segunda-feira, março 16, 2009

Um funeral





Pálidas campas e mausoléus reunem-se em torno
Da gente de olhar pregado na madeira, na terra, na calçada
Tantos olhos tímidos do futuro sob o céu azul
As cruzes, os anjos românticos em poses suplicantes
Nossa Senhora de mãos postas e o olhar num candeeiro
E o padre soletra algumas palavras como pedras
Nos olhos de tempo paralisado dos não ausentes
Um soluço rompe o muro, é necessária contenção
Caem raios do sol gordo como pingentes inúteis
E paira uma pomba brava na primeira linha do voo
Voou a alma do defunto? Onde está? Quem viu?
Além da fotografia de um instante já tão vago
Nas memórias persistentes em manter o movimento
O bando é agora um esquadrão em voo quase alinhado
Vão na sua vida pequena, diária, com indiferença
Sentem, talvez, o cheiro da morte a erguer-se
E traçam círculos diversos sobre a roda dos presentes
Como arquitectos intuitivos a soldo do bonecreiro ausente
Nascem novos rebentos dos ramos de Março ensolarado
E cada folha é distinta como cada vida alheia
Silenciou-se o padre que parte agora entre o incenso...
Orai pelas nuvens!


Imagem de: www.birminghammail.net.

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