sábado, novembro 19, 2005

Animália

Todos os dias se amontoam inocentes nas valas comuns.
Todos os dias alguma pedra sólida se liquefaz.
Morrem os sonhos e as certezas
E os rebanhos balem felizes a caminho dos matadouros.
Novos senhores substituem os antigos
E, alarves, gargalham à mesa larga dos despojos.
Dizem-nos que os sacrifícios são inevitáveis...
Mentem-nos há trinta e um anos, setenta e nove, noventa e seis e antes, tão antes,
Mentem-nos incessantemente e arrancam-nos a pele
Porque a natureza do lobo é inescapável
E os rebanhos seguem-no felizes a caminho dos matadouros.
Um dia, as matilhas do presente finar-se-ão patéticas,
De patas estendidas para o céu indiferente...
Nesse dia, os rebanhos festejarão com danças, fogos de artifício e exclamações,
Sem que, de todo, possam escapar à natureza do rebanho.
Nesse dia, planarei largamente em círculos pelo céu vazio
E, planando, soltarei o meu grito de júbilo e desgraça.



Imagem de www.bergoiata.org.

Poema de Joaquim Camarinha

1 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Ler estas palavras... inspirou -me confiança para partir, mas pra onde?!
Gostei:)

9:00 da tarde  

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