domingo, fevereiro 05, 2006

Sangue e verdade

Vejo-os de todas as nacionalidades, línguas, cores e crenças...
Vivem com o espírito da família e com o da traição.
Por metálicas moedas desprezíveis, quantos não venderam os seus melhores
Para logo perderem a existência em suicidárias roletas russas?
Tivesse a miséria ingenuamente oculta desaparecido das vidas,
Não tivessem todos sido terra na terra lamacenta
A fervilhar intensa da vermínea e dos vulcões...
Tivesse o acto virulento da família e da traição
Gerado algum sentido, algum resquício de verdade,
Algum esquecimento das cruzes e coroas de espinhos,
As lágrimas de uns entrecortadas das gargalhadas de outros,
E já tanta inoperância ganharia algum valor...
Não fossem o sangue seco e as crostas memoráveis a vergonha do mundo velho,
O sangue, tanto e tão naturalmente jorrando de corpos jovens e já esclerosados,
E em verdade nos poderíamos fundir no sol nascente como raios ao vento invisível...
Mas tudo é, já o afirmei?, de tal forma amalgamado,
A pastosidade do sangue, o eufemismo da verdade,
Que o único sentido possível da vida
Só pode ser não o procurar.



Imagem de www.trentu.ca.

Poema de Joaquim Camarinha

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