quinta-feira, fevereiro 09, 2006

A Coxa

MOTE:

"...Depois me deitei novamente, acendi um cigarro e fiquei pensando...
- Humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei."

(Manuel Bandeira)


Passou por mim uma coxa...
Tinha, coitada, uma perna menor que a outra
E pareceu-me ler-lhe nos lábios, nas roupas, no olhar,
O esforço desmedido de quem luta pelo impossível equilíbrio.
Todos corriam, atarefados, em todas as direcções,
Tensos com a vida, decididos, derrotados.
Alguns carregavam pesadíssimos sacos de compras
E planeavam mentalmente o jantar para a família.
Um par de namorados argumentava, cerradamente, sobre coisas sérias,
Toldavam-se, contidamente, em gestos, palavras e expressões.
A coxa parara junto a uma montra de revistas... Descansava.
Então, um rapaz segurou-a por trás, pela cintura,
Beijou-a e pronunciou um "meu amor" seguro.
A lágrima contida já se soltara do olhar dos namorados...
Colando mais um cigarro incandescente aos meus lábios enxutos,
Fiquei quieto, muito quieto, a pensar...
Humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei.



Imagem de www.louisefarrel.com (escultura de Louise Farrel).

Poema de Joaquim Camarinha

2 Comments:

Blogger Paixao said...

mt profundo! fez-me lembrar um texto de Fernando Pessoa, chamado "Metáfora de uma alma à janela" (se a memória não me trai), em que o orador é uma corcunda. i'll be back

4:12 da tarde  
Blogger Jorge Simões said...

Obrigado pela visita. Essa comparação a Pessoa deixa-me simultaneamente honrado e acabrunhado. Beijinho.

4:36 da tarde  

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