Segunda-feira, Novembro 16, 2009

Não corras





Não corras de rush matinal
Aos ritmos da tempestade
Que nas ruas da cidade
O passeio, o patamar,
As casas, estão no lugar
E a chuva cai sempre igual

Não se encurtam os segundos
Nos ponteiros da agudeza
Que não corrompe a beleza
Do fluir das estações
Nem pressas, nem lentidões
Tão regulares nos seus mundos

Não agarres comoções
Como quem persegue a vida
Como se fora a corrida
Se todos os elementos
Desde sempre existem lentos
Como Deus e as criações


Imagem de: http://melancholy-gretel.com.

Sexta-feira, Novembro 13, 2009

Pensamentos





O sol que trespassa as nuvens
As nuvens que calam o sol
As línguas que se entrelaçam
De pensamentos impuros
Porque tombam de maduros
Como a maçã na floresta
Como a silva no pomar
Não há pensamentos simples
Na auto-estrada neuronal
Pensamentos buzinando
Os dias entrelaçando
E dói a cabeça ao de leve
No Outono meridional


Imagem de: http://3danimation.e-spaces.com.

Quarta-feira, Outubro 28, 2009

Da encenação na arte à encenação na vida

Por mais que se diga e rediga o contrário, por mais que se explique até à exaustão a essência da arte, o leitor, o ouvinte, o observador, tendem permanentemente a encará-la como um retrato do artista, a arte como uma espécie de auto-retrato e, sobretudo mais ainda, um claro retrato de si mesmo.
Sucede que o artista tem, regra geral, um interesse estético na sua criação, o qual de algum modo se sobrepõe a outras intenções possivelmente presentes na obra e que tal se pode afirmar, inclusive, quando se fala, por exemplo, de uma tela hiper-realista. Assim, toda a obra de arte é uma encenação. E a encenação situa-se sempre em outros universos. Noutras palavras, nunca imaginei apelidar um diário ou uma biografia, hetero ou auto, de obra de arte. E aí reside um dos maiores logros do consumo da arte que, actualmente, chega a todos e a cada um - feliz e infelizmente.
Logro maior, entretanto, é a encenação da vida que tão naturalmente se pratica neste país em que doutores e engenheiros contam com o respeito geral (e, nos últimos anos, quem, melhor ou pior, acumula contas bancárias e cargos duvidosos), respeitados mesmo que o não sejam de facto, e em que os restantes são "todos iguais".
Não precisamos de um Salazar nem de um Marquês de Pombal para cultivarmos a cinzentidão, a homogeneidade e a mediocridade. Nenhum Dom Sebastião, pequeno rei medíocre, aliás, nos poderia salvar do nosso destino comum e esquizóide: o de um povo atarantado que raramente sabe que caminho trilhar e sempre lança a culpa da confusa polissemia existencial para o vizinho do lado.

Segunda-feira, Outubro 26, 2009

Os comentadores





Sentam-se em mesas redondas
Mesas quadradas, oblongas
E iniciam o sermão
Falam de deuses carnais
Sorridentes e mortais
No púlpito da televisão
Deus vai durar uma prece
Deus deve arder na fogueira
Deus sabe, deus desconhece
Deus tem a resposta certeira
Mas só eles são omniscientes
Desconhecidos presentes
Futurólogos insolentes
Do espelho da sociedade
Quem serão eles, na verdade?
E a fé que transporta a gente
É uma fé decadente
Destinada a dar razão
Às palavras do sermão
O orador disse, é real
Mas quem são eles, afinal?
Pregadores superficiais
Do nada que se transforma
Em linfomas razoáveis
De teses impenetráveis
Onde não vive a inocência
Os charlatães da ciência


Imagem de: http://images.spaceref.com.

Terça-feira, Outubro 13, 2009

Ismos





Vinha agora mesmo pensando
Em estoicismo e epicurismo
Panteísmo, paganismo, sensacionismo
Cristianismo, satanismo, solipsismo
Em Pessoa orthónymo e heterónymo
Na fractura que me não fractura
Dispersão que me não dispersa
Vinha pontuando pensamentos
E pensando talvez em coisa nenhuma
Ou pensando talvez que pensava
Sentindo coisas que já não existem
Porque passaram como os automóveis
Ou talvez não porque tudo é uma massa
Como a massa encefálica dolorida
Tomada de maçãs e cobras estrangeiras
E a teoria da Relatividade é tão bela
Como o braço perdido da Vénus de Milo
E todos os ismos em istmos desertificados


Imagem de: www.csf.itesm.mx.

Terça-feira, Outubro 06, 2009

Chuva outonal





Quantas árvores baixas aves amarelecentes
Sob a chuva aguda em sons laminosos
Dos céus outonais plúmbeos lacrimosos
Sobre o hemisfério tombam decadentes

A roda do mundo silencia o brilho
Com o silêncio novo da repetição
E tudo é trabalho esforço abnegação
Em guarda paciente como quem espera um filho


Imagem de: www.livinggallery.cc (tela de Karen Ricciuti).

Domingo, Setembro 27, 2009

Mais quatro anos atolados no lodaçal

O povo decidiu
O povo subsidiado
O povo ludibriado
O povo psicotizado
Mais quatro anos de energúmenos
De Gualters, Margheritas, Pedrosas
Terra de pedra
Terra de calhaus
Mais quatro anos de roubos a céu aberto
Mais quatro e o futuro a arder
E por isso a poesia a morrer
(escrita automática à visão das primeiras sondagens oficiais)

Sexta-feira, Setembro 11, 2009

Tudo é tão triste

BAÚ DE MEMÓRIAS



Durante as minhas recentes mudanças, deparei-me com este texto esquecido que, em 14 de Novembro de 2004, escrevi, pensando no meu filho Alexandre, então com seis anos. Como acho que não deve ficar esquecido, aqui vai um Baú de Memórias com um beijinho grande...


Tudo é tão triste quando estás ausente
A lasanha insípida, o sumo e o vinho
O céu descorado, a música ambiente
O jogo que não sei solucionar sozinho

Toda a gente é triste... A gente que importa?
Brechas nas paredes, ratazanas no sótão
E teias de aranha, a aranha já morta
Tudo é tão triste quando não me dás a mão...


Imagem de: www.atpm.com.

Sábado, Agosto 29, 2009

Ausência momentânea

Espero que todos estejam a ter umas férias excelentes no Tahiti. Sei que, sempre que podem, vão a um ciber café remoto e se ligam a este blog para ver o que há de novo. :) E os poemas tardam, tardam... É que tenho andado em mudanças e nem acreditariam a quantidade de tralha que se acumula ao longo dos anos. Resultado: falta de disponibilidade. Mas em breve estarei de volta! Até lá um abraço e não deixem de visitar semanalmente O Rodopio do Escorpião (links) para algo de novo.

Sábado, Agosto 15, 2009

Nos dias santos





Nos dias santos de pau carunchoso
Em ideias talhadas com velho pau santo
Os antiquários escondem-se nas praias
E enquanto o som geme habitual no altofalante
Injectado como um veneno, um pensamento parasita
Os bichinhos fogem em círculos, atarantados do calor
Por cima de mesas, por sobre calçadas
Os insectos financeiros não pausam hipotecas
Tombantes gotas metódicas em climas gélidos
Alguém mama de uma garrafa sob uma ponte de pedra
Tão longe da consciência, da idade adulta
E o rio segue ateisticamente indiferente a datas
Como o poeta anónimo traçando símbolos estranhos no papel


Imagem de: www.past-inc.org.

Quinta-feira, Agosto 06, 2009

Absurdo intemporal





Um cão meio rouco tosse com uma tosse material
E passa um cidadão com uma máscara mental
Um deles é imortal no instinto do palpável
O outro vive morto de medo do inefável
E caem pequenas gotas de aquecimento global
Que borram a minha folha de absurdo intemporal


Imagem de: http://us.f6.yahoofs.com.

Terça-feira, Julho 28, 2009

Mobilidade





Falam de sistemas móveis
Telecomunicações em inglês obscuro
Acentuam as anti-tónicas e
Omitem as óbvias arestas
Numa estética tão europeia
Estrasburgo sob o sol da Maia
O continente num roaming de placas
Portugal tectónico, telúrico
Recusam-se a pagar a tradutores
E os livros obrigatórios de instruções
Compõem uma algaraviada de intenções


Imagem de: www.g27.net.

Domingo, Julho 26, 2009

E





O café esgota-se num par de tragos amargos e a pop batida sai num assobio e palavras de ordem neutras dos altofalantes e todos procrastinam nas mesas de esplanada enquanto outros algarvam sob raios ultra-violeta e protecções totais ou trabalham ao domingo como maratonistas ao sol e descobri na net que a procrastinação é uma doença socialmente incompreendida e até pessoas razoáveis mandam as crianças afastar-se do fumo que cospem para o céu em pleno ar livre e a indústria do petróleo não pretende permitir alternativas realmente funcionais e a gripe aterrorizante passa de ecrã em ecrã e uma mão lava a outra pelo menos dez vezes ao dia e os corruptos coçam a barriga e falam por vezes da escravatura em países longínquos como universos alternativos e todos se encontram de algum modo no centro que todos invejam e desejam e não se deve beber quantidades subjectivas porque faz mal e pode ser censurável e os hipócritas afirmam que o mérito será recompensado às massas sem horário a quinhentos euros mensais e tudo é meia bola e força de excelência nacional e o fundo negro do café esfriou como um cadáver inerte ao som da pop indiscernível e todos querem atingir os cem com a pele lisa e lustrosa e a memória escorrega como um bichinho misterioso por um gargalo largo neste início do século vinte e um...


Imagem de: http://images01.trafficz.com.

Sábado, Julho 25, 2009

Como se fossem os seus pais





Aos domingos vão ao mar
Com o farnel no restaurante
E a garotada adiante
Todos juntos a gritar

Aos domingos vão à missa
Com um ar compenetrado
Ouvir o padre exaltado
E coisas da dona carqueja

Vão também à bola irosa
Para bater nos jogadores
Incompetentes maiores
Que a sua inveja acintosa

Aos domingos reunidos
Em volta dos seus talheres
Com os filhos e as mulheres
Eles gargalham divertidos

Como se não houvesse mais
Como se fossem os seus pais


Imagem de: http://neatorama.cachefly.net.

Sexta-feira, Julho 24, 2009

Pele





Vê-se o azul venoso
Sob a pele tecido
O tendão comprido
O fio nervoso
Tudo é movimento
Visão sensação
O toque ilusão
Célula momento
Sob a pele alvar
Fluem universos
Como mares submersos
Sempre a fervilhar
Sob a pele serena
Sob a pele morena
Lençol capilar


Imagem de: www.imageafter.com.

Quarta-feira, Julho 22, 2009

Vento





O vento veloz volteia
Em aliterações de canções
Que é feito dos meus Verões
Que sobrevivem na ideia
Que é feito daquele pomar
Do sol penetrando o Outono
Dos dias longos de sono
E a terra toda a vibrar
Que é feito de quem se perdeu
Tantas certezas partidas
No movimento das vidas
Que um temporal varreu
O sol que eu pressentira
Perpétuo, manso e enorme
O ontem que agora dorme
Como se nunca existira


Imagem de: http://fantasyartdesign.com.

Terça-feira, Julho 21, 2009

Aquários





Peixes coloridos, oásis esquecidos
Todos enfiados em aquários
Confinados por vidros sobre armários
E vagueiam pela rua os desvalidos

Aves esvoaçantes, rápidas, gritantes,
Todas encerradas em gaiolas
E um viciado estende a mão a esmolas
Sob o céu de nuvens tão pesantes

Outros vão de férias merecidas
Para paraísos do azul
Onde o mar murmura, lá no sul,
Histórias de atlântidas perdidas

E entretanto, na Europa quase morta
Que as ondas castigam, ruidosas,
As almas adormecem, silenciosas,
Diante do fechado em cada porta


Imagem de: http://7art-screensavers.com.

Segunda-feira, Julho 20, 2009

Quem





As lojas encerram as portas
As gentes cerram os olhos
Bombas de gasolina
Restaurantes com cortinas
O Verão em plena cidade
Quem rebentou Sá Carneiro
E anulou Cavaco Silva
Quem forçou a nulidade
Médicos numa mesa ao lado
Falam de enfartes, tromboses
Parece que quem os tem no sono
Quase ninguém sobrevive
E o fumo do meu cigarro
E o aroma do meu café
E o cheiro dos tubos de escape
Quem ainda caminha a pé
Quem me conserta o meu carro
Quem me dita estas palavras
Sorrateiras ao ouvido
Que espécie de espírito santo
Me fala assim por charadas
E o dia cresce às golfadas


Imagem de: http://portland.indymedia.org.

Domingo, Julho 19, 2009

Carros





Os carros passam em diversas direcções
E ninguém então os supõe escangalhados
Ou sequer alguma vez encostados
Com eles passam somente sensações

É bom sentir assim tons luminosos
Tudo mecanismo, movimento certo
Tudo numa linha e a verdade perto
Num nunca jogar dados caprichosos

Deus é pois perfeito na normalidade
Espírito, ciência ou o que aprouver
Os carros rolando ao amanhecer
E tudo imutável na eternidade


Imagem de: www.hollywood-tonight.com.

Sábado, Julho 18, 2009

Amor adolescente





Adolescentes de olhar alongado, certo e vago
Abstracção de intenções, calhau em rotunda nova
Ou uma estátua de sal que desaba com a estação
Ela, a cabeça no colo, abandona o coração
Não há calças esfarripadas nem sapatos poeirentos
Nem compromissos fatais a instituições engravatadas
Vida simples e a direito numa ausência de charadas
Eu amo-te, diz ela talvez, e ele responde com um beijo
E assim se deixam ficar junto a uma árvore estival
E assim permanecem sempre na ausência do bem e do mal


Imagem de: www.micheleomara.com.

Arrebentar as grilhetas





Arrebentar as grilhetas
Que aprisionam os boçais
Que acorrentam os normais
Que destroem os poetas
Arrebentar tudo em frente
Como um gigante pequeno
Como um soldado sereno
Como um bombista contente
Arrebentar com os muros
Com a certeza do amor
E nele a incerta dor
Alicerçar os futuros


Imagem de: www.xcite-design.co.uk.

Segunda-feira, Julho 13, 2009

Oração





Olho em redor e vejo gente normal
Passam, conversam, odeiam, amam, morrem
Gente que existe, uns param, outros correm
Sorrindo à singeleza do dia-a-dia igual

São gente simples, com forças e fraquezas
Os filhos pequenos correndo no passeio
Almoços ao domingo com algum vinho de permeio
Gente normal e eu preso às profundezas

Onde eu habito tudo é fogo e escuridão
Fundos soluços e correntes a arrastar
E se me ergo arduamente, a tropeçar
Cem mil demónios me apertam o coração

Que Deus me ajude a saber ser invisível
A merecer o ar incerto que respiro
A fazer compras e a dormir sem um suspiro
A amar quem amo sem tremores e culpa horrível


Imagem de: http://i8.photobucket.com.

Quinta-feira, Julho 09, 2009

Rato de laboratório





Quem chamou heróica à vida no limite?
À perda omnipresente, à alma doente,
Ao sono inquieto, ao mundo decadente,
Quem mitificou tudo o que não permite?

Que eu saiba, James Dean acabou rebentado
E não é um anjo da velocidade,
Não paira no campo nem na cidade
E o olhar perdeu-se, para sempre calado.

Tudo morre a tempo e há quem morra pior...
A vida de um rato preso, encurralado,
Sem fuga visível, num tempo parado,
É uma auto-morte e uma dor maior.


Imagem de: http://news.bbc.co.uk.

Sexta-feira, Julho 03, 2009

Speaking in tongues (lhulha)





meugnin egetorp oan euq rohnes o ajes otidneb
ossof mun matsarra es euq so e soicalap me meviv euq sod
osso adac artenep euq adahlemreva zul amu
mebmat satreba samlap soiamsed sotirg

sotnev soa sarvalap sahnartse açnal rehlum amu
setneod siam setneod so serbop macif serbop so e
setnerc so acifitnas os euq otnas otiripse o
satnel mabmot eugnas e ogof ed sateugnil sa


Imagem de: www.stphilipsfrisco.org.

Sexta-feira, Junho 26, 2009

Michael Jackson morreu





Quedou-se o teu passo lunar
Como o passado quedou
O ritmo que se calou
E a luz crepuscular

Dançaste a pop dança fatal
Em estranhas inspirações
Véus sobre a vida, as sensações
Soltaste o teu grito final

Ascendeste a algum nirvana
Onde actuam os mortais
Em palcos todos iguais
No repouso da luz plana


Imagem de: www.pestaola.gr.

Fogos de artifício na noite de Vila do Conde





Sentes os finos fios luminosos tombando lentos uma valsa lenta sobre os teus cabelos, a multidão atónita, as crianças pequenas adormecidas em carrinhos, os bichos e as traves de madeira, vês as águas reverberantes, coloridas, os barquinhos ondulando sob o peso fogueteiro Sentes explosões claras no meu olhar no nosso céu de bocas Finos fios luminosos, largas humanidades deslocantes Eis-nos um na margem como uma estrela iluminada e a imagem perdura nos sentidos


Imagem de: www.caithness.org.

Manhã tardia de S. João

BAÚ DE MEMÓRIAS





Reúnes-te com a família, com os amigos, credo, ainda sentes o cansaço da folia da noite plena até de madrugada a martelar, a martelar cabeças, o cheiro acre do alho ainda te rasteja no interior das narinas como um ninho de vermes luminescentes, um balão solitário morre ainda em fiapos incendiários como linguetas do espírito santo derramando-se na praia onde alguns acordam aos primeiros raios do dia... Dói-te o corpo de muitas cervejas. Já estão todos em casa a dormir, salvo nas casas onde os pequenos saltam para o sofá e ligam o canal com as animações japonesas. O céu de cinzas de fogueiras esgotadas derrama suavemente o seu manto húmido sobre o Porto e arredores, as ruas ainda meio vazias a ecoar humanos excessos que se escoam lentamente em todas as direcções até ao suave adormecer. Saio para pagar contas, fazer compras, ninguém me convidou para o São João e ninguém me acompanha nas tarefas diárias que realizarei automaticamente, apaticamente, mornamente, depois de um café tão negro e tão fugaz. Sei que um dia o São João me virá bater à porta... “Vinha convidar-te para festejares comigo”. “Pode ser, mas não me quero deitar de manhã”. “Não fujas à vida. Anda. Depois se verá”. Não tenho pressa. Os dias são tão espontâneos! Imagino o céu multiplicado em miríades de estrelas cadentes, a excitação dos astrónomos encerrados em observatórios, os astrólogos a traçar febrilmente cartas astrais actualizadas, balões de São João, tão lentos no seu esplendoroso percurso inescapável... Não tenho pressa. O dia também não.



Maia, 24 de Junho de 2004



Imagem de: http://cidadesurpreendente.blogspot.com/.

Segunda-feira, Junho 22, 2009

Ausência da saudade





Não tenho saudades de nada
Nem do Verão, nem do Inverno
Da infância e da velhice
Do que algum dia eu já disse
Do céu mental, do inferno
Da vida futura e passada

Sinto como um filme a estrada
O sol em brilhos difusos
A chuva levada no vento
Os ritmos do crescimento
Os dias que passam confusos
Não tenho inveja de nada

Invejo só as aves talvez
Saltitando no relvado
Invejo-as com um sorriso
Vivem num paraíso
De memórias sem passado
Não devo ser português


Imagem de: http://user.it.uu.se.

Domingo, Junho 21, 2009

Hei-de escrever uma letra na brisa





Hei-de acabar a escrever uma letra
Plena de poesia e significados
Uma letra feita de traços inventados
Que rime consigo em nadas ritmados
Uma letra simples, uma simples letra

Hei-de acabar com um tambor na mão
Lançando uma nota forte e concisa
Levada pelo mundo num sopro de brisa
Uma mera pinta numa tela luísa
Uma arte pequena onde nada é vão


Imagem de: www.fredmiranda.com.

Sábado, Junho 20, 2009

O beijo





Casamentos, nascimentos, falecimentos
E o meu filho cortando o cabelo à zero zero sete
Tudo passa e o cabelo cresce entre enervamentos
Relaxamentos, enquanto o sol derrete
Desde o alcatrão tão negro da estrada
Ao granito da rua, corroído lentamente
E eis-nos sempre junto a portas de entrada
Portas de saída, caminhos de gente
Por entre a vida, choros, festas, nada
Tudo o que interessa é o teu beijo quente


Imagem de: http://s223.photobucket.com.

Segunda-feira, Junho 15, 2009

Abstracto





Olha o cão debicando um grão no areal
Enquanto quebra o ramo plano de betão
E a moda nova invade o pino do Verão
Na sala um mergulhão beija o chão irreal

Poetas e pintores, cantores da negridão
Desenham sete mares e os ares entontecidos
Como uma feira de tecidos sem sentidos
Que ascendem, tombam, caem a pique em explosão

E a bolha do universo rebenta fulcral
Como um choro infantil num covil a dormir
Ideias racionais, contas de dividir
Milagre e multiplicação do pão papal


Imagem de: www.postershop.com (tela de Jackson Pollock).

Domingo, Junho 14, 2009

Crianças sorridentes e rabugentas





Gosto das crianças rabugentas
Porque pedem e imploram abertamente
Mostram-se com sede quando estão sedentas
E não transformam o que lhes vai na mente

Gosto, também, de lhes ver o sorriso
Porque não há cáries nas suas dentições
Nem coisas sérias como dentes do siso
E não se prendem a considerações

Eles são os anjos que assombram os dias
De espectros esguios no inferno terreal
Escondidos em missas e em homilias
Os anjos aquém do bem e do mal


Imagem de: http://tarichmond.com.

Sábado, Junho 13, 2009

As musas





Há locais como fluidas nascentes
Onde as musas conspiram reunidas
Sussurrando mistérios aos presentes
Que inventam universos como vidas

Podem ser a esquina de uma rua
Esplanadas na cidade ou à beira-mar
Um ermo de onde se avista a lua
Um quarto onde o sol não logra entrar

Elas têm caminhos insondáveis
Essas musas vagas e mentais
Que disfarçam de emoções fortes, palpáveis
As construções das coisas racionais

E há outros sítios, belos porventura
Dignos de postais de cor e alento
Onde tudo é oco, nada é aventura
E o poeta é uma pedra seca ao vento

Quem de fora observa sem saber
Crê que tanto faz, qualquer local
Mas as musas são cruéis no seu escolher
E amam ou desprezam por igual


Imagem de: www.wga.hu.

Quinta-feira, Junho 11, 2009

Nuvens baixas





Eis toda a cidade paralisada
Sob o peso das nuvens, do feriado
A própria natureza dos jardins tão ralentada
Como a respiração pausada de um acamado

Só as crianças correm, inocentes
Para os balouços esquecidos pelo sol
E até um cão de olhos indolentes
Parece arrastar-se como um caracol

Neste Junho escuro, fraco, deslocado
Reflectem-se os homens e o seu existir
Na vida e no telenoticiário contristado
Na crise que é pensar mais do que sentir


Imagem de: http://en.easyart.com (tela de Sherrie McGraw).

Segunda-feira, Junho 08, 2009

O homem só





Há um cavalheiro encanecido
Num café onde costumo ir
Que fala solitariamente, convencido
Que pouco importa que o estejam a ouvir

Vai fumando cigarro após cigarro
E tossindo num tom cavo de igreja
Da vida que passou o denso escarro
Que ninguém entende nem deseja

E os outros, em redor, riem, esquecidos
Indiferentes ao morrer da alma alheia
Enquanto eu teço frases e sentidos
Longamente, como a aranha tece a teia


Imagem de: http://jeffreygoldsmith.com.

Quinta-feira, Junho 04, 2009

Pop music





Escuta o rec-trec da pop music no ar
Uma praga moderna, mole e satisfeita
No cafés, nas lojas de pronto-a-vestir
Nos restaurantes, janelas escancaradas
E as casas vendem-se com música ambiente
Tudo é igual, nada é diferente
Tudo industrial, tão perfeitamente
Conversa de vendas em folhas pautadas
Tudo é ruído, fábrica total
O próprio rumorejar das folhagens
As sequências modulares das imagens
Rec-trec da pop music, horda, formigueiro
Tudo é ruído de ondas hertzianas
A roupa é ruído, as sensações planas
Ruído da crise, pop music no ar
Dinheiro a tinir e tudo a pairar
E em pleno deserto, no espaço vazio
Onde a areia voa como o pensamento
O silêncio é estranho, a paz um tormento


Imagem de: www.maximumeyewear.com.

Quarta-feira, Junho 03, 2009

Porque é que se levam a sério?





Porque é que se levam a sério
Inclusive quando brincam
E quando fingem brincar
Como se fossem concretos
Como se fossem sagrados
Como se fossem bonitos ou feios ou engraçados
Como se fossem felizes ou tristes e desgraçados
Como se algo existisse
Como se algo persistisse
Porque é que se levam a sério
Porque julgam ter motivos
Porque se imaginam vivos


Imagem de: http://en.easyart.com (tela de Grant Wood).

Segunda-feira, Junho 01, 2009

O sol





O sol é belo e cruel como o cosmos imoral
Morrem os campos ressequidos porque é natural
Secam lagos, morrem peixes sem clara razão
O sol abrasa o dia como irriga a escuridão

E cada estrela possui, no entanto, os dias contados
Como cada grão fervente nos areais transmutados
E eu amo o sol sem motivo, jamais pela crueldade
Mas pela sua abstracção tisnada de humanidade


Imagem de: www.trekearth.com.

Sexta-feira, Maio 29, 2009

Ramo contundente, rumo contundido





Eu nunca sou o que escolhe
Limito-me a ser escolhido
Nunca sigo a via recta
Mas o rumo contundido
Nunca sou o meu maestro
Mas sim o que é dirigido
E causam-me igual impressão
O Inverno e o Verão
O silêncio e o ruído
O concreto e o indefinido

Os próprios ramos rasgados de uma árvore indolente
Agridem-me à passagem
Quando sigo, o olhar erguido, fixado numa miragem
Passando pacificamente

Que me embatem surpreendido!

Talvez devesse ir rasteiro
Talvez devesse ir inteiro
E o mundo fizesse sentido


Imagem de: www.galleryhenoch.com.

Quinta-feira, Maio 28, 2009

Vaga e lenta sonolência





Vaga e lenta sonolência
Ópio natural dos ares
Sereia dos sete mares
Invade a minha cadência

Ritma-me de um ritmo etéreo
De uma orquestra imaginada
Tocando bem afinada
Sons do óbvio e do mistério

Cobre-me de asas subtis
Que me levem em viagem
Em cada cor, cada imagem
Numa galáxia feliz

Explica-me que é bom sorrir
Num vagar universal
Aquém do bem e do mal
Que sonhar é existir


Imagem de: http://sleepzine.com.

Quarta-feira, Maio 27, 2009

A cidade



A cidade é uma interessante colmeia de contrasensos e paranóia, de cujo mel gosto de me cobrir e besuntar num curioso fenómeno de desmaterialização observadora que algumas abelhinhas de instintos mais guerreiros não deixariam de encarar desconfiadamente se ao menos me considerassem suficientemente digno de um rasgo, um instinto mascarado de pensamento lógico, como certos homens se travestem nos carnavais e certas mulheres se sentem confortáveis com o nó de uma gravata em torno do pescoço esticado.
Gosto de a percorrer no meu próprio passo e permitir que em mim fluam caudais de breves interrogações sem qualquer hipótese de resposta útil nem, talvez, um notório interesse para o desenvolver de qualquer movimento... Porque é que aquele grita e gesticula para um telemóvel inerte? Porque é que aquela passeia a aparência numa pose comprometida, como se todas as energias de todas as barragens e centrais nucleares não servissem senão para manter acesos os holofotes que permanentemente a assediam? Porque é que o outro, ósseo, pálido, esquálido, fixo, imerso num sorriso estranho e idiota, gasta os dias no mesmo passeio curto com o intuito único de pedir cigarros e moedinhas? Porque é que os velhos se sentam em bancos desgastados, lentos, quase imóveis, envelhecendo a par da própria vaidade, sem sequer o prazer vagamente atrevido de deitar cartas por dinheiro enquanto aguardam a chegada mensal da próxima prestação de medicamentos? Porque é que alguém chora e ri intercaladamente como se cada instante fosse um universo oculto e isolado? No fundo, por que razões me permito este fluir quase maníaco de interrogações desconstrutivas?
Tudo isso me agrada de uma tonalidade quase doentia e sado-maso, como aqueles momentos que antecedem certos pôres-do-sol, quando uma determinada luminosidade se introduz no cérebro, pressionando a caixa craniana até à enxaqueca e ao vómito. Mas não me oferece a paz. A paz, essa paz subjectiva e relativa que alimenta os poetas escrevinhadores e os outros, pertence a uma dimensão diferenciada: a dos passeios de cimento ou piso português, das casas desocupadas, dos candeeiros longilíneos, dos vidros displicentemente limpos, dos automóveis mal estacionados, das portas entreabertas e ainda as árvores, flores, relvados, o passaredo, os cães ridículos com as suas caudas pendulares, os gatos caçadores e tudo o que se move instintivamente do céu ao mar. Numa palavra, tudo o que não se exprime em nenhuma das línguas que desabam do caos bíblico que, uma vez mais e sempre, esmaga e pisoteia quem ouse estirar-se e olhar em direcções não antecipadas. Porque a cidade é um campo de batalha e a guerra é uma palavra
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Imagem de: http://wallpapers.bpix.org.

Segunda-feira, Maio 25, 2009

Mais uma brincadeira...

Cá vai um pequeno blues improvisado. Obviamente, sem rede - que graça teria a vida sem algum risco? :)


A balada de Pedro e Inês





Como soe dizer-se, and now for something completely different...



Inês era a aia preferida
Da esposa de Pedro, Constança
Jovem, crente na esperança
Das ilusões desta vida

Pedro, um príncipe mimado
Acostumado a mandar
Nas gentes, na terra e no mar
Do seu futuro reinado

Cruzaram-se os seus desejos
E logo os corpos sedentos
Sensações aos quatro ventos
Mil promessas e ensejos

Na corte, na solidão
Constança da prole cuidava
Enquanto Pedro gozava
Uma vida de traição

Mas a Pedro que importava
Se estava acima da lei
Se era o futuro rei
Que os destinos comandava

Então, o rei pai, no trono
Frio no seu matutar
Decidiu ter de ordenar
Um fim àquele abandono

E o sangue de Inês correu
Como corre o rio ao mar
Como flui no vento o ar
Como alternam a luz e o breu

Passadas as estações
Pedro, cego de vingança
Não quis saber de Constança
Mas de arrancar corações

E, à força, foi beijado
O esqueleto apodrecido
Coberto de um rico vestido
De Inês, desenterrado

Justiceiro nos anais
Escreveram-lhe altos poemas
Menorizando os dilemas
Das tibiezas mentais

Junto a Deus têm-no querido
Como um herói do amor profano
Mas eu vejo-o morto e humano
Num túmulo carcomido



Imagem de: http://poesiadelmomento.com.

Quinta-feira, Maio 21, 2009

Os comedores de sonhos





Comem, metódicos e insaciáveis
Pedaços de vida e imaginação
Jorros essenciais de vermelhidão
Banquetes mentais de vinho e de pão
Todos os sentires circunvolucionáveis

Comem as formas, as cores, os olhares
Em partos constantes, na imitação
Dos vastos primórdios, na recriação
De deuses esquecidos na própria explosão
De onde tombam céus, montanhas e mares

E são consumidos mas nunca entendidos
Como não se entende o quê da existência
Como mal confunde a humana ciência
O ser, o saber e a congruência
Sonhos transformáveis e já digeridos


Imagem de: http://novaonline.nvcc.edu.
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