domingo, abril 29, 2007

Chuva picotada




Cai uma chuvinha picotada
Como naqueles recortes do jardim de infância,
Como na infância embalsamada,
Como na memória trucidada...
Cai uma chuvinha como um Passatempo Infantil
Num canal a preto e branco há tanto tempo!...
Espera... Falámos certa vez, não foi?
Conversámos longamente e senti-me alguém
Porque eras freak e fixe e feminina
E nem pensavas picotar-me a existência.
A memória recorda assim todos os fantasmas,
Absolutamente caótica e ocasional,
O Vilarinho, agora - e morto já! -, a antever-me a fama,
Sempre o tempo como um sonho difuso,
Ora próximo, ora distante, ora confuso...
Cai uma chuvinha picotada,
Espírito Santo chovendo sobre a igreja
E todos os templos do universo sobre a minha vida.
Blue cheer, vulcão negro, yellow submarine...
Nunca provei, mas sei como quem sente
A vida como ácida e impermanente.


Imagem original de www.flickr.com.

terça-feira, abril 24, 2007

Ghost Dance novamente disponível

Bom dia, boa tarde ou boa noite. Acabo de decidir redisponibilizar aos eventuais interessados a minha obra Ghost Dance - Histórias do Surreal Americano.
Trata-se de um grupo de contos (ou short stories, visto que a trama dos contos tem integralmente lugar na costa Oeste dos Estados Unidos), introduzidos por pequenos poemas.
A quem tiver interesse em travar conhecimento com a obra, peço simplesmente o favor de me contactar através do email disponibilizado no meu perfil.
Um abraço.

sábado, abril 21, 2007

Círios




Círios, nos cemitérios,
Mármores pálidos, etéreos,
Lágrimas que se contêm,
Verbos que se detêm...

Círios tremeluzentes
Sob os astros indiferentes,
Que histórias para sempre caladas
Se esvaem em chamas, em nadas!

E à superfície brilhante,
Dos subterrâneos distante,
Conversam as mães, sorridentes.

Aguardam os filhos contentes
Que chegam da catequese
Num sábado de diocese.


Imagem de www.conecereisdeverdad.org.

sexta-feira, abril 20, 2007

Saudade




Longe, entre a neve e o vento,
Onde brota só a ausência,
Ceifada a raiz do tempo,
Tudo é tundra e consciência.

Que te dizem essas ilhas?
Que te contam essas línguas
Que são da diferença filhas
E vivem de vácuos e mínguas?

Quem dera sob este azul,
Sobre esta terra vulgar,
Pudesse eu teus olhos beijar...

E gestos de amor normais
Se renovassem totais
À luz boa deste sul!


Imagem de http://home.comcast.net (arte de Michael Rosenzweig).

quinta-feira, abril 12, 2007

Rimas




Crê-me, se quiseres crer,
Pois nada tenho a dizer...
Tudo é feito do momento
E o que eu disser leva-o o vento.
Rima, se quiseres rimar,
Que eu escuto, queira eu escutar...
Tudo é ritmo e rima a ser
Como os dentes a ranger.
Tudo é vago e ilusório,
Céu, inferno e purgatório...
Tudo é feito do momento,
O tudo, o distanciamento,
A ausência, o sentimento,
O nada imenso do ser.
Crê-me, se quiseres crer...


Imagem de www.windows.ucar.edu.

terça-feira, abril 10, 2007

Vaidade




Tem cuidado quando olhares, se olhares,
Pois olharás, certamente, para alguém.
E cuidado com os gestos... Se tocares
Na vizinha, serás visto com desdém.

Tem cuidado ao falares, se falares,
Pois estarás certamente usando maldizer
De todas e de cada. Quando te calares
Lembra-te: fazendo-o, estar-te-ás a fazer.

Todo tu és assédio sem saberes,
Que o sexo é virulento, é tifóide.
Há uma polícia, uma inquisição, nos seres...
Chama-lhe vaidade ou idiotia paranóide.


Imagem de www.surrealcorner.com (tela de Gil Marosi).
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