sexta-feira, junho 26, 2009

Michael Jackson morreu





Quedou-se o teu passo lunar
Como o passado quedou
O ritmo que se calou
E a luz crepuscular

Dançaste a pop dança fatal
Em estranhas inspirações
Véus sobre a vida, as sensações
Soltaste o teu grito final

Ascendeste a algum nirvana
Onde actuam os mortais
Em palcos todos iguais
No repouso da luz plana


Imagem de: www.pestaola.gr.

Fogos de artifício na noite de Vila do Conde





Sentes os finos fios luminosos tombando lentos uma valsa lenta sobre os teus cabelos, a multidão atónita, as crianças pequenas adormecidas em carrinhos, os bichos e as traves de madeira, vês as águas reverberantes, coloridas, os barquinhos ondulando sob o peso fogueteiro Sentes explosões claras no meu olhar no nosso céu de bocas Finos fios luminosos, largas humanidades deslocantes Eis-nos um na margem como uma estrela iluminada e a imagem perdura nos sentidos


Imagem de: www.caithness.org.

Manhã tardia de S. João

BAÚ DE MEMÓRIAS





Reúnes-te com a família, com os amigos, credo, ainda sentes o cansaço da folia da noite plena até de madrugada a martelar, a martelar cabeças, o cheiro acre do alho ainda te rasteja no interior das narinas como um ninho de vermes luminescentes, um balão solitário morre ainda em fiapos incendiários como linguetas do espírito santo derramando-se na praia onde alguns acordam aos primeiros raios do dia... Dói-te o corpo de muitas cervejas. Já estão todos em casa a dormir, salvo nas casas onde os pequenos saltam para o sofá e ligam o canal com as animações japonesas. O céu de cinzas de fogueiras esgotadas derrama suavemente o seu manto húmido sobre o Porto e arredores, as ruas ainda meio vazias a ecoar humanos excessos que se escoam lentamente em todas as direcções até ao suave adormecer. Saio para pagar contas, fazer compras, ninguém me convidou para o São João e ninguém me acompanha nas tarefas diárias que realizarei automaticamente, apaticamente, mornamente, depois de um café tão negro e tão fugaz. Sei que um dia o São João me virá bater à porta... “Vinha convidar-te para festejares comigo”. “Pode ser, mas não me quero deitar de manhã”. “Não fujas à vida. Anda. Depois se verá”. Não tenho pressa. Os dias são tão espontâneos! Imagino o céu multiplicado em miríades de estrelas cadentes, a excitação dos astrónomos encerrados em observatórios, os astrólogos a traçar febrilmente cartas astrais actualizadas, balões de São João, tão lentos no seu esplendoroso percurso inescapável... Não tenho pressa. O dia também não.



Maia, 24 de Junho de 2004



Imagem de: http://cidadesurpreendente.blogspot.com/.

segunda-feira, junho 22, 2009

Ausência da saudade





Não tenho saudades de nada
Nem do Verão, nem do Inverno
Da infância e da velhice
Do que algum dia eu já disse
Do céu mental, do inferno
Da vida futura e passada

Sinto como um filme a estrada
O sol em brilhos difusos
A chuva levada no vento
Os ritmos do crescimento
Os dias que passam confusos
Não tenho inveja de nada

Invejo só as aves talvez
Saltitando no relvado
Invejo-as com um sorriso
Vivem num paraíso
De memórias sem passado
Não devo ser português


Imagem de: http://user.it.uu.se.

domingo, junho 21, 2009

Hei-de escrever uma letra na brisa





Hei-de acabar a escrever uma letra
Plena de poesia e significados
Uma letra feita de traços inventados
Que rime consigo em nadas ritmados
Uma letra simples, uma simples letra

Hei-de acabar com um tambor na mão
Lançando uma nota forte e concisa
Levada pelo mundo num sopro de brisa
Uma mera pinta numa tela luísa
Uma arte pequena onde nada é vão


Imagem de: www.fredmiranda.com.

sábado, junho 20, 2009

O beijo





Casamentos, nascimentos, falecimentos
E o meu filho cortando o cabelo à zero zero sete
Tudo passa e o cabelo cresce entre enervamentos
Relaxamentos, enquanto o sol derrete
Desde o alcatrão tão negro da estrada
Ao granito da rua, corroído lentamente
E eis-nos sempre junto a portas de entrada
Portas de saída, caminhos de gente
Por entre a vida, choros, festas, nada
Tudo o que interessa é o teu beijo quente


Imagem de: http://s223.photobucket.com.

segunda-feira, junho 15, 2009

Abstracto





Olha o cão debicando um grão no areal
Enquanto quebra o ramo plano de betão
E a moda nova invade o pino do Verão
Na sala um mergulhão beija o chão irreal

Poetas e pintores, cantores da negridão
Desenham sete mares e os ares entontecidos
Como uma feira de tecidos sem sentidos
Que ascendem, tombam, caem a pique em explosão

E a bolha do universo rebenta fulcral
Como um choro infantil num covil a dormir
Ideias racionais, contas de dividir
Milagre e multiplicação do pão papal


Imagem de: www.postershop.com (tela de Jackson Pollock).

domingo, junho 14, 2009

Crianças sorridentes e rabugentas





Gosto das crianças rabugentas
Porque pedem e imploram abertamente
Mostram-se com sede quando estão sedentas
E não transformam o que lhes vai na mente

Gosto, também, de lhes ver o sorriso
Porque não há cáries nas suas dentições
Nem coisas sérias como dentes do siso
E não se prendem a considerações

Eles são os anjos que assombram os dias
De espectros esguios no inferno terreal
Escondidos em missas e em homilias
Os anjos aquém do bem e do mal


Imagem de: http://tarichmond.com.

sábado, junho 13, 2009

As musas





Há locais como fluidas nascentes
Onde as musas conspiram reunidas
Sussurrando mistérios aos presentes
Que inventam universos como vidas

Podem ser a esquina de uma rua
Esplanadas na cidade ou à beira-mar
Um ermo de onde se avista a lua
Um quarto onde o sol não logra entrar

Elas têm caminhos insondáveis
Essas musas vagas e mentais
Que disfarçam de emoções fortes, palpáveis
As construções das coisas racionais

E há outros sítios, belos porventura
Dignos de postais de cor e alento
Onde tudo é oco, nada é aventura
E o poeta é uma pedra seca ao vento

Quem de fora observa sem saber
Crê que tanto faz, qualquer local
Mas as musas são cruéis no seu escolher
E amam ou desprezam por igual


Imagem de: www.wga.hu.

quinta-feira, junho 11, 2009

Nuvens baixas





Eis toda a cidade paralisada
Sob o peso das nuvens, do feriado
A própria natureza dos jardins tão ralentada
Como a respiração pausada de um acamado

Só as crianças correm, inocentes
Para os balouços esquecidos pelo sol
E até um cão de olhos indolentes
Parece arrastar-se como um caracol

Neste Junho escuro, fraco, deslocado
Reflectem-se os homens e o seu existir
Na vida e no telenoticiário contristado
Na crise que é pensar mais do que sentir


Imagem de: http://en.easyart.com (tela de Sherrie McGraw).

segunda-feira, junho 08, 2009

O homem só





Há um cavalheiro encanecido
Num café onde costumo ir
Que fala solitariamente, convencido
Que pouco importa que o estejam a ouvir

Vai fumando cigarro após cigarro
E tossindo num tom cavo de igreja
Da vida que passou o denso escarro
Que ninguém entende nem deseja

E os outros, em redor, riem, esquecidos
Indiferentes ao morrer da alma alheia
Enquanto eu teço frases e sentidos
Longamente, como a aranha tece a teia


Imagem de: http://jeffreygoldsmith.com.

quinta-feira, junho 04, 2009

Pop music





Escuta o rec-trec da pop music no ar
Uma praga moderna, mole e satisfeita
No cafés, nas lojas de pronto-a-vestir
Nos restaurantes, janelas escancaradas
E as casas vendem-se com música ambiente
Tudo é igual, nada é diferente
Tudo industrial, tão perfeitamente
Conversa de vendas em folhas pautadas
Tudo é ruído, fábrica total
O próprio rumorejar das folhagens
As sequências modulares das imagens
Rec-trec da pop music, horda, formigueiro
Tudo é ruído de ondas hertzianas
A roupa é ruído, as sensações planas
Ruído da crise, pop music no ar
Dinheiro a tinir e tudo a pairar
E em pleno deserto, no espaço vazio
Onde a areia voa como o pensamento
O silêncio é estranho, a paz um tormento


Imagem de: www.maximumeyewear.com.

quarta-feira, junho 03, 2009

Porque é que se levam a sério?





Porque é que se levam a sério
Inclusive quando brincam
E quando fingem brincar
Como se fossem concretos
Como se fossem sagrados
Como se fossem bonitos ou feios ou engraçados
Como se fossem felizes ou tristes e desgraçados
Como se algo existisse
Como se algo persistisse
Porque é que se levam a sério
Porque julgam ter motivos
Porque se imaginam vivos


Imagem de: http://en.easyart.com (tela de Grant Wood).

segunda-feira, junho 01, 2009

O sol





O sol é belo e cruel como o cosmos imoral
Morrem os campos ressequidos porque é natural
Secam lagos, morrem peixes sem clara razão
O sol abrasa o dia como irriga a escuridão

E cada estrela possui, no entanto, os dias contados
Como cada grão fervente nos areais transmutados
E eu amo o sol sem motivo, jamais pela crueldade
Mas pela sua abstracção tisnada de humanidade


Imagem de: www.trekearth.com.
advertising
advertising Counter