sita no número 1 da Rua Bulhão Pato, em Lisboa, ao lado do Teatro Maria Matos e junto à Avenida de Roma.
Trata-se de um inovador ensaio, escrito de modo informal, que utiliza o problema da toxicodependência para abordar questões tão importantes como a relação do homem com a natureza, a genética, a evolução, o poder, o arbítrio e a saúde mental, deixando um conjunto de interrogações sobre o modo como a saúde é vivenciada nas sociedades modernas.
Trata-se de um trabalho de fôlego - senão na dimensão volumosa, na qualidade e originalidade do tratamento dos temas abordados - que já li. Gostei e aconselho vivamente.

Quinta-feira, Junho 23, 2011

Élégie


Nos idos de setecentos, já desfeitos
Na França bela, embora decadente
O povo ignaro vivia descontente
E os nobres, loucos, sorriam satisfeitos

Faliam o país com construções
Distantes das ruas lamacentas
E apagavam as nuvens pardacentas
Com o sol de festas, de celebrações

Faliam o país com corrupções
Jogando às máscaras entre tantos vícios
Enchendo os céus de fogos e artifícios
E as ruelas de duras escuridões

Mas, súbito, as estátuas ruíram
E todos os Júpiteres tremeram
E as Vénus recolheram-se, gemeram
Quando os gritos revoltosos se ouviram

Com a Bastilha inteira anarquizada
Pela turba fortemente enraivecida
Clamando pelo sangue e pela vida
Dos sugadores, a turba esfomeada

Criou-se, então, um instrumento novo
De lâmina acerada em queda funda
Lançando o sangue espesso à terra imunda
Da nobreza infame e até do povo

Todos eles repousam, hoje em dia
Em vastos mausoléus de mármore frio
Ou em valas comuns e no vazio
Que o tempo repete e a história cria

E nos livros lê-se sobre as ditaduras
Com o distanciamento do turista
Que somos todos nós no tempo autista
Sorrindo entre paredes e esculturas

Imagem de: www.providingnews.com.

Quarta-feira, Junho 22, 2011

A ministra na FLAD no Tribunal


A ministra da Educação do governo Sócrates, talvez antiga anarquista de acordo com inúmeras fontes, que, com os seus secretários de Estado Valter Lemos e Jorge Pedreira, procurou levar a cabo a destruição do ensino público português, projecto inserido no incompreensível mas visibilíssimo plano do ex-primeiro para dominar através do medo e da inveja, está a ser acusada pelo Ministério Público por uma adjudicação, em 2005 e 2007, pelo ME, de um conjunto de trabalhos no valor de 266 mil euros que, ao que parece, terão sido pagos na íntegra apesar de apenas uma parcela dos mesmos ter visto a luz do dia. Mas há muita gente que se preocupa por o novo ministro da Educação, Nuno Crato, "ter uma política educativa de há cem anos atrás". Preocupante? Porque a memória é curta e esquivando-me ao mal estar propositadamente instalado nas escolas e entre escolas e direcções e entre escolas e encarregados de educação e entre professores e outros professores e entre professores e alunos e por aí fora, limitar-me-ei a recordar alguns casos emblemáticos do consulado de Maria de Lurdes Rodrigues ao serviço de José Sócrates e do PS...
O caso do professor Fernando Charrua - porque, em conversa particular na DREN da educadora de infância Margarida Moreira, terá lançado uma piada acerca das habilitações do então primeiro-ministro, foi despedido, tendo-lhe sido instaurado um processo disciplinar por falta ao "dever de lealdade".
O caso dos professores nas Juntas Médicas de Sócrates - Em Junho de 2007, uma professora da EB 2,3 de Cacia, em Aveiro, atacada de leucemia, viu negada a sua aposentação e foi obrigada a regressar às aulas. Em Setembro de 2007, uma professora da EB 1 de Regedoura com cancro da mama, útero e língua, viu negada a sua reforma antecipada, tendo sido forçada a regressar às aulas.
O caso do professor de música assassinado - em Fevereiro de 2010, já no rescaldo das políticas seguidas, um professor de música de 51 anos, a leccionar na EB 2,3 de Fitares, em Rio de Mouro, Sintra, lançou-se ao Tejo e faleceu, depois de um ano em que era insultado por alunos em plena escola, na sala de aula e nos corredores, sendo que testemunhas referiram que lhe chamavam "cão" e lhe davam "caduços" na nuca. A direcção nada fez. O ME considerou o caso "urgente", mas não agiu.
A todos os que não se recordarem exactamente de como os professores eram, por tantos, considerados "o cancro" do país, o que parece relacionar-se triste e directamente com casos atrás referidos, a todos os que não conseguem entender por que razão Portugal (e com ele a educação) chegou onde chegou, a todos os que têm medo da "direita" e do ministro "ultra-liberal, taliban e passadista", dedico esta pequena elegia...


Imagem de:http://clarices.bichocarpinteiro.blogspot.com/. 

Sexta-feira, Junho 17, 2011

Aves de Junho


Tempo de Junho, quase invisível
Com o céu espesso, cerrado a ferrolho
Quer para santos, quer para pecadores
Se não se escutam quaisquer estertores
Tudo sereno, tudo de molho
E, à superfície, nada há de sensível

Graças aos céus, canta o passaredo
No seu dia-a-dia pleno, natural
Que se escuta inteiro e ilumina a vida
Tornando mais clara a manhã comprida
Entre o casario quase escultural
O tão informal cântico sem medo

Imagem de: www.portuguesbrasileiro.istockphoto.com. 

Quinta-feira, Junho 09, 2011

Portugal acordou de cara lavada (final)


Cara lavada e não sorri... Porque será?
Uns continuam sempre iguais e silenciosos
Outros deliram sob focos luminosos
Outros ainda são petardos furiosos
De tanto se viver ao Deus-dará.

Portugal gatinha ainda, inseguro,
Enquanto do outro lado do oceano
Se abriga o corrupto desumano
Como em setenta e quatro, mano a mano...
Que sambe muito, longe do futuro!


Imagem de:www.stockphotos.it. 

Quarta-feira, Junho 08, 2011

Portugal acordou de cara lavada 4


Gostaria, igualmente, de deixar uma pequena mensagem aos partidos da esquerda chic e não-chic (apelidados pelo PS de Sócrates como de "extrema-esquerda" - o que, se bem me recordo, se costumava aplicar a grupos como a OCMLP, a FEC (ML), a UDP, o POUS, o MRPP que ainda por aí anda, o MES e tantos mais - tal como tudo o que venha à suposta direita do PS consiste em "perigosos aventureiros neoliberais e destruidores do Estado Social europeu")...
A Jerónimo de Sousa, quero deixar-lhe a minha simpatia pela honestidade e verdade bem patentes, pedindo-lhe, no entanto, que intervenha apenas em caso de real necessidade, não contribuindo por razões puramente ideológicas como força de bloqueio a um Portugal em que, a prazo, andemos todos menos na corda bamba.
A Francisco Louçã, o director ou gerente ou coordenador, nem me recordo exactamente, do BE, com quem, confesso, nunca simpatizei, tal como nunca entendi como tantos dos meus conhecidos simpatizaram, peço-lhe coisas talvez impossíveis, mas peço-as, ainda assim... Peço-lhe, antes de mais, que procure perder aquele intenso fogo lenínico do olhar que, entre outras coisas, lhe rendeu uma forte quebra nestas eleições. Peço-lhe que pondere, ocasionalmente pelo menos, como se deveria comportar e que políticas efectivamente teria que adoptar, se não se colocasse na posição do eterno descontente e, em vez disso, por algum milagre, se encontrasse face a face com o poder. O que diria Louçã ao poder e aos portugueses numa situação aquém ou além do palco? Finalmente, o meu pedido mais complicado: peço a Louçã que pare de mentir descaradamente. A minha principal razão para não gostar de Louçã é que, de cada vez que o vi pronunciar-se sobre algo de que eu realmente entendia, me pareceu que estava a falar de um universo alternativo, ou seja, como popularmente se diz, a "virar o bico ao prego". E querer taxar tudo e todos, ele que tem fama de ser um tão brilhante economista, é como voltar a 1975 e deixar de ter publicidade na TV, pelo simples facto de não haver empresas a laborar. Como querer taxar os jogos online, os quais se encontram sediados algures noutra parte do mundo... Qual seria a proposta de Louçã? Invadir as ilhas Caimão e exigir a nossa quota-parte de impostos?

Imagem de:http://g1.globo.com.

Terça-feira, Junho 07, 2011

Portugal acordou de cara lavada 3


Temos, agora, pela frente, anos de mudanças revolucionárias que não chamaria ideais e sim forçosas. Outra opção seria a nossa albanização.
Gostei das declarações extremamente responsáveis de Passos Coelho e Paulo Portas, os futuros primeiros-ministros de Portugal. Gostei, mais que da histeria habitual das hostes de arcanjos negros socialistas, do tom realista das palavras, das expressões, do não embandeirar em arco num momento em que apenas um louco - sabemos quem - o faria, da esperança num futuro se todos formos capazes do trabalho, honestidade e atitude positiva que tanto e há tanto têm vindo a faltar.
Há duas mensagens que, também eu, gostaria muito de deixar. Uma para Passos Coelho e outra para Paulo Portas.
Ao primeiro digo que, não se esgueirando da imagem de honestidade que quis transmitir, se consiga livrar da máquina pesada e contraditória do seu partido. Recordo-lhe ainda que é mais que provável que tenha recebido um bom número de votos que legitimamente caberiam ao CDS PP e que não o deve esquecer. Ao segundo que, não se esgueirando da imagem de honestidade que quis transmitir, deixe campo livre a muitos e extremamente competentes parceiros de partido para que efectivamente participem, colaborativamente, no futuro de Portugal - digo-o, tendo perfeitamente em conta que Portas é efectivamente um líder de gabarito e que há no seu partido um verdadeiro trabalho de casa sempre bem feito e em boa colaboração. Enfim, ainda para Portas, o meu pedido pessoal de que não se deixe envolver num tipo de papel sisudo e secundarizado que não é naturalmente o seu e que aceitou no nada saudoso governo do anafado Durão Barroso, o sempre presente representante de uma Europa que deveria existir em lugar de brincar ao faz-de-conta. (a continuar)


Imagem de:http://g1.globo.com. 

Segunda-feira, Junho 06, 2011

Portugal acordou de cara lavada 2


O melhor discurso da noite foi o de José Sócrates, sensível, comovido, emotivo, quase afogado no ensurdecedor mar de lágrimas e despeito quase religioso de inúmeros apóstolos. Para variar, com talvez alguma dose de realidade, o antigo primeiro-ministro afirmou despedir-se da actividade política para, por exemplo, se dedicar aos filhos - e quem se lembra de perguntar que género de relacionamento tem com os filhos que em cada momento menciona? Mas José Sócrates deveria ganhar um Óscar por mais esta excelente actuação! Primeiramente, porque vai de férias (como creio que de há tempos para cá planeava fazer) enquanto outros têm que fazer o trabalho sujo que ele mesmo preparou. De seguida, todos sabemos bem porquê... Seria interessante e extremamente moralizador em tempos de crise grave, ver José Sócrates e os seus imensos exércitos de prosélitos nomeados para incontáveis cargos de "confiança política", rejeitarem coisas como subsídios de reinserção/reintegração, grandes reformas antes do tempo, compensações monetárias por trabalhos mal realizados e que como tal foram agora sufragados, cargos importantes para quem se revelou incompetente e prepotente... Seria sério, correcto, moral e de acordo com tanta seriedade a que assistimos em mais um discurso, aquele que parecia nunca mais chegar. Mas quem sofre ainda tanto de ingenuidade que acredite sequer na possibilidade de um tal desfecho? Melhor, de um verdadeiro e muito mais saudável recomeço em Portugal? (a continuar)

Imagem de:http://g1.globo.com.

Portugal acordou de cara lavada


Dada a hora e o cansaço, venho apenas saudar o fim do mais maquiavélico consulado de destruição - de Portugal, das mentes portuguesas e do próprio PS - que o nosso país alguma vez conheceu. No decurso destes seis anos e ainda durante demasiado tempo, de cada vez que me insurgia contra o que sentia, intuía, raciocinava e presenciava, era apelidado de exagerado e catalogado de corporativista. Por fim, Portugal acordou. Demasiadamente tarde, é certo. Mas nenhuma ditadura dura para sempre e alguns bem podem erguer as mãos aos céus pelos nossos brandos costumes... (a continuar)

Imagem de: http://g1.globo.com. 

Quinta-feira, Maio 26, 2011

Xamãs dos infernos (a Nietzsche, Katzantzakis e todos os excomungados)


O sol brilha em raios cubistas, multifacetados
Em universos paralelos e tão afastados
Que não pensam sequer nada de concreto
Como a tela dura e o ar tão circunspecto
Dos que avançam sorrateiros num mundo sombrio
Onde vemos luz no espaço vazio
Porque assim nos dizem, que é belo e perfeito
“Cerrem o olhar, sintam-no no peito”
(como se do peito brotassem pensamentos
e mentem descaradamente a todos os ventos)
Os padres, xamãs e politiqueiros
Tudo a mesma corja de vis caloteiros
Que espalham o medo para ganhar poder
E propagandeiam um estranho viver
Onde há que expiar o inentendível
Pela recompensa que nunca é possível
Porque todos eles, loucos, mentirosos
Homens-medicina sempre sequiosos
Prometem o abstracto que os faz poderosos

Imagem de:http://www.consumerwarningnetwork.com.

Quinta-feira, Maio 19, 2011

Cantiga e refrão


As nuvens no ar
A brisa a passar
As aves no chão
Debicando o grão

E a atmosfera cobre-se de salvadores
Líderes convictos de bem liderarem
E eu adormeço com eles a falarem
Os democratas e os ditadores

As nuvens no ar
A brisa a passar
As aves no chão
Debicando o grão

E a atmosfera enche-se de vazios
Como obras públicas tão mal acabadas
E eu adormeço com as suas estradas
Se entram ou saem, movidos por fios

As nuvens no ar
A brisa a passar
As aves no chão
Debicando o grão

E na atmosfera tudo é rarefeito
Quem fala e quem cala o bem e o mal
Palavras que tombam sobre Portugal
Como chuva, sol, granizo desfeito


Imagem de: www.teclasap.com.br. 

Domingo, Maio 08, 2011

Revelação


Revoadas de sons, asas de desgraça
TV da manhã, rádio musical
Passos percutidos no chão matinal
Que jamais acorda, como a populaça

E está tudo igual na televisão
Parece mentira tamanha façanha
O primeiro de uns quantos e uma estátua estranha
Num ninho de cucos preso a um avião

Quinta-feira, Abril 28, 2011

Quase Primeiro de Maio


Os trabalhadores sairão às ruas no Primeiro de Maio
E os não-trabalhadores e os patrões esforçados e os preguiçosos e os ladrões
E os éticos e os heréticos e os restantes, tantos
Todos nas ruas, fora delas e além delas
No dia que recorda algum evento diluído
Eu mesmo diluído porque não recordo tudo
Tudo vago, relativo, passado automático
Num Presente vago, decadente e electrónico
Que me explicará a data com um só clique na Internet
Até ao ano, até amanhã, até logo, até já

Imagem de: http://o.castelo.vai.nu.

Segunda-feira, Abril 25, 2011

25 de Abril revisited (com a UE, o FMI, a clientela habitual e outros)


Tanta gente se termina antes dos quarenta -
Uns porque se calam, outros porque calam, outros porque falam
E não há discursos institucionais que alterem
A viva realidade do caos teórico, in loco
Quando tudo é pouco...
O que leva, então, alguém a moldar o pensamento
Numa revolução honesta, sempre contra o tempo?
Incómodo, alguém tornado incómodo se cresce
Se já não deve, não se importa, nunca se importou
Alguém que, mal e bem, nunca se calou
E eis-nos todos nus face ao mundo que escurece...
Como em certas correntes da poesia brasileira
Dedico estas palavras, esta estranha cavaqueira
A Otelo, o inentendível que todos julgam entender
E ao João Freire e ao Guilherme que gostaria de rever.

Imagem de: http://revolucionaria.wordpress.com.

Domingo, Abril 24, 2011

Páscoa II


Mataram o cordeiro, sim
Na redenção pastosa do frenesim
Vermelho em que os sonhos todos morrem
E falsos xamãs enchem as ruas que percorrem
De sinos, foguetes, paramentos, rituais
E espíritos obviamente tão carnais

Mataram o cordeiro, o próprio Pai
E os seus exércitos de aves de rapina
Para servir o rumo, para cumprir a sina

Imagem de: www.allartclassic.com (detalhe de tela de Hieronymus Bosch).

Quarta-feira, Abril 20, 2011

Páscoa


Mataram o salvador da humanidade
Os sádicos, os bandidos, os corruptos
Que em actos malvados e abruptos
Nunca vi, senão de civilidade

Eles andam aí, eles-assombrações
Nunca partiram para os vis infernos
Nem os mártires para os céus eternos
Eu vejo-os sempre nas televisões

E em celebração do que se estabelece
Reúnem-se as famílias todas a comer
Ao som dos sinos, num cómodo esquecer
Para a ressaca que o espírito merece


Imagem de: http://alentejanando.weblog.com.pt/.



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